O debate deixou "implícito" que tanto Seguro como Ventura esperam encontrar-se "no futuro como Presidente da República e primeiro-ministro"

28 jan, 07:00

ANÁLISE || Ponto de partida: "Quem está indeciso permanece indeciso" depois do que aconteceu ontem. Guia de leitura: “Repara-se que não houve neste debate nenhuma posição que seja insanável em termos de convívio futuro” entre ambos ("isso dá que pensar"). Nota política: "Esta segunda volta não gera o entusiasmo da de 1986". Nota desportiva: se o debate de ontem fosse ténis, cometeram-se "erros não forçados"

Um debate “morno”, em que o guião “foi muito parecido” com o do duelo anterior e em que, no final, “quem está indeciso, permanece indeciso”. Seguro e Ventura voltaram a encontrar-se para o derradeiro debate antes de um deles ser eleito, mas, para os especialistas em comunicação política, não existiu nos 70 minutos “um golpe de asa” suficiente para convencer quem não está convencido - ou mesmo para quem ainda não decidiu se vai sair de casa para votar. 

Sílvia Mangerona, politóloga e investigadora em comunicação política, sublinha que ambos os candidatos não conseguiram “um rasgo motivacional” para contrariar o “grande adversário dos dois”, a abstenção. “Penso que este era o momento para disputar o eleitorado que não pertence nem ao PS nem ao Chega e que esperava um motivo para sair no dia das eleições e ir votar. Nenhum dos candidatos atingiu esse objetivo.” 

Em parte, explica, porque o rol de ataques e defesas não variou muito face ao debate de novembro - “Ventura continuou a tentar encostar Seguro à herança do PS e Seguro a tentar desvincular-se da ideia de uma candidatura partidária”. Ainda assim, entre ambos, a politóloga notou uma estratégia diferente. “Repara-se que não houve neste debate nenhuma posição que seja insanável em termos de convívio futuro”. 

“Provavelmente, estas duas figuras vão encontrar-se no futuro e trabalhar juntas mas em circunstâncias diferentes - e, muito provavelmente, com Seguro como Presidente da República e talvez ainda com Ventura como primeiro-ministro. De facto, vemos que há essa noção ali implícita”, aponta Sílvia Mangerona, realçando que Ventura foi “um pouco mais moderado do que o habitual”. “Pensei que fosse colocar a carne toda no assador, mas, curiosamente, mudou ligeiramente o discurso - e isso dá que pensar”. 

Já para José Pedro Mozos, especialista em comunicação política, o essencial do debate é que não trouxe nada de novo. “Foi a demonstração de que, de facto, não precisamos de mais debates” porque viu-se ali “uma repetição quase do primeiro debate”, sem novidade e com estratégias que “foram até algo previsíveis”. O problema não foi apenas dos candidatos. “Os temas que foram escolhidos pelos moderadores também não facilitaram que houvesse temas novos.” E, num palco assim, “já não há tantos assuntos em que as pessoas possam ser surpreendidas”.

André Ventura abriu num registo que José Pedro Mozos considera previsível, assentando em duas ideias que tem repetido desde o início desta segunda volta: primeiro, “a ideia de que é ele contra as elites”, “ele contra o sistema todo unido para o derrubar”; depois, “a ideia de que ele é o único representante da direita”, tentando “fazer um apelo ao eleitorado de direita para acordar” e perceber que, se não votar nele, “está a votar num socialista”. Para José Pedro Mozos, é precisamente por ser um guião conhecido que funciona como arma de mobilização: não depende de surpresa, depende de insistência.

Do lado de António José Seguro, José Pedro Mozos também encontrou previsibilidade, mas noutro registo. Seguro precisava de “alargar a sua base de votação” e, por isso, “era previsível” que entrasse a “agradecer os apoios”, de Cavaco a Portas, uns mais claros do que outros, mas “sem se colar muito a nenhum dos lados”. Há um passado que não dá para apagar. “Não pode negar esse passado” e, por isso, preferiu fechar o assunto com uma frase de enquadramento, “as pessoas sabem de onde ele vem”. A partir daí, contenção como método. “Tudo o que ele puder evitar dizer sobre esse passado”, “essa associação”, “essa representação do espaço socialista”, ele “evitou fazê-lo”, num esforço para caber num eleitorado mais moderado que o do seu ponto de partida.

