Escolaridade a menos ou juventude a mais. É por isso, e não só, que esta é a região do país onde menos se vota: na primeira volta das presidenciais ficaram em casa 57,85% dos eleitores

26 jan, 08:00
Ilha de São Jorge, Açores (Lusa/António Araújo)

A região, ou círculo eleitoral, são os Açores: seis dos 10 concelhos com maior taxa de abstenção são açorianos e há 19 com abstenção acima de 50%. Segundo o sociólogo Fernando Diogo, da Universidade dos Açores e investigador do CICS.Nova, a solução pode até levar décadas, mas está nas escolas: “Não é necessário criar disciplinas novas, é necessário criar uma tradição de debates no seio das escolas, falta engajamento das pessoas na ‘res publica’”

Na noite em que se contam votos, os Açores voltam a aparecer no topo de uma tabela que quase nunca muda de mãos. Não é uma medalha, é um indicador desconfortável. Na primeira volta das presidenciais de 2026, 57,85% dos eleitores açorianos não foram às urnas, a taxa de abstenção mais alta do país. Quando a lente desce ao pormenor dos concelhos, o desenho torna-se ainda mais nítido: Ribeira Grande regista 64,50%, a abstenção mais elevada a nível nacional, e Vila Franca do Campo surge logo a seguir, com 62,69%. Seis dos dez concelhos com maior abstenção são açorianos.

O contraste é ainda mais evidente quando se olha para o plano nacional. Em Portugal, onde o recenseamento é automático, havia 11.017.133 eleitores inscritos e votaram 5.767.034, de acordo com os dados da Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna. A abstenção fixou-se nos 43,66%. É um valor elevado, mas, num país em que as presidenciais costumam ser um território fértil para a desistência, foi a menor taxa em duas décadas. Nas últimas legislativas, em 2024 e 2025, a abstenção situou-se nos 40,16% e 41,77%. Nas presidenciais, a história recente é outra: para encontrar uma participação mais robusta, é preciso recuar a 2006, quando Cavaco Silva venceu Manuel Alegre, Mário Soares, Jerónimo de Sousa, Francisco Louçã e Garcia Pereira. Nesse ano, a abstenção foi de 38,48%, num universo de 8.835.237 inscritos. Depois, o país afastou-se: 53,48% em 2011, na reeleição de Cavaco; 51,34% em 2016, na primeira eleição de Marcelo Rebelo de Sousa; e 60,76% em 2021, a taxa mais alta do século, num contexto de pandemia.

Mas voltemos aos Açores. Nos Açores, o problema não é novo e vê-se com nitidez quando o mapa desce ao nível dos concelhos. Acima de 50% de abstenção, nas presidenciais de 2026, houve 19 concelhos açorianos, enquanto Bragança teve sete e Vila Real cinco. No ranking por distritos, os Açores destacam-se com 57,85%. Logo a seguir aparece Bragança, com 51,63%, e depois Vila Real, já abaixo dos 50%, com 48,73%. Há também um dado simbólico que sublinha a singularidade açoriana: no continente, apenas Vimioso, em Bragança, ultrapassa os 60% de abstenção, com 61,93%. Nos Açores, esse patamar é repetido em vários concelhos além de Ribeira Grande e Vila Franca do Campo: Povoação (61,44%), Santa Cruz da Graciosa (61,02%), Vila do Porto (60,90%) e Calheta (60,39%). A lista acima de 50% é longa e atravessa ilhas e realidades locais: Lagoa, Vila Praia da Vitória, Nordeste, Velas, Ponta Delgada, Madalena, Lajes do Pico, São Roque do Pico, Santa Cruz das Flores, Angra do Heroísmo, Horta e Lajes das Flores.

O que explica esta persistência? 

A pergunta, acima, parece simples, mas a resposta, segundo Fernando Diogo, sociólogo, professor na Universidade dos Açores e investigador do CICS.Nova, não cabe num único fator. “A abstenção é uma coisa que tem sido muito estudada no âmbito da Ciência Política e da Sociologia Política”, começa por dizer, antes de avançar para uma ideia central que atravessa toda a conversa: os fatores não atuam isoladamente. “Eles interseccionam-se.” Ou seja, somam-se, reforçam-se, cruzam-se no mesmo território e nas mesmas pessoas. Ao falar do caso açoriano, Fernando Diogo escolhe “dois ou três fatores” que ajudam a compreender o fenómeno.

