A pergunta ouvia-a num destes dias enquanto tomava um café ao balcão de uma pastelaria. O homem não esperou pela minha resposta: “Eu acho mesmo que pode”. Nos dias seguintes fiquei a pensar na resposta e, sobretudo, na questão que cada vez me parece fazer mais sentido, mas já lá vou
Devia ser objeto de estudo periódico nas universidades ou em centros de investigação o comportamento da bolha mediática e da opinião publicada nos media sobre propostas, decisões e atitudes políticas, bem como sobre os próprios partidos e os seus mais destacados representantes, os líderes. E, não, não estou a falar de sondagens com 400 entrevistados para medir sabe-se lá o quê. O estudo devia ser centrado na bolha mediática e se a respetiva visão dos factos e acontecimentos se coaduna com a realidade do que pensam e sentem uma boa parte dos cidadãos. O caso do Chega e de André Ventura é nisso paradigmático.
Hoje, até o comentador mais arregimentado, que nada via de substancial em Ventura, já afirma que o líder do Chega tem qualidades de comunicação e de liderança bem acima da média. E, veja-se lá, até vai condescendendo que o político parece sintonizado com um conjunto de problemas e anseios da população, pois torna-se difícil excluir quase 1,5 milhões de portugueses votantes com o chavão de que são fascistas e racistas por escolherem o Chega. Mas nem sempre foi assim.
Após um sem número de debates televisivos em campanhas eleitorais (legislativas e presidenciais), era difícil não ficar pasmo com as sucessivas avaliações negativas dos comentadores sobre as propostas, as ideias e a capacidade de argumentação de André Ventura. Sistematicamente, eram apontados ao candidato múltiplos problemas que iam da má educação a comportamentos fascistas, xenófobos e mentirosos. Em várias ocasiões isto existia mesmo, mas tornava-se conveniente esquecer que a tudo isso se sobrepunha a clareza da argumentação e a sintonia com o que muitos vivem no dia a dia, seja no trabalho, nos serviços públicos, na segurança, na busca de habitação e nos anseios de justiça igual para todos.
Por incrível que pudesse parecer na TV, a ideia generalizada que passava era de um Ventura que não aguentava o combate político, de alguém cujas ideias simples e primitivas não poderiam convencer ninguém ou, se convencessem, seria apenas um grupo restrito de portugueses, quase sempre ressabiados, fascistas e racistas. Nestas visões, também de muitos e muitos (ex) jornalistas, Ventura perdia sistematicamente os debates com os grandes líderes dos chamados partidos do arco do poder, e o mesmo sucedia com quase todos os outros, do PCP ao BE, do PAN ao Livre.
Mas o que se ouvia na rua e nas redes sociais, entre amigos, conhecidos e gente com as profissões mais diferenciadas, era precisamente o contrário, pois o líder do Chega surgia a cilindrar autenticamente a maior parte dos seus adversários. Nestas coisas, o tempo encarrega-se de mostrar o que é a realidade, seja ela mais ou menos do agrado de cada um. E Ventura foi somando votos atrás de votos até chegar a pouco mais de 1,4 milhões nas últimas legislativas, transformando-se no líder da oposição e na principal alternativa de poder. E, agora, também num possível Presidente da República, esteja convictamente contrariado ou talvez não.
Costuma-se dizer com algum menosprezo que Ventura é o partido, mas isso – já se viu - é pouco importante em eleições e ainda menos nas Presidenciais. Os eleitores votam maioritariamente em pessoas e em meia dúzia de propostas eleitorais. E Ventura não é mais o candidato que nas Presidenciais de 2021 não chegou ao meio milhão de votos ficando atrás da histriónica Ana Gomes (e isso, na altura, já surpreendeu muitos opinadores). Ventura é o homem dos mais de 1,4 milhões de votos nas legislativas deste ano. É também o político mais escrutinado pela bolha mediática, além de ser o mais questionado e investigado (e bem) pelo jornalismo. Repare-se na quantidade de entrevistas a que se sujeita (sim, eu sei as audiências que tem) e no alvo que tem sido de múltiplos trabalhos jornalísticos até sob a forma de livros com mais de 700 páginas.
Agora, até Isaltino Morais – que tem o currículo e a transparência de comportamentos que tem - vem questionar o financiamento do Chega, como se não soubesse que os dinheiros de todos os partidos políticos são uma nebulosa sem fim que vem desde os primeiros tempos da democracia. Uma nebulosa que já andou (anda?) em malas de ocasião e pela mão de muita gente pouco recomendável que procura amiúde construtores, banqueiros e empresários. Uma nebulosa que atinge os principais partidos de poder e que até permitiu que a família Espírito Santo usasse expedientes para financiar a candidatura presidencial de Cavaco Silva a expensas do BES.
Hoje, o Chega nem sequer parece precisar deste dinheiro que ciranda por baixo da mesa. Nas últimas eleições conseguiu 3,48 euros por cada um dos 1.437.881 votos. Ou seja, mais de 5 milhões de euros. No ano anterior, já tinha amealhado quase 4 milhões de euros. A partir destas últimas legislativas, o partido tem ainda do Estado 2.351,25 euros/mês por cada um dos 60 deputados eleitos, o que dá quase 1,7 milhões de euros por ano. Enquanto partidos em crise de votos despedem funcionários e outros, como o PS, reduzem os ordenados ao pessoal de apoio no Parlamento, as próximas Presidenciais prometem mais um bolo de quase 4,2 milhões de euros para distribuir pelos candidatos: 20% em partes iguais por cada um que tiver mais de 5% dos votos e 80% em proporção dos votos.
Neste momento, André Ventura tem cada vez mais dinheiro e votantes - e um eleitorado que parece extremamente fiel ao ponto de fazer baixar a abstenção. Por isso, e com a pulverização natural de tantos candidatos a representarem partidos políticos de forma mais ou menos oficial, o líder do Chega pode naturalmente passar à segunda volta. E quem, como em outras ocasiões, já garantiu que Ventura não chega à Presidência pode enganar-se redondamente. Marcelo Rebelo de Sousa teve pouco mais de 2,5 milhões de votos em 2021 e 2,4 cinco anos antes. Cavaco Silva chegou a pouco mais de 2,2 milhões em 2011. Ventura só (?) tem de voltar a fazer o que já fez: aumentar de forma exponencial os seus votos perante o seu principal adversário, um antigo militar que parece mais frágil a cada dia que passa.
A pergunta de café parece fazer cada vez mais sentido, sobretudo quando se adivinham ainda maiores doses de exposição mediática de André Ventura. E se na conversa entrar o currículo e o saber-estar do candidato a Presidente, como veio agora esgrimir Cavaco Silva, dificilmente boa parte dos eleitores conseguirão distinguir a preparação de uns em detrimento de outros, sobretudo quando as Presidenciais têm os candidatos que têm e já tiveram pretendentes como Otelo Saraiva de Carvalho, Galvão de Melo, Garcia Pereira, Francisco Louçã, Edgar Silva, Ângelo Veloso, um calceteiro de Rãs e o orador motivacional Jorge Sequeira. Claro que não foram escolhidos pelo povo, mas a lógica de Ventura para aqueles que o foram será sempre esta e tem funcionado: se quem se apresentava tão preparado e ganhou fez o que fez…