Nessa mesma linha, José Pedro Mozos lê a acusação de Ventura sobre a recusa de debates como peça de uma narrativa maior, a do candidato sempre disponível para o confronto e do adversário protegido pelo “sistema”. A insistência serve para “mostrar que ele está sempre disposto a debater” e para reforçar “a ideia de que é o sistema a proteger os mesmos de sempre”, com a conclusão que Ventura procura insinuar, a de que Seguro “não quer debater porque não quer ouvir umas verdades”.

A estratégia de ler trechos de Cavaco - que anteriormente tinha caracterizado o candidato apoiado pelo PS como “inseguro e medroso” - foi, para Sílvia Mangerona, “pífia”. “Eu até pensei como é que Ventura cai nessa tentação de dizer uma coisa tão óbvia ao iniciar o debate. Do ponto de vista da comunicação política achei muito pífio, porque estava toda a gente à espera disso.” E a resposta de Seguro foi “muito simples”: “Todas as pessoas têm o direito de mudar de opinião. Se o professor Cavaco Silva mudou de opinião, é naturalmente positivo”, respondeu Seguro no debate. 

O núcleo duro, porém, aparece quando Ventura tenta fazer da própria natureza do cargo uma arma contra Seguro. A marcação das “generalidades”, de que Seguro só diz generalidades, para José Pedro Mozos é preparada e funciona sobretudo contra quem respeita os limites constitucionais. “A nossa Constituição não permite que o Presidente da República tome decisões sobre uma série de áreas”, e isso empurra a discussão para instrumentos que, num debate governativo, soariam vagos. “Convocatórias de Conselhos de Estado”, “promoção de diálogos”, “estabelecimento de pactos”. José Pedro Mozos insiste que esse quadro não é vazio, é o que o cargo permite. “São essas as ferramentas de um Presidente da República” e isso “não as torna, basicamente, generalidades”.

Mas a perceção, lembra José Pedro Mozos, tem vida própria. Mesmo quando a acusação é frágil, pode colar. Ele próprio não garante que Seguro tenha conseguido “descolar a 100%” da ideia de dizer meramente generalidades, porque “a repetição também entra na cabeça de algumas pessoas”. E há um detalhe de estilo que pesa nesse efeito. Seguro é uma figura “mais tranquila e pausada” e, nesse contraste, a insistência de Ventura “pode passar”, mesmo “não sendo verdadeira”.

Ventura, sublinha José Pedro Mozos, trabalha “uma confusão propositada dos planos legislativo e presidencial”. E não o faz sozinho. “Até os moderadores contribuíram um bocado para isso na escolha dos temas e na maneira como os colocaram”, porque assim “facilitaram esta confusão”. Para José Pedro Mozos, esse terreno é fértil para Ventura porque permite falar com a energia de quem promete como primeiro-ministro, mesmo quando está a disputar uma eleição onde esse tipo de promessa não cabe.

Há cálculo nessa escolha. José Pedro Mozos vê Ventura a usar esta campanha “para alimentar votos”, com a mira apontada para outro patamar, “chegar a primeiro-ministro”, porque “é no Governo que se fazem as grandes reformas do país”. E, se não for agora, o discurso mantém-se. “Vai reciclá-las e utilizá-las em eleições legislativas futuras.” O debate serve, assim, para guardar linhas, testar fórmulas e fixar um tom que depois pode ser reaproveitado.