O primeiro é demográfico e, em particular, geracional. Os Açores continuam a ser, “ainda”, a região mais jovem do país, nota o sociólogo, com a ressalva de que há indicadores de mudança rápida. E os jovens, como se sabe na investigação sobre participação eleitoral, são o grupo etário que menos vota. “Sendo jovens quem menos vota, é normal que assim seja.” Mas Fernando Diogo não fica pelo óbvio e aponta um detalhe decisivo para entender por que razão a abstenção se concentra de forma tão intensa em certos pontos do mapa: a Ribeira Grande, no extremo norte de São Miguel, “é, de longe, o concelho mais jovem do país”, com uma taxa de envelhecimento “mesmo muito abaixo” da média nacional. Há, além disso, um dado raro no país: “Só há dois concelhos” com mais jovens do que idosos, e são precisamente Ribeira Grande e Lagoa. Não é um pormenor neutro quando se olha para os números da abstenção, porque estes concelhos surgem também no topo da lista de quem menos foi votar.

A juventude, porém, não é apenas uma característica estatística. É também uma distribuição no território. Diogo sublinha que este fator ajuda sobretudo a explicar “o que se passa nos concelhos da ilha de São Miguel”, porque “a juventude dos Açores está concentrada na ilha de São Miguel, não nas outras”. Dito de outra forma, o peso da população jovem não está uniformemente espalhado pelo arquipélago, e isso contribui para a leitura da geografia da abstenção em 2026. A ilha que concentra mais jovens concentra também concelhos onde a ida às urnas é mais baixa.

O segundo eixo tem a ver com a educação e com aquilo que o sociólogo chama, com insistência, “literacia política”. Aqui, Fernando Diogo faz uma sequência que usa como chave explicativa: “A literacia política está associada à participação política de forma muito estreita” e essa literacia “depende muito da escolaridade”. Em termos práticos, maior escolaridade aumenta a probabilidade de uma pessoa conhecer “os titulares dos órgãos de soberania”, compreender “o funcionamento do Estado”, “acompanhar informação, ver telejornais”, situar-se num debate público “por mínimo que seja”. Quando se conversa sobre programas eleitorais, a resposta é mais seca e realista, quase um travão metodológico: “Já ler programas políticos é mais difícil”, reconhecendo o sociólogo que “mesmo entre pessoas com mais estudos nem sempre existe esse tipo de consumo político”.

A distinção que Fernando Diogo introduz a seguir é importante para evitar simplificações e para separar duas palavras que se confundem com facilidade. Uma coisa é escolaridade, “o grau de estudos que as pessoas têm”. Outra é escolarização, que ele descreve como “o desempenho das crianças e jovens na escola", a capacidade do sistema educativo em “reter, formar e concluir percursos”. E apresenta um indicador que considera sintético e revelador: “o abandono escolar precoce de educação e formação”, isto é, a percentagem de jovens entre os 18 e os 24 anos que saem da escola sem completar o ensino secundário. A leitura que faz é dupla e serve para colocar os Açores em contraste com o país: Portugal, diz, “tem melhorado muito” e apresenta hoje uma taxa “muito boa”, abaixo da meta europeia para 2030. Já nos Açores, esse abandono “é o triplo da média nacional” e “tem havido muita dificuldade” na descida. 

Fernando Diogo acrescenta um enquadramento europeu, com datas e posição relativa: em 2024, a taxa açoriana era a oitava maior entre as regiões da União Europeia, e em 2022 e 2023 tinha sido a segunda maior. Para o sociólogo, estes números ajudam a entender “as dificuldades na escolaridade e na escolarização dos açorianos” e, com isso, “o menor interesse e o menor engajamento na res publica [do latim ‘coisa pública’: a vida coletiva, as instituições, as políticas, os direitos e deveres, a participação cívica e a participação democrática]” que se verifica na região.

Não é só pobreza

O terceiro fator que aponta é a classe social. Fernando Diogo faz questão de ir além da palavra “pobreza”, embora reconheça “a dimensão económica”. Explica classe social como “posição no mundo do trabalho, profissão, lugar ocupado na profissão”, e lembra que a escolaridade surge muitas vezes como “indicador secundário que ajuda a afinar essa classificação”. O ponto decisivo, para o caso, é este: “Há uma maior percentagem de pessoas pertencentes às classes mais baixas nos Açores por contraponto à média nacional.” E, sendo assim, “quanto mais baixa a classe social, menor a probabilidade de voto.” Não como lei rígida, mas como tendência que precisa de ser lida em conjunto com outras variáveis, “como idade e escolaridade”. Assim, uma pessoa mais velha de classe mais baixa “pode votar mais do que uma pessoa jovem de classe mais alta”, refere, e é por isso que volta ao verbo que usa como marca da sua explicação: “Interseccionar”. “É sempre uma interseção.”

