Na actual composição do preço da gasolina, e do gasóleo, um aumento do preço do crude de 50% no mercado internacional apenas deveria impactar 12,5% do preço final. No caso da gasolina, seriam 0,21 euros de aumento quando, na realidade, esta segunda-feira chegará aos 30 cêntimos de aumento deste que a guerra estalou
O preço do gasóleo sobe nesta segunda feira 16 cêntimos, enquanto o da gasolina vai subir 9 cêntimos. Reza assim aqui.
Não sei bem como é que é possível calcular o preço médio dos combustíveis quando tantas marcas têm no chamado “cross-selling”, ou venda cruzada, descontos que podem chegar aos 30 cêntimos. Estes cálculos de aumentos incidem sobre o quê? E o desconto no imposto aplicado pelo governo incide sobre o quê? Quando faço compras no supermercado e com isso recebo um voucher de desconto no combustível, onde fica o IVA e o imposto sobre combustíveis, sobretudo quando o mesmo oscila ainda antes de eu descontar o voucher?
E com os preços a subir tanto, e sendo os combustíveis um produto “especial” que se interliga com a autonomia energética do país e até mesmo com a interdependência estratégica da União Europeia, qual a legitimidade destas campanhas que retiram a referência real do custo dos combustíveis, colocando-lhe sempre um “se” à frente? O "se" de alguém que, se tiver cartão de pontos ou do que for, pode pagar menos pelo combustível. Se não tiver nada disso, paga a tabela. E onde ficam os benefícios empresariais do Estado à subida dos preços dos combustíveis quando o cartão de pontos é usado na esfera pessoal, criando zonas cinzentas? São tantas as questões que não me quero sequer perder nelas, por agora. Impactam nas políticas e no mercado, mas este artigo não é sobre isso.
Quando os combustíveis sobem mais depressa do que um foguete
Muito se tem falado e questionado pelo facto de os aumentos dos custos dos combustíveis estarem a aumentar de forma imediata. Rui Calafate foi um dos nomes que genuinamente tocou com o dedo na ferida, mas, tal como outros, pode não ter deixado tudo tão claro como deveria estar.
Cada petrolífera tem o seu modelo de compras, mas no geral todas se seguem mais ou menos pelo mesmo diapasão - e talvez fosse importante que as mesmas explicassem. Os combustíveis são, de facto, comprados em longo prazo e os contratos de compra têm o seu preço definido com base em projecções futuras, não no amanhã. É por isso que, quando a gasolina sobe 16 cêntimos numa semana, é factual que o custo dessa gasolina não foi definido depois do aumento do preço do crude, mas antes.
Em números redondos, o preço da gasolina é composto por cerca de 55% de impostos, 20% de refinação e 25% de matéria-prima (crude). Importa notar que o petróleo é negociado globalmente em dólares ($), o que introduz uma outra variável crítica: o risco cambial. Se o euro desvaloriza face ao dólar ao mesmo tempo que o crude sobe, o impacto na bomba é duplicado. As petrolíferas utilizam frequentemente um "buffer" (ou margem de segurança) cambial no preço de venda para se protegerem da volatilidade entre o momento em que encomendam o produto e o momento em que o pagam efetivamente. São várias peças do mesmo puzzle.
Na actual composição do preço da gasolina, e do gasóleo, um aumento do preço do crude de 50% no mercado internacional apenas deveria impactar 12,5% do preço final. No caso da gasolina, seriam 0,21 euros de aumento quando, na realidade, esta segunda-feira chegará aos 30 cêntimos de aumento deste que a guerra estalou. A diferença de nove cêntimos parece irrisória sobretudo quando vemos que há talões de desconto e fidelidade que oferecem isso, mas são mais 42% do que o aumento estimado pela simples variação do preço do barril. Valendo o crude apenas 25% do que pagamos, certo é que a carga fiscal, a refinação e este "colchão" de risco cambial estão a impactar no preço na bomba mais do que o simples estrangulamento do Estreito de Ormuz - e sim, muita dessa diferença são impostos!
