André Ventura, ou a arte de transformar o medo em poder

19 jan, 09:15
André Ventura após reunião com o Presidente da República (LUSA)

PERFIL || Entre a liturgia da culpa e o ringue do comentário televisivo, André Ventura construiu um partido à sua imagem e uma ambição que já não cabe no Parlamento. Em ano de Presidenciais, o país volta a medir-se por ele, não tanto pelo que promete, mas pelo modo como transforma cada palco, cada polémica e cada bastidor em poder

 
CNN PORTUGAL
 
Presidenciais 2026
cartão do candidato
 
 
 
Candidato
André Claro Amaral Ventura
Nascimento
15 de janeiro de 1983
43 anos
Naturalidade
Algueirão–Mem Martins
Sintra
Formação Académica
Doutorado em Direito Público
Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa
PROFISSÃO Atual
Deputado e presidente do Chega
 
Tracking Poll: #2 lugar
 

Na Quinta do Barruncho, em Loures, o poder chega em silêncio, senta-se, pede discrição, e só depois começa a falar.

É junho de 2020, há um heliporto nas traseiras e um vale a separar dois Portugais que se tocam sem se misturar. De um lado, o conforto de quem nunca precisou de levantar a voz para ser ouvido. Do outro, a precariedade que não aparece nas fotografias, o bairro de barracas, a vida encostada ao improviso, a sensação de que o Estado está sempre a chegar tarde. Em Por Dentro do Chega — A face oculta da extrema-direita em Portugal, Miguel Carvalho escolhe esta cena porque ela faz o trabalho de um mapa inteiro. Não é um jantar de campanha nem um comício, é um almoço fechado, organizado na Quinta do Barruncho por João Maria Bravo, empresário e anfitrião de património antigo, para receber André Ventura num momento em que o Chega ainda era pequeno no Parlamento, mas já era grande na barulheira do país. À mesa sentam-se financiadores e curiosos, gente que quer ouvir "o homem do Chega" sem fotografia e sem barulho, medir-lhe o alcance, perceber até onde pode ir, e, sobretudo, discutir o que se discute sempre quando a política deixa de ser ideia e passa a ser projeto. Como é que se ajuda. Carvalho descreve convidados com nomes próprios e circuitos distintos, industriais como Carlos Barbot, empresários como Miguel Félix da Costa, figuras ligadas a negócios e influência, e o tipo de presença que não aparece em cartazes, mas decide se um partido tem pernas para durar. Ali, André Ventura não é o homem do grito, é o homem que escuta. O partido que nasceu a prometer "limpar" senta-se à mesa de quem sempre teve as chaves, e a contradição não o incomoda, alimenta-o. "Contra as elites, venham as elites", escreve Carvalho, como frase que dispensa comentário. O populismo, naquele momento, mastiga devagar e aprende a falar baixo.

Antes desta mesa, a traçar o perfil do homem, há um corredor comprido em Penafirme, e Penafirme é seminário, um cheiro a desinfetante, uma cama feita cedo, uma regra cumprida antes de ser discutida, e um rapaz com 17 anos a testar a disciplina como se a disciplina fosse uma forma de fome. O Ventura de antes aparece como aluno irregular, pouco aplicado, mais disperso do que brilhante, e é ali, em Penafirme, que a rotina lhe impõe um método, a disciplina como forma de endireitar a curva. A passagem pelo seminário é curta, não lhe dá a batina, mas deixa-lhe a gramática. A ideia de que o mundo se mede em termos morais, o bem e o mal, o mérito e a queda, a culpa como ferramenta de controlo, a disciplina como prova. A vocação aparece tarde e aparece de rompante, como viragem de adolescência, num miúdo que não era sequer batizado e que cresce numa família de subúrbio sem grande prática religiosa, pai ligado ao pequeno comércio e à estrada, mãe secretária em Lisboa, vida de carrinha e horários, Mem Martins e Sintra como periferia imensa. Quando decide entrar no seminário, fá-lo contra a vontade dos pais, como se a obediência que procura tivesse de começar por desobedecer em casa. Mais tarde, já adulto, Ventura dirá que saiu "porque se apaixonou", e a frase fica sempre curta para a história inteira, porque a paixão não foi apenas impulso, foi conflito, uma espécie de batalha íntima entre o desejo e a regra, com a humilhação de não ser plenamente correspondido e com a sensação de que a vida que tinha escolhido não tinha espaço para falhas. A frase parece leve, mas a marca não é. Há uma parte da sua retórica que continua a cheirar a catecismo, uma parte do seu gosto pela punição que soa a penitência convertida em programa.