Na entrevista ao sociólogo, acrescentar-se à conversa uma hipótese que aparece com frequência na reportagem política e na leitura de rua: a ideia de que, nas últimas décadas, as redes sociais teriam aumentado o interesse político dos jovens, através de plataformas como TikTok e Instagram, e de discursos mais inflamados ou populistas. Fernando Diogo não nega “a transformação”, mas coloca-a num plano específico. “O que as novas plataformas fazem”, diz, “é engajar os jovens em formas alternativas de participação política.” Esse engajamento, porém, “nem sempre se traduz no voto”.  O resultado, do ponto de vista eleitoral, é que “a abstenção entre os jovens continua a ser elevada por essa Europa fora.” 

A seguir, na entrevista, surge a hipótese do “abandono” (enquanto sentimento), comum no discurso político contemporâneo, sobretudo em territórios periféricos, como razão para um desinteresse pela política. Desse ponto de visto, a insularidade poderia gerar um sentimento de distância em relação ao centro político, Lisboa, e alimentar a abstenção? Fernando Diogo separa o que é evidência do que é impressão. A insularidade, diz, “é uma realidade incontornável do ponto de vista socioeconómico”. O quotidiano é atravessado por ela, “com dificuldades de acesso ao continente”, “redução de oportunidades” pelo espaço pequeno e confinado de cada ilha, preços mais altos “associados ao transporte”, “espera por bens e serviços”, empresas do continente “que não trabalham com legislações autónomas”, e um transporte marítimo que descreve como “oligopolista” — um mercado que é dominado por poucas empresas, com muita pouco concorrência, o que tende a influenciar preços e também condições. Mas quando a pergunta é se isso se traduz em “sentimentos de abandono” capazes de explicar a abstenção, a resposta é cautelosa e negativa: “Não creio. Ou pelo menos não creio que haja qualquer tipo de estudo sério sobre essa relação”.

A solução: uma escola à americana 

Se o diagnóstico é composto, a saída também não é instantânea. Quando a conversa se aproxima de soluções, Fernando Diogo coloca um ponto de partida: “Escolaridade e escolarização parece-me que é primordial.” A idade, reconhece, tem um “efeito natural” na redução da abstenção jovem, porque, à medida que se envelhece, “o interesse político tende a aumentar”. Refere mesmo um estudo sobre os Açores que mostra que, dentro do grupo jovem, “os mais novos se interessam menos do que os que já estão nos 30”. Mas isso não chega para explicar tudo, nem resolve o facto de existirem taxas elevadas mesmo em grupos mais velhos, onde entram novamente classe social, escolaridade e outros fatores.

No campo das políticas de literacia política, Fernando Diogo recusa a resposta fácil de criar mais uma disciplina escolar. Não por desvalorizar o tema, mas por reconhecer limites práticos. “Não é necessário criar disciplinas novas”, diz, “porque não é possível.” O número de aulas já é elevado no contexto europeu, e há falta de professores. A proposta passa, antes, por uma transformação “por dentro” da escola, através de metodologias que envolvam os alunos em “debate e construção de argumentos”, mais do que em “memorização e avaliação rígida”. Dá um exemplo: “A tradição de debates em escolas norte-americanas, com grupos encarregues de defender perspetivas opostas sobre um tema, como forma de treino para a participação cívica”. A escola, nesta visão, não se limita a “transmitir conteúdos”, mas torna-se “instrumento de engajamento dos jovens na res publica”, com resultados que “nunca chegam logo” e que exigem tempo.

Fora da escola, Fernando Diogo aponta que há também estratégias em curso. Refere a Direção Regional da Juventude do Governo Regional dos Açores, envolvida na capacitação dos jovens ao nível da literacia política, “com um plano regional que promove ações exteriores à escola”. É uma nota relevante por duas razões: mostra que existe consciência institucional do problema e sugere que a resposta “não pode ser apenas eleitoral, a cada quatro ou cinco anos, mas contínua e cumulativa”.

O retrato que resulta dos números de 2026, e da leitura sociológica de Fernando Diogo, não reduz a abstenção açoriana a um gesto simples, como se fosse apenas “desinteresse”. O que aparece é um conjunto de condições que se reforçam num mesmo território: uma estrutura demográfica mais jovem, com concentração em São Miguel; níveis mais baixos de escolaridade e escolarização, visíveis em indicadores como o abandono escolar precoce; um peso maior de classes sociais mais baixas, onde a probabilidade de voto tende a ser menor; e um ecossistema digital que pode mobilizar politicamente sem, necessariamente, levar ao boletim de voto. 

Tudo isto numa região onde, eleição após eleição, concelho após concelho, a abstenção permanece alta e, em 2026, voltou a ser a mais alta do país.

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