Margens das petrolíferas
Há duas formas de analisarmos a questão de evolução dos preços de combustíveis na bomba de gasolina: ou as petrolíferas demoram mais a subir os preços quando o petróleo sobe, ou demoram menos a descer os preços quando os preços descem.
Uma coisa é o valor do stock, outra coisa é o valor da reposição desse stock. Claro que o preço da gasolina da bomba nesta segunda-feira não incorpora preços de custo do crude desta mesma gasolina, mas se as gasolineiras venderem a gasolina - e estou a deixar de fora refinação e impostos, ao preço antigo -, significa que estão a vender o seu produto a um preço de referência de, por exemplo, $65 por barril (valor pré-crise), mas que hoje têm de repor esse stock a valores próximos de $100 ou $110.
Ora, isto significa que as receitas das vendas, apesar de libertarem a margem prevista, não lhes permitiriam cobrir as despesas com a reposição do stock, pois perderiam uma fatia significativa por cada abastecimento. As reservas de petróleo são estratégicas e as petrolíferas não podem deixar os stocks baixar e cruzar os dedos para que os preços desçam. Assim, apesar dos contratos de futuros e do stock estratégico, o impacto dos preços de reposição (em dólares) é imediato na compra e, em bom rigor, deveriam ser imediatos também na venda.
E quando os preços descem?
Ora, se os preços sobem pelo facto de refletirem o preço de reposição de stock e não da mercadoria vendida, então a mesma lógica deveria ser aplicada quando os preços caem drasticamente. Se as petrolíferas se regem pelos custos de reposição e não pelo custo real da compra, justo seria que a rapidez na descida fosse tão imediata quanto a subida e sempre proporcional ao crude. É isto que normalmente não vemos acontecer e talvez seja isso que levanta desconfiança ao mesmo tempo que levanta indignação.
Além da manutenção das margens de refinação, o tal "buffer" de risco cambial raramente é reduzido com a mesma velocidade, servindo de amortecedor para as empresas e de peso para o consumidor, mas há outro factor.
Quando permitimos que o petróleo seja transacionado livremente por quem não tem intenção de o refinar e até mesmo de o receber fisicamente, introduzimos especulação. Essa especulação impacta fortemente quem realmente precisa do petróleo. Se os governos impõem restrições contra o açambarcamento físico em crises, como é que não existe uma lei que limite os traders de comprar papel (petróleo) em períodos de crise, sem provar necessidade real? Este mercado livre acaba por alavancar a rapidez na subida e travar na descida.
Estarão as gasolineiras a fazer mal, como se diz?
Não obrigatoriamente, mas não é linear que nem todas não o façam.
O sistema é complexo. As gasolineiras captam eficiência num mercado volátil e garantem margens melhores através de modelos financeiros sofisticados. Mas o mercado da energia é demasiado complexo para se estar a generalizar. Ainda assim, essa complexidade não deve servir de cortina de fumo para a falta de transparência nos preços reais que pagamos à boca da mangueira a cada abastecimento. Sempre que há uma disrupção, tentamos procurar avidamente os culpados que querem enganar todos os outros e, infelizmente, quase sempre esse oportunismo existe, mas não quer dizer que seja generalizado.
Portugal, apesar de um país pequeno, tem os laços certos com diversos países produtores e consegue limitar o impacto do preço dos combustíveis. Devemos dar esse louro aos especialistas, como devemos dar os louros aos que garantem que os nossos preços de energia se mantêm estáveis face ao cenário. Por vezes, e bem, esquecemo-nos que neste mundo global somos uma mera casca de noz que consegue agigantar-se de uma forma extraordinária.
Pode efectivamente fazer sentido reequacionar os níveis fiscais num bem como a gasolina ou o gás, que não são propriamente bens de luxo mas sim de primeira necessidade. Nesse caso, a atual pressão resultante da subida dos preços poderá abrir essa porta e permitir um modelo de taxação mais eficaz.