Depois vem Lisboa e vem São Nicolau. Em Na Cabeça de Ventura, Vítor Matos descreve o ambiente como conservador e tradicionalista, com códigos rígidos, missas em latim, disciplina e vigilância moral, um meio onde a juventude se vive numa duplicidade que marca. São Nicolau não é apenas uma igreja da Baixa, é também uma casa e um círculo, uma residência ligada à paróquia onde Ventura vive e se forma depois de deixar o seminário, mantendo o contacto com um catolicismo de regra e pertença. É aí que aparece a figura do padre Mário Rui Pedras, confessor e diretor espiritual, o homem que Ventura escolhe como referência íntima e, mais tarde, como sinal público, guardando uma fotografia com ele numa secretária já política, como se a biografia pudesse funcionar como argumento. De um lado, a vida social que se abre, as conversas, a liberdade que chega com a cidade e com a universidade. Do outro, a exigência moral que fecha o corpo e a linguagem, como se alguém estivesse sempre a ver. Matos fixa um ponto extremo dessa vivência, a mortificação como prática, o cilício como símbolo, a penitência física como prova. Não é um pormenor para curiosos, é uma chave para ler a naturalidade com que Ventura fala mais tarde de castigo, de pena exemplar, de dor como virtude pública, como se o país inteiro fosse um confessionário e ele, já sem batina, mantivesse o púlpito.

Ao mesmo tempo, antes do partido, do seu, antes do Parlamento, como deputado, há outra ambição a crescer em silêncio, a necessidade de ser visto. Ventura publica livros, tenta a literatura, procura lugar no mercado. Há títulos que aspiram a grande ameaça global e há romances que procuram a notoriedade pela polémica, como se a provocação fosse um atalho para a existência. Em Por Dentro do Chega, Miguel Carvalho lê essa pulsão como linha contínua, uma "ambição enorme de notoriedade" que antecede a política e a prepara. E aí a matéria é concreta: há um livro de 2009, A Última Madrugada do Islão, com terrorismo e pânico moral, que Ventura envolve num halo de ameaça e de controvérsia, como se quisesse estrear-se já com o estatuto do autor perseguido — que nunca foi. Há, depois, ficção onde a sexualidade não entra como subtítulo discreto, mas como motor e choque, cenas de sexo descritas de forma crua, com um gosto pela provocação que o próprio Carvalho aponta como parte do mecanismo de visibilidade. E há um romance como Montenegro, onde a história gira em torno de um ciclista que contrai VIH, Luís Montenegro, com a doença a funcionar como tragédia e como prova, e onde surgem temas de desejo e de identidade, incluindo a homossexualidade, tratados como material narrativo e, ao mesmo tempo, como isco para conversa pública. O que Carvalho sugere, ou nos dá, é simples: antes de ser político, Ventura já experimentava, na escrita, a mesma regra que depois aplicará ao país. O ruído chega onde a subtileza falha.

O palco que lhe dá público é a televisão. Miguel Carvalho descreve a entrada de Ventura no comentário com imagem de docente, juridiquês e economês, a autoridade técnica que tranquiliza um país habituado a ser guiado por quem fala com certeza. Até aí, aliás, poucos o conheciam como benfiquista militante, a devoção aparece quase como personagem descoberta em direto, útil para o ringue e para a pose. Depois vem o ringue. No comentário clubístico, aprende-se a pantomima, aprende-se a provocar e a aguentar, a dar e a levar, a tratar a indignação como entretenimento. Carvalho chama-lhe "wrestling televisivo" e a expressão encaixa porque ali há combate coreografado, público viciado, adversários úteis, e um algoritmo que engorda a visibilidade de quem polariza. O gesto que se repetirá mais tarde no Parlamento, o dedo em riste, a interrupção, a frase que corta, aprende-se ali, em horário nobre, com a experiência de quem percebe que o confronto rende.

