"O jornalismo não é crime". PE pede "libertação imediata" de Mzia Amaglobeli e Andrzej Poczobut na entrega do Prémio Sakharov

16 dez 2025, 13:49
Irma Dimitradze, em representação de Mzia Amaglobeli, Roberta Metsola e Jana Poczobut, filha de Andrzej Poczobut. Philippe BUISSIN/PE

Prémio Sakharov em defesa da liberdade de expressão na Bielorrússia e na Geórgia

(Na foto acima: Irma Dimitradze, em representação de Mzia Amaglobeli, Roberta Metsola e Jana Poczobut, filha de Andrzej Poczobut. Philippe BUISSIN/PE)

“Há quase cinco anos que a minha família vive no silêncio e na incerteza, separada de um ente querido. Hoje, quero manifestar a minha mais profunda gratidão ao Parlamento Europeu por recordar o meu pai.” As palavras são de Jana Poczobut, filha do jornalista Andrzej Poczobut, detido na Bielorrússia desde 2021 e um dos laureados do Prémio Sakharov 2025. O jornalista foi preso por se opor ao regime de Alexander Lukashenko.

Na cerimónia, que decorreu esta terça-feira no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, esteve também presente a jornalista Irma Dimitradze, em representação de Mzia Amaglobeli, igualmente distinguida com o Prémio Sakharov e a primeira mulher jornalista a ser detida na Geórgia.

Irma Dimitradze apresentou-se não apenas como representante da laureada, mas também como cidadã de um país onde a profissão de jornalista foi criminalizada, deixando um apelo direto aos eurodeputados: “Isto é sobre algo muito maior do que a Geórgia. Ajam antes que seja tarde de mais.”

Na sua intervenção, alertou ainda para as consequências geopolíticas da passividade europeia: “Se o mundo civilizado autorizar Moscovo a impor unilateralmente os chamados acordos de paz e a redesenhar fronteiras para satisfazer ambições imperiais, será o anúncio de guerras intermináveis no nosso continente. Se Estados independentes como a Ucrânia forem abandonados à sua sorte, cometer-se-á um erro histórico gravíssimo — e a Europa também pagará o preço.”

A emoção marcou a cerimónia, com as fotografias dos dois jornalistas distinguidos projetadas na sala plenária. As duas representantes foram aplaudidas de pé pelos eurodeputados.

A presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, deixou um apelo claro à libertação dos laureados: “Orgulho-me de que o Prémio Sakharov deste ano seja atribuído aos jornalistas Andrzej Poczobut e Mzia Amaglobeli, em reconhecimento da sua corajosa luta pela liberdade de expressão e pelo futuro democrático da Bielorrússia e da Geórgia. Esta casa é solidária com Mzia e Andrzej e apela à sua libertação imediata — porque dizer a verdade ao poder nunca deve ser um crime.”

A jornalista georgiana Mzia Amaglobeli está detida desde 12 de janeiro de 2025, acusada de agredir um agente da polícia. Em agosto, foi condenada a dois anos de prisão. Cofundadora e diretora dos jornais online Batumelebi e Netgazeti, Amaglobeli é defensora da liberdade de expressão e tornou-se uma das principais figuras do movimento pró-democracia na Geórgia. É a primeira mulher presa política desde a independência do país.

Andrzej Poczobut é jornalista, ensaísta e blogger da minoria polaca na Bielorrússia. Conhecido pela sua oposição ao regime de Lukashenko, tem sido uma voz ativa na defesa da liberdade e da democracia no país. Está preso desde 2021 e foi condenado a oito anos de prisão.

A atribuição deste prémio dos direitos humanos, em defesa da liberdade de expressão na Bielorrússia e na Geórgia, é uma tomada de posição da União Europeia face ao regime de Moscovo.

Prémio Sakharov: uma antecâmara do Nobel da Paz

É a mais alta distinção da União Europeia no domínio dos direitos humanos. Todos os anos o Parlamento Europeu atribui o Prémio Sakharov para a Liberdade de Pensamento, em homenagem ao físico e dissidente político soviético Andrei Sakharov. É assim desde 1988. Entre os vencedores estão pessoas, grupos ou organizações, em reconhecimento do seu trabalho na defesa dos direitos humanos, da liberdade de expressão e dos valores democráticos.

Este não é o primeiro ano em que o Prémio Sakharov é atribuído a profissionais da comunicação.

Vários jornalistas, meios de comunicação social e organizações de defesa da liberdade de imprensa receberam o prémio, incluindo a organização não governamental Repórteres Sem Fronteiras, em 2005, a Associação Bielorrussa de Jornalistas, em 2004, a jornalista e escritora argelina Salima Ghezali, em 1997, e o popular jornal Oslobodenje, que promoveu uma visão multiétnica da Bósnia-Herzegovina, em 1993. O Parlamento manifesta também o seu apoio inabalável ao jornalismo de investigação e à importância da liberdade de imprensa, atribuindo anualmente o Prémio Daphne Caruana Galizia para o Jornalismo em homenagem à jornalista maltesa assassinada em 2017.

O Prémio Sakharov é visto como uma antecâmara do Nobel da Paz e é fácil perceber porquê. O próprio físico russo Andrei Sakharov foi galardoado com o Prémio Nobel da Paz em 1975. No ano passado, María Corina Machado e Edmundo González Urrutia receberam este prémio do Parlamento Europeu. Este ano a líder da oposição venezuelana foi distinguida com o Nobel da Paz.

Mundo

Mais Mundo