Preços do vinho vão subir pelo menos 10%. A culpa é sobretudo do vidro, mas não só

11 jun, 10:00
Vindimas

Estimativas são da ACIBEV, que alerta também para o problema crónico do envelhecimento da mão de obra no setor que, de momento, tem uma média de idades de 65 anos.

Os preços dos vinhos devem subir pelo menos 10% no segundo semestre deste ano, estimam os produtores vitivinículas, sublinhando que o aumento e a escassez de produtos essenciais estão também a levar várias empresas a considerar sair do negócio. “As empresas têm-nos dito que o aumento vai ser inevitável, por causa do encarecimento das matérias-primas”, garante Ana Isabel Alves, diretora executiva da Associação de Vinhos e Espirituosas de Portugal. 

Esta associação, que representa cerca de oitenta produtores nacionais, garante que o aumento dos preços só pode ir até certo nível e não pode fazer com que o consumidor seja obrigado a escolher entre uma garrafa de vinho ou outro produto. “O aumento não é elástico, só se pode aumentar até a um certo ponto, senão o consumidor, com menos dinheiro na carteira, acaba por ter de prescindir do vinho em detrimento de outros produtos de primeira necessidade”.

Em causa, explica a diretora executiva da ACIBEV, está o aumento “brutal do custo do vidro, na ordem dos 40%”, mas também o cartão, as paletes e os materiais agrícolas, como o adubo, ficaram “significativamente mais caros”. Outro produto que tem gerado preocupação junto das empresas são os contentores, essenciais na época das vindimas e que hoje “custam cinco vezes mais” e estão cada vez menos disponíveis.

Para além disto, esta associação alerta para “um problema crónico” relacionado com a mão de obra no setor e o envelhecimento progressivo dos profissionais. É que “a média de idades ronda os 65 anos e o trabalho agrícola não é atrativo, o que leva os mais novos a ir para a cidade em busca de trabalhos em fábricas e empresas, e é algo que tem ameaçado a sustentabilidade do nosso negócio”, explica Ana Isabel Alves, sublinhando que a alternativa a este fenómeno é a mecanização da vindima. "Mas no Douro, onde as vinhas são plantadas em socalco, dificilmente lá entram as máquinas. No Norte, esta alternativa não funciona”.

Também Armando Fontainhas, presidente da adega cooperativa de Monção, garante à CNN Portugal que, por causa do aumento do preço dos custos na produção de vinhos, "vai ter de existir um pequeno aumento de preços no consumidor", sublinhando que isso levou a sua empresa a "ter de ser mais racional na utilização dos meios". "Neste momento, estamos a usar mais energia fotovoltaica produzida na adega solar", exemplifica.

"O vinho não pode ficar parado, nós temos a necessidade de o engarrafar e de o vender e uma paragem de produção motivada por falta de garrafas, ou por falta de rolhas, seria muito muito complicado", acrescenta.

Preços podem já ter subido 3% no primeiro trimestre

Armando Fontainhas salienta que a Adega Cooperativa de Monção tem tido "principalmente dificuldades no abastecimento de garrafas" e que o cartão, utilizado para embalar o produto, "também tem sofrido alguns atrasos". Por outro lado, os mais de 1600 produtores representados por esta cooperativa "têm-se queixado de que os herbicidas duplicaram no preço e, no caso das estruturas de suporte para a instalação da vinha inicial, os preços também têm sido quase o dobro".

Também Bernardo Gouvêa, presidente do Instituto da Vinha e do Vinho, o instituto público integrado na administração indireta do Estado, confirma que, por causa da invasão russa da Ucrânia, têm existido aumentos dos preços e falhas no fornecimento de matérias-primas, "nomeadamente de garrafas, madeira, cartão, logística, energia, combustíveis e fertilizante". Sobre os efeitos no consumidor no primeiro trimestre, este instituto garante que o aumento do custo ainda não é visível, mas admite "que se observe até um crescimento de 3% no preço médio".

O efeito das alterações climáticas e o exemplo francês

Nos primeiros meses do ano, Portugal atravessou uma das piores secas de que há registo e e produtores das regiões do Algarve e do Alentejo alertaram para um efeito desolador na colheita deste ano. Contudo, diz a ACIBEV, a seca até ao momento não está a ter impacto e as previsões “são de que vai ser um ótimo ano vitivinícula”, desde que não se registe um fenómeno climático extremo, como aconteceu em França.

Na segunda-feira, a comuna francesa de Chablis, famosa pela sua uva Chardonnay, acordou com videiras cobertas de geada que se estendiam pelas encostas com temperaturas de 5 graus negativos. Um fenómeno que no ano passado acabou por causar danos na mesma região de cerca de dois mil milhões de euros e que o governo francês apelidou de “a maior catástrofe agrícola do século XXI”.

Chablis: produtores acendem velas para combater a geada nas vinhas (AP)

Para contrariar os efeitos da natureza, os agricultores acenderam durante a noite velas entre as vinhas, temendo que a geada tardia mate as uvas que já nasceram em março, mês que registou em França temperaturas acima de 20 graus, muito acima do normal para a época.

Em Portugal, garante Bernardo Gouvêa, o setor está muito atento ao desafio causado pelas alterações climáticas, e está consciente de que inovar importa. "Os viticultores estão mais predispostos à automatização e à digitalização, assumindo a sustentabilidade, uma relevância significativa nas tomadas de decisão que diariamente são impostas à gestão, consciente e responsável, das explorações agrícolas", acrescenta.

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