As contradições surgem cedo e impedem a caricatura fácil do "sempre foi assim". Existem textos antigos em que Ventura se mostra mais aberto em matérias de liberdades individuais, em registos em que defende uma ideia de sociedade civil "mais exigente" e aborda temas como aborto, drogas leves, eutanásia e prostituição com um grau de abertura que contrasta com o tom moralista posterior. E há também textos em que escreve sobre a tragédia migratória e o Mediterrâneo como "mar de morte", evocando a fotografia do menino Aylan e apelando a que a Europa não feche os olhos, lembrando até a história recente de emigração portuguesa. O que fica não é coerência ideológica. "É elasticidade", explica Alexandre R. Malhado. É por isso que, em Dias de Raiva — Os segredos da ascensão de André Ventura, Malhado descreve um político plástico, mais forma do que conteúdo, capaz de vestir a pele necessária. E é por isso que, na conversa feita para este perfil, Malhado volta ao mesmo ponto com uma frase curta: "É um político camaleónico". E explica a consequência: "Para chegar ao poder, veste o fato de que precisa".

Loures, 2017, é o laboratório onde a forma encontra o atalho. Na entrevista, Malhado, que esteve em Loures, nessas autárquicas, recorda a fase em que percebeu que estava a ser instrumentalizado, ele e outros jornalistas, por um político com charme, disponibilidade e capacidade de dar história, num tempo em que a precariedade das redações fazia da polémica uma moeda. "Ventura ligava, dizia algo forte, e a agenda mexia." Malhado dá o exemplo como quem ainda ouve o eco: "Ele dizia que se vencesse em Loures, tirava o primeiro parquímetro — e com as próprias mãos." A frase não é apenas folclore municipal. É método. O gesto performativo como política. E é também nessa candidatura que se dá o episódio que o fixa nacionalmente, a entrevista ao jornal i, conduzida por Sebastião Bugalho, um jornalista sem lastro à época, em que Ventura fala da comunidade cigana como tema central, com generalizações que funcionam como detonador mediático e como marca de personagem.

O tema cigano surge nesse contexto, numa procura de assunto, numa lógica de campanha que identifica uma minoria como alvo e a transforma em detonador mediático. Malhado sublinha, na entrevista, o contexto e a ironia de um Estado que, por vezes, ajuda a legitimar o discurso quando o "problema" aparece embalado por forças de segurança e conversas de bastidor. Recorda a pré-campanha como procura deliberada de temas, uma visita ao terreno com João Gomes de Almeida (publicitário e consultor de comunicação, então próximo de Ventura e já a ajudá-lo a desenhar mensagens de campanha) e uma deslocação com forças de segurança onde a questão cigana aparece como "problema" local e é imediatamente percebida como atalho nacional. Não é acaso, é oportunidade, e Ventura, diz Malhado, improvisa aproveitando oportunidades, "com uma ambição constante de projeção". O que se segue é escalada. Fact-checks e desmentidos não retiram apoio porque o eleitorado que Ventura seduz não compra estatística, compra sensação. Malhado explica isso sem moralismo. E a frase que fecha o assunto é quase um retrato social: "As pessoas têm vida, trabalho, salário curto, renda para pagar". Não estão a abrir jornais todos os dias para ler investigações. "Querem uma vida boa. Identificam-se com quem promete materializar preocupações." Ventura torna-se veículo, primeiro de protesto, depois de adesão.

Mas Loures também correu mal. A candidatura não lhe deu a vitória que prometia e, no PSD, o "momento" começou a ser tratado como embaraço. Malhado descreve-o, na entrevista, como um político que percebeu cedo que as portas do partido se fechavam à medida que ele se tornava mais útil fora dele. Pedro Passos Coelho, que inicialmente o deixou avançar, afasta-se e "abandona-o", na leitura de Malhado, quando Ventura troca o discurso de ordem e disciplina por uma performance que já não cabia no guião social-democrata. A partir daí, começa a travessia. Um projeto que ainda não era Chega no papel, mas já era Chega no instinto, tenta sobreviver, reunir assinaturas, arranjar dinheiro, arranjar palco, arranjar gente, e sobretudo arranjar uma narrativa que não dependa do PSD para existir.

É aqui que a peça escrita a partir da entrevista encontra o seu centro: Ventura entra pela porta lateral e acaba na sala principal, como se o país se distraísse um segundo e a mobília já não encaixasse no sítio antigo. Malhado chama-lhe, na entrevista, "deslocação lenta do terreno", placas tectónicas a mexer: "As placas tectónicas mudaram." Não é só sobre Ventura, é sobre o tabuleiro. Já não existe bipartidarismo "puro", existe tripartidarismo, e Ventura pode "vencer" uma primeira volta mesmo que não ganhe a eleição, porque a percentagem, por si, já é afirmação política. Estamos em 2026 e nas Presidenciais.

