Dedicado aos "artistas brasileiros humilhados" nos "anos de estupidez e obscurantismo" de Bolsonaro: Chico Buarque recebeu finalmente o Prémio Camões

24 abr, 19:19

"Reconforta-me lembrar que o ex-presidente teve a rara fineza de não sujar o diploma do meu Prémio Camões, deixando o seu espaço em branco para a assinatura do nosso presidente Lula": Chico Buarque recebeu finalmente em Portugal o Prémio Camões 2019

Chico Buarque entrou, abriu os braços e, tal como em qualquer concerto, o público aplaudiu em pé, apontou o telemóvel para filmar, urrou e até gritou “Chicoooo”. Ninguém diria que estamos na muito dourada e pomposa Sala do Trono do Palácio Nacional de Queluz, na cerimónia oficial de entrega do Prémio Camões, e que esta plateia não é composta por fãs desejosos de cantar mas por políticos, diplomatas e intelectuais, todos vestidos a preceito e sentados nos lugares pré-estabelecidos pelo protocolo. 

Francisco Buarque de Hollanda, 78 anos, compositor, cantor, letrista, poeta, escritor, autor de romances, livros infantis e peças de teatro, homem da cultura e símbolo da língua portuguesa, com os famosos olhos azuis molhados de emoção recebeu esta segunda-feira das mãos dos presidentes do Brasil e de Portugal o Prémio Camões, que lhe foi atribuído em 2019. 

O prémio literário chega com quatro anos de atraso, o que não é muito mas que, para quem esteve no Brasil, disse Chico Buarque, “pareceram mais longos” porque foram quatro anos de um governo funesto que duraram uma eternidade, foi um tempo em que o tempo parecia andar para trás”. E sublinhou: “Esse governo foi derrotado nas urnas mas não podemos distrair-nos pois a ameaça fascista persiste - não só no Brasil mas em todo o mundo.” Por esse motivo, este prémio tem um significado muito maior do que um simples prémio literário, concluiu: “Reconforta-me lembrar que o ex-presidente teve a rara fineza de não sujar o diploma do meu Prémio Camões, deixando o seu espaço em branco para a assinatura do nosso presidente Lula. Recebo este prémio não tanto como uma honra mas mais como um desagravo a tantos autores e artistas brasileiros humilhados nestes anos de estupidez e obscurantismo”.

Foi um prémio que chegou, afinal, na hora certa: num momento em que Lula da Silva, o candidato do PT que Buarque sempre apoiou, está no poder; e na véspera do 25 de Abril, o dia da Revolução em Portugal em 1974. Com a voz embargada, o premiado confessou-se emocionado e agradeceu à mulher, que esta manhã saiu do hotel e atravessou a Avenida da Liberdade para lhe comprar a gravata cor-de-rosa clarinho que ele usou nesta cerimónia. As primeiras palavras foram para o seu pai, o historiador e investigador Sérgio Buarque de Hollanda: “Relembro quantas vezes lhe interrompi os estudos para submeter os meus escritos, que ele julgava sem complacência, para a seguir me aconselhar leituras que me poderiam ajudar a me tornar um escritor”. O pai, amigo do poeta Vinicius de Morais, que o apoiou na carreira musical e tanto contribuiu para a sua formação política, tendo sido militante contra a ditadura e participado na fundação do Partido dos Trabalhadores (PT). Mas que morreu “sem chegar a ver a restauração democrática” no Brasil. 

Publicar o primeiro romance, “Estorvo”, foi para Chico como voltar a estar novamente no escritório do pai à procura de aprovação. Com “Estorvo”, ganhou em 1992 o prémio Jabuti, o mais importante prémio literário no Brasil, que viria ainda a receber por “Budapeste” em 2006 e pelo romance “Leite Derramado”, em 2010. Nesse ano, recebeu ainda o prémio Portugal Telecom de Literatura. “Mas por mais que eu leia e fale de literatura, por mais que publique romances e receba prémios de literatura, faço gosto em ser reconhecido no Brasil como compositor popular e ser conhecido em Portugal como o gajo que um dia pediu que lhe mandassem um cravo e um cheirinho de alecrim.”

