REPORTAGEM || Antes dos discursos já havia política — decorria na fila do buffet. Um editor veterano falava de “democratas e não democratas”, uma escritora lembrava que a cultura serve para não demonizar o outro e um candidato ainda rouco ia de mesa em mesa como quem mede o país ao nível do aperto de mão. No Beato, em Lisboa, entre chili sem fogo, vinho do Dão sem aspereza e uma mousse demasiado doce a pedir kiwi, a campanha de António José Seguro passou o dia a ensaiar uma pergunta antiga, com Natália Correia ao fundo: quando a democracia aperta, quem é que fica sentado à mesa?
Um editor de 80 anos esperava no Beato por um Presidente como quem espera por um livro que ainda não chegou.
Chegámos ao Hub Criativo, em Lisboa, com a informação mínima, quase um bilhete dobrado no bolso: “candidato almoça com pessoas da Cultura”, 12h30. O resto era betão, passagens altas, vento a varrer o pátio como se isto ainda fosse, no fundo, um lugar de trabalho duro, só que agora com nomes ingleses nas placas e um certo brilho de reabilitação. A meio desse cenário, Manuel Alberto Valente, o editor, mãos nos bolsos, casaco claro, cachecol escuro, a camisola bordeaux a fazer-lhe de mancha quente. Sozinho, ou quase, com a paciência de quem já viu promessas a nascerem e a morrerem em papel.
Falámos ali mesmo, antes de qualquer sala, antes de qualquer copo. Apoia António José Seguro “logo desde a primeira volta” porque, entre os nomes “a concurso”, pareceu-lhe o mais adequado para “o lugar de mais alto magistrado da nação”. Não se alongou em adjetivos heroicos. Foi por perfil e por tempo. “Um homem moderado”, “um homem de diálogos”, “um homem de consensos”. E quando se falou sobre cultura, não falou dela como setor, falou dela como músculo da democracia. A cultura, arriscou, assusta alguns “por ser um espaço de liberdade”, “um espaço crítico”, “um espaço de reflexão”.
O fio foi-se apertando sem precisar de o puxar à força. Sobre a disputa que hoje atravessa o país, atirou uma frase que, num almoço destes, funciona como senha e como fronteira: não é “uma luta entre esquerdas e direitas”, é “uma luta entre democratas e não democratas”. E quando lhe pedimos um comentário sobre André Ventura, a leitura veio carregada de desconfiança e experiência. Um percurso “oportunista”, ideias “fáceis”, “política de bota abaixo”. O aviso tinha idade. Lembrou que, quando apareceu o Chega, muita gente desvalorizou e ele não. Recordou como estes fenómenos crescem “um bocado por todo o mundo”, alimentados por “problemas reais” que a sociedade não resolveu. E, já perto do fim da conversa, a voz baixou para o que interessa quando o tempo aperta: o futuro, a ele, assusta-o sobretudo por quem vem depois. “Pelos meus filhos, pelos meus netos.”
Seguro chegou sem teatro, mas com gesto. A voz ainda não estava inteira, ouvia-se e dizia-se, uma rouquidão a lembrar o domingo eleitoral que o pôs em primeiro na primeira volta. Trazia também a noite anterior colada ao debate com Ventura e uma manhã de televisão no programa de Cristina Ferreira, registos diferentes, ambos de câmara, ambos a entrar em casa onde a rua não chega. Talvez por isso o dia tenha sido isto, um almoço, e não uma arruada. Antes de entrar, abraçou primeiro Manuel Alberto Valente. Um abraço curto, firme, como quem reconhece uma presença que vale por mais do que um voto.
Lá dentro, o Praça abriu-se como uma sala grande e clara, plantas altas, paredes limpas, um bloco de tijolo a lembrar que isto já foi outra coisa. Sete mesas cheias, gente de idades muito diferentes, conversas que se cruzam e se interrompem, e, a um canto, uma câmara de televisão a tomar notas do que a sala queria que fosse espontâneo. Seguro fez o que faz quem não tem discurso para dar de imediato, ou prefere guardá-lo para o fim. Andou mesa a mesa, quase como numa boda, a política ao nível do aperto de mão e do sorriso curto, conversas pequenas que parecem iguais até percebermos que cada uma tem o seu peso.
Vimos Rui Vieira Nery, musicólogo, e vimos António Homem Cardoso, fotógrafo, a ser tratado por Seguro por “mestre”, palavra simples, carregada de reverência. E reparámos na escritora Ana Bárbara Pedrosa a entrar na conversa, a intervir e a ouvir, com aquele foco de quem está habituada a escolher palavras para não as desperdiçar. Seguro escutava-a com atenção, concordava, e o tema era o mesmo que já fervia cá fora: o Chega.