A utilidade de Belém, na leitura de Malhado, não é a de um cargo executivo, é a de um megafone. E descreve a hipótese de uma vitória de Ventura, não por estilo, mas por inevitabilidade, o antissistema a tornar-se candidato incontornável, a contar "de forma muito nítida" nas urnas e na batalha eleitoral. E lembra um detalhe que muda tudo: "A segunda volta é, muitas vezes, uma eleição nova." "Ventura pode moderar-se, mudar o tom, apelar à direita agregada, vestir a pele de Estado." O risco depende do tabuleiro que vingar, "o tabuleiro do ódio" ou "o tabuleiro do amor à democracia". Num, o voto anti-Ventura concentra-se e ele perde. Noutro, a direita agrega-se contra o socialismo e ele pode ganhar. "A matemática", diz Malhado, "é emocional", depende do medo e do desejo de um país num determinado momento.

Ventura, na leitura de Malhado, não quer necessariamente Belém como destino final. "O sonho declarado é São Bento." Mas Belém dá-lhe exposição mediática permanente e a exposição é a profissão dele. Malhado diz isso com clareza na entrevista: "O problema é que isso é a profissão dele: comentar e marcar o debate público." Pode usar as margens do cargo para pressionar, vetar, dissolver em última instância, "empurrar a democracia direta", forçar o país a falar em referendos, "transformar a política numa espécie de televoto permanente". E pode, como "árbitro", reforçar a imagem de "pai da nação" contra o Governo, acumulando capital para o passo seguinte.

Mas falar de Ventura é falar do Chega como extensão do corpo do chefe. Na entrevista, Malhado descreve o partido como "institucional no papel", mas "dominado por regras informais" no terreno, recrutamento centralizado, escolhido a dedo. E insiste numa expressão que aparece como retrato de atmosfera: "Culto do chefe, sempre". E o chefe é o presidente do partido. "É um partido de um homem." É por isso que Malhado antecipa guerras de sucessão se Ventura subir a Belém e enumera nomes, Bruno Nunes, Rita Matias, Pedro Frazão, Pedro Pinto. "É complicado liderar um partido e ser chefe de Estado", diz, e descreve o impossível com uma imagem de malabarismo, "uma mão em Belém e outra na Rua Miguel Lupi”.

Em Na Cabeça de Ventura, Vítor Matos dá corpo ao que na entrevista Malhado resume como "culto do chefe, sempre". Não é só atmosfera de congresso, é prática de gabinete, é a forma como Ventura se coloca no centro da sala mesmo quando está sentado. Matos descreve, por exemplo, a secretária e o cenário escolhido, a fotografia do padre Mário Rui Pedras guardada à vista, como sinal público de uma biografia e de uma autoridade moral que se exibe, e não apenas se vive. E descreve a ideia de comando como rotina, o líder a decidir nomes, a controlar o acesso, a transformar o partido numa extensão da sua vontade. O que Malhado chama "um partido de um homem" ganha aqui materialidade, não é metáfora, é funcionamento.

Recuemos de 2026 até a Loures novamente. Ao que veio depois de Loures: o Chega, inicialmente Basta, ainda antes do nome ficar fixo e antes de haver estrutura para a velocidade da ambição. Em Por Dentro do Chega, Miguel Carvalho descreve essa fase como pressa e improviso, a recolha de assinaturas, a caça a rostos e a quadros, a necessidade de pôr o partido de significância nacional a funcionar com meios curtos e com gente muitas vezes escolhida pela utilidade e pela lealdade, não pela consistência. O crivo prometido falha aí, não como acidente, mas como consequência do crescimento rápido. Entradas em massa, gente que chega com passado pesado, outros que chegam com vontade de provocar, e a máquina a absorver porque precisa de braços, de nomes para listas, de figuras para o terreno. Carvalho descreve portas abertas a militantes com ligações a ambientes extremistas e uma disciplina interna que, quando tenta reagir, muitas vezes "não chega a nada", porque o partido é jovem, o aparelho é frágil e o centro decide tudo. A moral pública de ordem e limpeza convive com utilidade interna e com uma regra prática, o choque atrai fornecedores. O crescimento rápido absorve o que aparece. E, quando se exige respeitabilidade, descobre-se ferrugem na engrenagem, não como um caso isolado, mas como padrão, de tal maneira que ao longo dos anos surgem episódios e figuras internas que obrigam o partido a gerir, em público, aquilo que prometia expulsar — roubos, pedofilia, calotes, violência —, como se a "limpeza" começasse por dentro e nunca chegasse a tempo.