Além de homenagear o pai, Chico Buarque lembrou que quase todos os brasileiros têm antepassados negros e indígenas. “Trago nas veias sangue dos açoitados e dos açoitadores”, disse. E, num tom mais leve, contou que descobriu recentemente que os seus avós eram judeus sefarditas, perseguidos e tornados cristãos novos: “Pode ser que algum dia eu alcance o direito à cidadania portuguesa em jeito de reparação histórica”, comentou. “É sempre bom ter uma porta aberta em Portugal.”

O músico lembrou que visitou Portugal pela primeira vez em 1966, era ainda um miúdo, com João Cabral de Melo Neto, autor da peça de teatro “Morte e Vida de Severina”, e que viria a ser o primeiro brasileiro a receber o Prémio Camões, em 1990. Na plateia de hoje estavam outros premiados: Manuel Alegre e Mia Couto. Mas também a fadista Carminho, o político Francisco Louçã, Pilar del Rio, presidenta da Fundação José Saramago, a cineasta Teresa Villaverde e o capitão de Abril Vasco Lourenço - foram alguns dos convidados na cerimónia. Questionada pelos jornalistas, a cantora brasileira Fafá de Belém deixou bem clara a importância deste momento: “Sem cultura um país não existe. No Brasil, nos últimos quatro anos nós, artistas, fomos ignorados e rechaçados. Este prémio é o momento em que o país se reencontra com a sua cultura. Finalmente voltamos”.

E foi precisamente com essa nota que Lula da Silva, presidente do Brasil, iniciou a sua intervenção: “É para mim uma satisfação corrigir um dos maiores absurdos da cultura brasileira dos últimos tempos”, disse, referindo-se ao facto de o seu antecessor, Jair Bolsonaro, ter mostrado reservas na atribuição do Prémio Camões a Chico Buarque. “O ataque à cultura em todas as suas formas fez parte da estratégia que a extrema-direita tentou implementar. Se estamos aqui para fazer essa reparação é porque finalmente a democracia venceu no Brasil. Hoje já é outro dia”, disse Lula da Silva, citando a célebre canção de Chico “Apesar de Você”, que se tornou um hino contra a ditadura no Brasil. Aliás, todo o discurso de Lula foi povoado por pequenas referências às canções mais conhecidas de Chico Buarque, mostrando que este é um prémio para a literatura mas que a literatura nem sempre vem embrulhada em romances e em livros com muitas páginas. “Chico Buarque transformou o quotidiano em poesia extraordinária”, disse Lula, lembrando mais uma das grandes canções.

Mas as canções mais citadas ao longo da cerimónia foram “Fado Tropical”, exemplo maior da união entre as culturas do Brasil e de Portugal, que Chico Buarque escreveu com Ruy Guerra, em 1964, "Tanto Mar" composta em 1975 para celebrar a Revolução dos Cravos, e ainda "Meu Caro Amigo", de 1976. Marcelo Rebelo de Sousa atreveu-se mesmo a dizer os primeiros versos dessa “carta cantada” em sotaque brasileiro, repetindo-os depois já com sotaque de Portugal, dirigindo-se ao premiado: “Meu caro amigo, me perdoe por favor essa demora [na entrega do prémio], muito obrigado de sempre e para sempre”.

Foi também com “Tanto Mar”, interpretado ao piano por Mário Laginha, que a cerimónia terminou, seguindo-se uma breve visita dos presidentes pelo Palácio de Queluz, o local onde morou D. Pedro IV de Portugal - D. Pedro I do Brasil. Foi precisamente deste palácio que a corte portuguesa saiu para o Brasil, pressionada pelas invasões francesas. E foi igualmente a este palácio que a corte regressou. Mais uma coincidência assinalada por Marcelo Rebelo de Sousa, que, como não poderia deixar de ser, sublinhou o carácter universal da obra de Chico e a sua importância para todos os falantes de português. "Consideramos o cancioneiro de Chico Buarque parte do património comum de Brasil e Portugal", disse. E deixou a pergunta irreverente: “Tendo em conta a altura, a imaginação e a versatilidade a que ele elevou a língua, talvez no Brasil se pudesse dizer a língua de Chico Buarque, assim como em Portugal dizemos a língua de Camões?”.

No final da cerimónia, o público voltou a aplaudir de pé, mas, ao contrário do que é habitual, não houve encore. Fica o encontro marcado para junho, aí sim com voz e violão, e todo o mundo a cantar junto: "Sei que há léguas a nos separar, tanto mar, tanto mar, sei também quanto é preciso, pá, navegar".

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