Desviámo-la por um instante, só um instante, e a resposta veio com a pressa de quem sente que não há tempo para metáforas quando se fala do essencial. “Esta segunda volta delimita dois campos políticos muito diferentes.” Num lado, “a democracia e a defesa de valores fundamentais”. No outro, “uma candidatura populista” que “tenta criar divisão na sociedade através do ódio”, muitas vezes “sem sequer sugerir solução”. Para ela, Seguro aparece como “uma candidatura equilibrada”, colada à “defesa da Constituição da República Portuguesa” e à manutenção de um “conjunto de direitos e de civilidade” que, diz, podiam ficar em causa.
Perguntámos-lhe por que razão a cultura se atravessa no caminho de quem prefere o país em ordem, e foi aí que a conversa começou a tocar no centro do almoço sem ninguém anunciar que tinha chegado lá. A cultura, explicou, é difícil de defender quando a conversa pede números, quando a política se vicia em tabelas, quando tudo tem de caber numa folha limpa. A cultura não cabe. Forma-nos de outra maneira. “Ajuda-nos a estar atento ao outro, a pôr-nos na pele do outro.” E depois a frase que, dita assim, sem pose, vale por uma definição de democracia praticável: “Ao entender o outro, nós nunca o demonizamos”.
Num almoço em que a Cultura vinha no cartaz antes de vir à mesa, é impossível não ouvir por trás destas frases a voz de Natália Correia, não como ornamento, mas como nervo. “A defesa do poeta” é um poema de tribunal e de combate, uma peça onde o poeta se apresenta perante jurados, banqueiros, professores, tiranos, juízes, e insiste em existir como contradição viva. Há ali um verso que hoje parecia escrito para esta sala: “Sou uma impudência à mesa posta.” A mesa, quando existe, é sempre mais do que comida. É um país em miniatura, com as suas faltas, os seus equilíbrios, as suas pressas, a sua forma de distribuir lugares.
E foi então que a ementa começou a falar sem pedir licença.
Era buffet, e isso muda logo o poder das coisas: ninguém é servido, cada um serve-se, escolhe o que leva para a mesa e o que deixa ficar para trás. Seguro fez como os outros. Passou pela fila, prato na mão, e escolheu chili com arroz. Um chili vegetariano que enchia o corpo e não ardia em lado nenhum, uma espécie de calor sem fogo, conforto que não incomoda, estabilidade com sabor domado. O arroz vinha solto, certinho, mas vaporizado, aquele tipo de arroz que não falha e por isso mesmo assusta quem cozinha a sério, porque é o arroz do controlo, do vapor, do procedimento, do “correu como previsto”. Para acompanhar, havia salada e havia vinagrete, mas faltava o gesto que liga uma coisa à outra. Não havia colher para temperar. Com a fila do buffet a adensar-se, com gente a empurrar discretamente para caber mais um prato, comemos a salada a seco, por vergonha e por pressa, como se às vezes a civilidade dependesse de um utensílio pequeno que não está onde devia.
Ao lado, um vizinho de mesa comentou o vinho tinto. Era do Dão, um tal de Malmequer, e “para Dão” faltava-lhe “aspereza”. Preferia o branco. Ficou a ideia no ar, sem necessidade de tradução. Há dias em que a campanha procura precisamente isso, retirar aspereza, limar arestas, servir o que desce mais fácil, apostar no branco quando o tinto pede tempo e confronto.
Outros foram ao bacalhau, ao empadão que no cartaz chamavam “brandada”, como se um nome mais macio pudesse tornar mais leve o que vinha na travessa. Houve surpresa com o queijo lá dentro, essa aliança que não aparece no título mas altera a frase inteira e muda o que julgávamos estar a provar. A sopa de legumes, diziam-nos, estava não fria mas desligada, abaixo de tépida, porque alguém apagara o interruptor dos tachos elétricos. Um gesto mínimo e a ideia de aconchego falha não por falta de ingredientes, por falha de ligação.
À sobremesa chegou a mousse. Mousse a sério pede estrutura, pede espessura, pede aquele minuto de silêncio em que a colher entra e o chocolate responde. Aqui veio líquida, demasiado doce, uma doçura que não convence porque não tem contraponto. O mesmo vizinho de mesa fez uma coisa improvável e, ainda assim, reveladora. Juntou kiwi para equilibrar. Não entendemos, mas respeitámos. Às vezes é assim que um país tenta corrigir um excesso: com acidez improvisada, com fruta onde devia estar técnica, com um gesto que procura travar o açúcar antes de ele ocupar tudo.