É aí que o Barruncho ganha força de símbolo. Em Por Dentro do Chega, Miguel Carvalho descreve o almoço de luxo como momento em que a contradição deixa de ser abstrata e se torna logística. Um heliporto de um lado e barracas do outro. Milionários e pobres separados por um vale. O anfitrião, João Maria Bravo, a receber André Ventura num encontro fechado, sem comício e sem cartaz, com empresários e figuras de bastidor a medir risco e utilidade, a perguntar o que se pergunta quando um fenómeno deixa de ser ruído e passa a ser projeto. Quem é este homem, até onde pode ir, o que é preciso para o pôr a funcionar. Carvalho identifica nomes e presenças, industriais e gestores, gente habituada a circular fora do barulho, e mostra o detalhe decisivo: Ventura ali não vende indignação, vende viabilidade. O partido "contra as elites" a ser ouvido por elites que medem, calculam, testam. O populismo, ali, não grita. Mastiga devagar e ouve. A pureza não paga campanha. A logística gosta de discrição.

O dinheiro não explica tudo. Há também o subterrâneo digital, que Miguel Carvalho descreve como arquitetura do poder e como rotina, não como exceção. Perfis falsos, grupos, listas de difusão, WhatsApps, partilhas coordenadas, enxames a ocupar caixas de comentários, campanhas para empurrar temas para o topo, intimidação de críticos e jornalistas, barulho como disciplina. "É preciso fazer barulho, sermos notados, sermos vistos." Não é metáfora. É programa. Carvalho descreve militantes a criar identidades e a operar em rede, uma militância que se confunde com guerrilha de atenção, e um partido que aprende depressa que o algoritmo é mais rápido do que a imprensa. Ventura, que no início dependia dos media tradicionais para ampliar as polémicas, constrói plataformas paralelas e passa a viver menos da redação e mais do feed. O contraditório entra tarde. A indignação circula mais depressa do que a verificação. O medo, quando funciona, cola.

As polémicas e os casos judiciais entram aqui como padrão de fricção. Não são apenas ruído em redor do fenómeno, são combustível e, por vezes, travão. Há decisões judiciais ligadas a cartazes e mensagens sobre comunidades ciganas, com ordens de retirada e ameaças de multas diárias se não forem removidos, num conflito entre propaganda e limites legais. Há sanções administrativas por discriminação que dão a Ventura a narrativa de perseguição e dão aos adversários a prova do excesso. Há casos que atravessam a justiça e a imprensa e colam ao partido a marca de um discurso que empurra limites, como o episódio do "Bairro da Jamaica", que acaba em condenação civil e obrigação de pedido de desculpas, lembrando que o grito também pode bater em tribunal. E há a corrosão interna da narrativa moralista quando casos dentro do partido saltam para a esfera pública, num partido que promete lei e ordem e depois tem de gerir, em público, o que prometia expulsar. A fricção, aqui, é método. Quando há choque há presença. Quando há presença há poder.

O estrangeiro entra como espelho e legitimidade procurada. Miguel Carvalho descreve "guerras culturais importadas", a vontade de se colar ao clube global dos homens fortes, convites e fotografias procuradas, e a admiração por modelos iliberais como Orbán, onde a erosão do Estado de Direito se faz com linguagem de "povo verdadeiro" contra inimigos. E descreve também o episódio do "convite" para um encontro com Donald Trump como operação de aura: anunciado em Portugal como se fosse acesso à Casa Branca, acabou, na verificação pública, reduzido a uma iniciativa periférica, sem encontro, sem agenda, sem validação do círculo de Trump, um caso em que a proximidade foi construída antes de existir. O Chega aprende essa língua global e adapta-a ao contexto português com a mesma elasticidade descrita por Malhado no líder: "Vestir o fato de que precisa". Uma agenda que troca a complexidade por slogans e a política por uma batalha moral permanente.

