O clube onde eu pertenço há anos

9 ago 2025, 16:00
PRAZERES CULPADOS || Breakfast Club

PRAZERES CULPADOS || Às vezes, voltamos a certos lugares não para lembrar, mas para nos reencontrar. É um regresso silencioso a um tempo onde éramos todos um pouco esquisitos, à espera que alguém nos visse para além das capas que vestíamos — e onde, no fundo, já sabíamos que ninguém está realmente só

Há uma cena, quase no fim de The Breakfast Club, em que o Brian, o cérebro, o nerd, o tipo com notas para dar e vender mas autoestima a preços de saldo, pega numa caneta e escreve a tal redação para o senhor Vernon, o director implacável da Secundária de Shermer — e, aos sábados, o carcereiro de serviço, o responsável pelos castigos. 

Uma única folha, para os cinco. 

Diz qualquer coisa como: “Você vê-nos como quer ver... nos termos mais simples e nas definições mais convenientes”. E depois, aquele parágrafo final — o que fecha o filme, o que nos abre a cabeça: “Todos nós somos um bocado estranhos. Alguns simplesmente são melhores a escondê-lo, só isso”.

Eu vejo esse filme pelo menos uma vez por ano. Não é uma regra escrita, nem um ritual com velas acesas e incenso a arder. Mas acontece. Volto a ele como quem regressa a casa depois de um ano longe: meio sem jeito, meio nostálgico, mas certo de que pertence ali. Chama-se guilty pleasure — embora a culpa, neste caso, tenha pouco de culpa e muito de prazer. E de pertença.

Podia ver outros. Podia ver o Citizen Kane, ou um documentário sueco sobre a solidão urbana, ou os episódios todos do The Wire em fast-forward. Mas não. Volto à biblioteca daquela escola suburbana, a um sábado sem sentido, onde cinco adolescentes estão de castigo e acabam por se ver, de verdade, uns aos outros. Acredito que há mais verdade naquelas duas horas de clichés bem escritos do que em muitos discursos sérios sobre identidade, juventude ou trauma.

Porque eles somos nós. Porque somos todos o cérebro, o atleta,  a princesa, o criminoso e a “basket case” — às vezes tudo no mesmo dia.

E, sim, eu casava-me amanhã já com a Allison, Allison Reynolds, a “basket case”. Aquela versão pré-makeover, de cabelo nos olhos como cortina, de casaco preto a arrastar pelas mangas, sapatilhas no limiar da imundice, de voz que só sai quando ninguém está a ouvir. Há qualquer coisa nela — uma espécie de silêncio que grita, uma tristeza que sabe dançar, uma solidão cheia de ideias — que me desmonta. A miúda que fazia desenhos com caspa e abanava a cabeça ao som de uma música que só ela ouvia: nunca a vi como “a esquisita”. Vi-a como quem espera que alguém a veja. E quando o Bender finalmente a vê — não com aquele olhar de quem quer tirar a roupa a alguém, mas com aquele olhar que vem depois, o que fica quando a música pára — percebi: também sou ela.

Às vezes, mais do que queria.

Há quem ache que guilty pleasures são fraquezas. Como se gostar de algo fora do radar cool fosse uma espécie de rendição. Como se comermos cereais de criança ao jantar revelasse um falhanço do carácter. Mas há ali qualquer coisa de resistência também. Um prazer culpado é, muitas vezes, o lugar onde ainda somos livres. Onde não se presta contas a ninguém. Nem ao algoritmo, nem aos amigos com bom gosto, nem ao cinismo que envelhece mal.

Ver The Breakfast Club é o meu momento de rendição e de resistência. Rendição ao adolescente que fui — o que queria muito que gostassem dele, mas não sabia como mostrar-se. E resistência ao adulto que sou — o que aprendeu a mostrar-se, mas às vezes já se esqueceu porquê.

Não há lição formal naquele filme. Não é suposto haver. 

Mas há gestos que ficam. A forma como a Claire, a princesa, se despe em silêncio — não o corpo, mas os mecanismos de defesa. Ou como o Andrew, o atleta, se afasta do cliché e diz: “O meu pai disse que eu era um vencedor e que devia comportar-me como tal, mas eu não me sinto um vencedor, nem sequer perto disso”. É ali que se quebra tudo — o verniz, a pose, a ideia feita do que devíamos ser.

O Brian entrega a redação. O Vernon lê. Nós também. E ali está a verdade escondida entre linhas de diálogo que, no fundo, são cartas de amor aos miúdos que ainda somos, mesmo quando já temos contas para pagar e rugas que não disfarçam.

O guilty pleasure não é só o filme. É permitir-me continuar a senti-lo. Sem ironia. Sem desculpas. Com tudo: a ternura, o embaraço, a nostalgia e aquela pontinha de vergonha boa que se sente quando nos sabem um segredo.

Todos os anos, volto ao clube. Bato à porta, como quem não sabe se ainda tem lugar. Mas entro. Sento-me ao lado deles. E volto a ser quem fui — e quem, secretamente, nunca deixei de ser.

"O que descobrimos, senhor, foi que somos todos loucos e maus e belos, e mimados e fortes e maduros e completamente passados da cabeça e brilhantes. Aceite ou deixe.” Terminam assim. E assinam assim: “Com os melhores cumprimentos, o Breakfast Club”. Ao som de “Don’t You Forget About Me”, dos Simple Minds. Coração ao alto. 

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