A verdade, porém, foi outra, muito mais crua e muito mais portuguesa. O bacalhau teve saída. Muita. Serviram-se dele jornalistas e a gente da cultura, uma legião inteira, até que, três quartos de hora depois da hora, já não havia. Quando a sala escolhe, escolhe o que reconhece, escolhe o que dá chão, escolhe o que sabe a casa, mesmo num hub criativo.
Durante este tempo todo, Seguro foi menos frase e mais método. A rouquidão empurrava-o para o gesto, e o gesto era o de estar. Circulava, encostava-se às mesas, deixava-se prender em conversas longas com alguns, sorria com uma confiança serena, como se a campanha pudesse ser feita assim, sem altifalantes, com o país reduzido a sete mesas e um corredor de cumprimentos. Sentou Agir à sua esquerda e fez questão de o marcar com humor, “ficas à minha esquerda”, a rir-se. À direita ficou Milhanas, jovem cantora. Luís Represas apareceu na cabeceira. A fotografia da cultura alinhada, sem precisar de cartaz, como se a música fosse também argumento político.
Só no final veio a declaração para os jornalistas, já fora do circuito de pratos e copos, a política a voltar ao seu formato habitual de frases curtas e destinatários largos. Seguro sustentou que “o país percebeu as nossas diferenças” e que “os portugueses não são extremistas” nem “divisionistas”, insistindo que, num mundo cheio de “incertezas” e “divisões”, “não precisamos de mais divisões no nosso país”. Falava do debate de terça-feira com Ventura. Falou sobre estabilidade como ideia-mãe, mas recusou tratá-la como prémio. Apresentou-a como ferramenta. Quer ser “o Presidente da estabilidade”, não como “fim em si mesmo” mas como “meio” para dar condições aos governos para “resolver os problemas dos portugueses”, com “uma política centrada nas soluções”.
Sobre o debate com André Ventura, traçou a linha que quer fixar até ao dia 8 de fevereiro. Para Seguro ficou claro quem se apresentou como candidato a Presidente da República e quem apareceu como líder partidário. E, projetando já o dia seguinte à votação, prometeu manter “intactas” as relações institucionais e ser “Presidente de todos os portugueses”, lembrando que o partido de Ventura tem “muitos deputados no parlamento” e que depois do dia da eleição há “um mandato de cinco anos”. Repetiu a fórmula que procura desarmar a guerra cultural antes de ela se instalar: “um Presidente independente e equidistante” de todos os partidos. E, quando questionado sobre o eleitorado do Chega, deixou a frase que tenta aproximar sem ceder terreno: “não há portugueses de primeira e portugueses de segunda” e “todos os votos democráticos devem ser tidos em consideração”.
Ainda à margem do mesmo momento, lamentou as mortes provocadas pela tempestade e disse estar a acompanhar a situação, em contacto com autarcas das zonas mais afetadas, admitindo adaptar a agenda para visitar locais atingidos. Quando Seguro falava, à hora de almoço, contavam-se dois mortos. Mas ao longo da tarde o balanço foi sendo atualizado. A depressão Kristin causou pelo menos seis mortos esta quarta-feira, segundo autarquias e a Proteção Civil.
Esta quinta-feira o dia abre cedo no café central de Almada e vai andando de visita em visita até fechar, já de noite, em Almeirim, num cineteatro que a distrital de Santarém montou como quem monta uma sala para ouvir e ser ouvido. Quarta-feira não teve rua. Houve Beato e almoço, sete mesas cheias e um candidato ainda rouco, a circular mesa a mesa, a deixar a campanha acontecer à escala de um aperto de mão. Saímos de lá com uma pergunta a bater por baixo do açúcar e do vinho, simples e dura, como a colher que não apareceu quando era precisa. O que acontece a uma democracia quando a linguagem do ódio se torna, para muitos, a mais fácil de engolir.
Na sala, encontrámos duas respostas — de gerações diferentes. Uma pela boca de um editor que empurrava a disputa para outra fronteira, “democratas e não democratas”, e apontava a política “de bota abaixo” e os “problemas reais” que a alimentam. A outra, pela voz de uma escritora, lembrava que a cultura não cabe em contas nem em tabelas e serve precisamente para isto, pôr-nos na pele do outro — porque, “ao entender o outro, nós nunca o demonizamos”.
E, se a cultura aqui serviu de nome, serviu também de aviso. Natália Correia escreveu-o sem pedir desculpa e sem pedir licença, com a mesa posta e o poema em pé: “Ó subalimentados do sonho! A poesia é para comer”.