No meio destas metamorfoses, há duas histórias que impedem a biografia de parecer linha reta. A primeira é Sócrates. A Sábado — e Alexandre R. Malhado — escreveu que Ventura, em conversa de bastidores, admitiu que já votou em José Sócrates, um detalhe que funciona como agulha numa narrativa de pureza, porque sugere um passado menos ideológico do que tático, um homem que circulou dentro do sistema antes de se apresentar como seu inimigo. Ventura negou e escolheu uma distinção precisa, quase jurídica, para se defender: uma coisa é ter sido "enganado", outra é ter votado. "Eu nunca votei em José Sócrates", negou — embora tenha dito mesmo ao jornalista isso, e isso é verificável numa gravação —, acrescentando que o ex-primeiro-ministro "enganou muita gente", mas que isso não significa "que lhe tenha dado o voto". A disputa, num perfil, interessa menos como tribunal da memória e mais como revelação de percurso. O líder que se apresenta como antítese do regime não nasceu fora do regime. Circulou, aprendeu, adaptou-se. E a própria discussão expõe a plasticidade que Malhado descreve e que os livros sugerem, "Ventura muda de pele e a mudança de pele faz parte do método”.

A segunda história é a fuga. Em Por Dentro do Chega, Miguel Carvalho descreve a paranoia de 2020 e a hipótese de Ventura ponderar uma fuga para Marrocos, rumo a Tânger, caso o partido fosse ilegalizado, num clima de cerco interno e externo, pandemia, fronteiras fechadas, a ideia de que o sistema podia "decapitar" o projeto no berço. A força da imagem não está em saber se alguém encheu o depósito. Está no gesto mental. Um líder que imagina o exílio para continuar a mandar vê a política como sobrevivência. O poder ali é portátil. A liderança é corpo. Se o corpo foge, o partido segue.

E é também aí que Matos encaixa, porque Na Cabeça de Ventura insiste menos na teoria e mais no instinto: o homem como alguém que vive a política em estado de alerta. O cerco não aparece como palavra bonita, aparece em gestos e sinais, na forma como a disciplina regressa como defesa, na maneira como Ventura se organiza para não perder controlo, como se cada fissura pudesse ser traição. A hipótese de fuga para Marrocos, contada por Miguel Carvalho como episódio de paranoia de 2020, fica assim menos como excentricidade e mais como prolongamento de um traço. Primeiro a regra, depois a sobrevivência. Primeiro o chefe, depois o resto.

É com esta matéria, homem e máquina, púlpito e estúdio, culpa e algoritmo, quinta de luxo e minorias, que 2026 se torna pergunta real. Malhado descreve as Presidenciais como utilidade e não apenas como vitória. "Uma primeira volta forte já é afirmação política." Mesmo sem ganhar, o resultado pode funcionar como certificado de peso, e a derrota, em vez de fechar um ciclo, pode abrir outro, "confirma o peso eleitoral" e alimenta o próximo combate. A questão, em Belém, não é mandar como um primeiro-ministro, é mandar na conversa do país. Marcelo ocupava esse espaço com gesto conciliador e instinto de consenso. Ventura ocuparia com tensão, com pressão, com a vocação de confronto de quem sempre viveu de transformar a política em combate e de manter a agenda em estado de alerta.

O retrato final não precisa de opinião para ser duro. Um rapaz moldado por disciplina e culpa, que experimenta a fé como método e a dor como prova, que tenta a escrita como caminho para a notoriedade, que aprende no estúdio que o confronto dá audiência e a audiência dá poder. Um homem lançado por um atalho de Loures, alimentado por algoritmo e barulho, sustentado por um partido com culto do chefe e crivos falhados, financiado por raiva e por elites discretas, capaz de transformar polémicas em oxigénio e derrotas em capital. Um líder que pode perder e ainda assim vencer, porque a vitória, no seu mundo, é ocupar o centro e impedir que o silêncio aconteça.

E tudo regressa ao vale de Loures. A política portuguesa continua a ter muros. Ventura constrói-se a dizer que os derruba, mas aprende depressa a sentar-se do lado de cá, onde a comida é farta e o silêncio é útil. A fresta por onde entrou continua aberta. E ele continua a atravessá-la como se a casa, afinal, lhe pertencesse.


Fontes principais deste perfil: Por Dentro do Chega — A face oculta da extrema-direita em Portugal (Miguel Carvalho), Dias de Raiva — Os segredos da ascensão de André Ventura (Alexandre R. Malhado), Na Cabeça de Ventura (Vítor Matos), e a entrevista a Alexandre R. Malhado realizada para este trabalho.

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