Montenegro não apoia Seguro porque Seguro é "do espaço de esquerda". E não apoia Ventura porque Ventura é "do espaço da direita"

21 jan, 18:41

Ainda na ressaca da primeira volta das eleições presidenciais, houve partidos que desafiaram esta quarta-feira, no Parlamento, o primeiro-ministro a tomar uma posição entre o que classificam como "um democrata" e alguém que quer "acabar com o regime". Mas o PS não foi um dos partidos que pediram essa clarificação: remeteu-se ao silêncio e preferiu falar sobre as mortes em excesso em Portugal

Luís Montenegro esclareceu esta quarta-feira que, por liderar um Governo de "centro", não apoia nem André Ventura nem António José Seguro - porque estes candidatos “representam o espaço político da direita e o espaço da esquerda”. Neste cenário, o primeiro-ministro prefere “conviver com as consequências de não ter evitado a dispersão de votos no seu espaço político”.

O tema marcou o debate quinzenal no Parlamento, tendo sido levantado logo na primeira intervenção do deputado Pedro Pinto, do Chega, que começou por dizer que a escolha dos portugueses no dia 8 de fevereiro “será fácil” - “escolher entre quem quer o socialismo e escolher quem não quer o socialismo”. Neste cenário, o deputado confrontou o primeiro-ministro: “Este é o momento de definir: vai estar ao lado do socialismo ou ao lado de quem combate o socialismo?”

Luís Montenegro, que logo na noite eleitoral tinha dito que o PSD não iria endossar nem António José Seguro nem André Ventura, fez uma análise dos resultados de domingo, apontando que “os candidatos que passaram à segunda volta são os candidatos que representam o espaço político da direita e o espaço da esquerda”.

“O que é que cabe aos partidos e ao principal partido da coligação do Governo e do espaço político central, que é maioritário nesta câmara? Cabe também acatar e, de alguma maneira, conviver, com as consequências de não ter evitado a dispersão de votos no seu espaço político.”

A resposta de Luís Montenegro não satisfez as dúvidas das restantes bancadas, da esquerda à direita. "Não vejo bem onde é que está a dúvida", observou Inês de Sousa Real, sugerindo ao primeiro-ministro que retire "a capa da neutralidade" de modo a que "o 'não é não', que em tempos era mais definitivo, não passe agora para um 'talvez'".

Mariana Leitão, líder da Iniciativa Liberal, culpou o primeiro-ministro por ter deixado que “o espaço político do centro-direita não esteja representado na segunda volta”. Recusando-se a "reeditar a campanha eleitoral", mas num tom perentório, Luís Montenegro respondeu: "Se há alguém que encarou as eleições presidenciais sob o ponto de vista do interesse partidário, com todo o respeito, foi a senhora deputada, porque deixou de ser candidata presidencial para assumir um cargo partidário".

A líder da IL acusou o primeiro-ministro de ter esvaziado o espaço político do centro na segunda volta das eleições presidenciais (António Cotrim/LUSA)

À esquerda, Livre, PCP, Bloco de Esquerda e PAN insistiram nos desafios ao primeiro-ministro, argumentando que estava em jogo uma eleição entre "um democrata" e alguém que "disse abertamente que quer acabar com o regime". Paulo Raimundo sugeriu que o não posicionamento do PSD em relação a esta segunda volta não é mais do que uma “tática” parlamentar. “Quer manter no PS a reserva para quando for necessário acenar a chantagem, o PS lhe dar a mão em questões estruturais, como fez no Orçamento do Estado deste ano. Ao mesmo tempo, quer manter a continuidade do apoio do Chega no que é decisivo para a sua própria governação", teorizou.

Perante a insistência das bancadas, Paulo Núncio, líder parlamentar do CDS, tomou a palavra para criticar as "lições de democracia" da esquerda sobre quem deve ou não deve ser eleito. "Qualquer candidato que receba o voto popular e que ganhe eleições tem legitimidade democrática, quer seja de esquerda, quer seja de direita. O PS e a esquerda não são donos da democracia", declarou.

"Era o que faltava que o único voto legítimo e democrático fosse o voto no candidato do PS", insistiu.

Paulo Núncio, líder parlamentar do CDS, recusou-se a aceitar "lições de democracia" dos partidos da esquerda (António Cotrim/LUSA)

Em silêncio sobre as presidenciais, PS quis saber porque há mortes em excesso em Portugal

Quem não insistiu com Luís Montenegro sobre este tema foi o PS. O secretário-geral dos socialistas, José Luís Carneiro, optou por questionar o primeiro-ministro sobre outros temas, nomeadamente sobre a saúde. Em concreto, quis saber se o Governo está a acompanhar o excesso de mortalidade em Portugal, numa altura em que, sublinha, há “mais de 20% de óbitos do que aquilo que era expectável”.

“Deu ou não instruções aos serviços do Ministério da Saúde para apurar as causas deste número anormal de óbitos ou não?”, apontou, considerando que se deve saber se as mortes foram “por falta de assistência médica, por falta de emergência hospitalar, por falta de resposta da emergência pré-hospitalar”.

Ao contrário das restantes bancadas à esquerda, o PS não abordou o tema das eleições presidenciais (António Cotrim/LUSA)

Na resposta, o primeiro-ministro começou por salientar que este “não é um fenómeno exclusivo de Portugal”. “Há vários países da Europa que apresentam, em especial, no segmento etário acima dos 75 anos, um registo muito equivalente", responde Montenegro, mencionando Espanha, França, Itália, Grécia, Suíça e Dinamarca.

Neste cenário, acrescentou Montenegro, o Governo está a fazer "uma avaliação" para saber mais sobre as razões que levaram a este aumento da mortalidade em Portugal.

“Não é, naturalmente, expectável nós podermos ter já uma conclusão definitiva, mas o senhor deputado não vai ignorar que quer o Governo, quer seguramente todas as forças políticas neste parlamento, estarão muito convergentes no sentido de ter um respeito absoluto pelas causas que possam estar por trás deste registo e que, sinceramente, será um abuso poder considerar nesta ocasião que estejam relacionadas com falta de assistência”, defendeu o primeiro-ministro.

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