Seguro, pelo contrário, entra preso a uma obrigação institucional. Se for eleito, “tem um diálogo institucional a manter com o Governo” e isso implica respeitar “que o Governo foi eleito com um programa eleitoral próprio”. José Pedro Mozos contrapõe essa atitude à de André Ventura, que “cavalga essa confusão propositadamente”, misturando o plano presidencial com o legislativo e o executivo.

Quando o debate tentou sair do terreno interno e tocar a política externa, José Pedro Mozos não encontrou matéria para confronto. “Na parte da agenda internacional o debate foi particularmente fraco.” Houve tentativa de novidade, mas “mesmo isso não é revelador do que cada um pensa sobre a geopolítica”. E, quando era preciso concretizar, “caíram os dois nos chavões clássicos”. Para José Pedro Mozos, a falha é essa: “Era importante que conhecêssemos as posições de cada um sobre essa matéria”. E isso não aconteceu.

Foi, aliás, neste ponto que Sílvia Mangerona encontrou as maiores fragilidades no discurso de Ventura.  “Vimos André Ventura a sublinhar a importância de ser apenas defensor da bandeira nacional e dos interesses que ele considera serem os interesses nacionais, e um bocadinho autista em relação aos verdadeiros desafios internacionais”. 

Nos temas em que o diagnóstico coincide, a diferença aparece na forma e no destinatário. Na saúde, por exemplo, “foram os dois particularmente críticos” e sobressai “o discurso de ambos sobre a ministra da Saúde”. José Pedro Mozos deixa uma observação que, sem ser partidária, tem peso político: “A própria ministra deve ter tirado umas notas”. E volta ao contraste de estilos. Seguro fala para um eleitorado que quer alargar, mede palavras, avança “com pezinhos de lã”. Ventura não tem essa contenção porque, como resume José Pedro Mozos, “tudo o que vier a partir de agora é crescente e é ganho”.

E, no meio de um debate que considera fraco, José Pedro Mozos identifica dois momentos que sobressaem. O primeiro favorece Ventura e acontece na imigração. Seguro, considera, “deixou-se levar por um cenário de Espanha [da regularização de 500 mil imigrantes] aplicado a Portugal”, “abriu o flanco” e cometeu “um erro não forçado”, se isto fosse como no ténis, ao “aceitar o pressuposto”. Daí a imagem que usa para descrever o efeito: foi “passadeira estendida para André Ventura fazer o que fez a seguir”.

O segundo favorece Seguro e surge na justiça. Tudo acontece quando André Ventura “sugere” um cenário que, se existisse, seria “provavelmente um dos maiores motivos de críticas do André Ventura que conhecemos hoje”: haver uma corporação dentro do Ministério Público a escolher o procurador-Geral da República. José Pedro Mozos entende que António José Seguro aproveitou esse flanco para mostrar “uma clara compreensão” da Constituição e da “separação de poderes”. Ventura, nesse instante, “foi apanhado desprevenido”. “Ventura fica atrapalhado.” E José Pedro Mozos sublinha porque é que o momento se notou: Ventura tem “uma eloquência tão grande que, mesmo quando está atrapalhado, parece que não está”, mas “aqui isso ficou evidente”.

O tema da imigração, denota Sílvia Mangerona, "continua a ser o engodo" de Ventura. "É aquilo que, de facto, o eleitorado reconhece melhor como uma verdade inquestionável. E ele tem capitalizado imenso essa fragilidade que todos reconhecemos, de um processo que foi mal gerido, da esquerda à direita". Não há, reforça a politóloga, "como não perceber que ele usurpou essa bandeira".

No balanço, José Pedro Mozos não amacia. “O debate foi fraco”, “não foi um debate apaixonante” e não é um debate “de que nos vamos lembrar no futuro”. E deixa um contraste que, para ele, é revelador: “Pela primeira vez em 40 anos temos uma segunda volta em Portugal”, mas não gera o entusiasmo “que a outra gerou”. Em vez do choque de ideias, o que fica desta segunda volta, na leitura de José Pedro Mozos, é a repetição de estratégias e de molduras já gastas, confirmadas ao longo do debate.

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