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Os "Riscos" bem que podiam regressar

16 ago 2025, 16:00
PRAZERES CULPADOS || Riscos

PRAZERES CULPADOS || Chamava-se “Riscos”, mas jogava quase sempre pelo seguro. Havia maus atores (de imberbes) e havia a promessa de que ninguém iria acabar na lota. Era uma série adolescente antes da moda das séries de adolescentes, mas parecia escrita por adultos com medo de o ter sido. E eu via, religiosamente, eu que nem um adolescente era bem. Como se ali se escondesse qualquer coisa parecida à vida

Isto é do que me lembro. Havia uma miúda chamada Maria João, que era filha da Lídia, que era professora. Havia uma outra chamada Rita, que era assediada pelo Abel, que também era professor. E havia um tipo chamado Diogo, de irrepreensíveis melenas desgrenhadas, que namorava uma vilã loira com pinta de modelo russa, a Mariana — que haveria de vencer um prémio no Festival de Veneza, mas isso agora não interessa. Lembro-me de uma conversa que fraturava entre dois namorados nos anos 90 como hoje em dia:

“Pescador?! Mas como é que tu vais ser pescador, Diogo, se eu vou ser advogada?”

A linha soava quase poética, como se fosse escrita por alguém que nunca viu um barco no mar mas entendia muito bem a vergonha de não ter um plano B para Lisboa. Soava dramática, mas era só real: ser pescador em Algés (já vos explico) era impensável para quem sonhava com escritórios envidraçados na capital. Parecia, e era, uma frase saída de um guião, mas doía como uma verdade: ninguém queria acabar na lota, quando toda a gente sonhava com cafés com revistas estrangeiras (Monocle > lambujinha) e aperol spritz.

Aquele liceu, que na verdade era só a muito pouco jovem Direção de Serviços de Inspeção, Monitorização e Controlo das Atividades Marítimas, ao pé do La Siesta, em Algés, era quase um bairro onde toda a gente falava como se estivesse a ler guiões — e insisto: estava. Havia um genérico com pretensões de boa onda, um genérico que queria ser verão, daqueles que nos obrigam a acreditar que tudo ia correr bem, mesmo quando não vai, com uma canção orelhuda que versava isto, “quando a vida se revela / à deriva um barco à vela” — que até faz sentido na Direção de Serviços de Inspeção, Monitorização e Controlo das Atividades Marítimas —, e gente a correr em câmara lenta, sorridente, irritantemente sorridente. E até os sorrisos tinham um delay técnico, como se viessem com pós-produção colada à cara.

Havia, sobretudo, o peso de um título: “Riscos”. Palavra aberta, com ângulos, de arestas afiadas — como se a série fosse perigosa, adulta, ou pelo menos real.

Passava ao final da tarde, creio, e eu via-a religiosamente. Tinha 10 anos e zero referências. Não sabia o que era um guião mal escrito, nem o que era direção de atores. Só sabia que ali estava um mundo onde os adolescentes eram protagonistas e os adultos só atrapalhavam. Um mundo onde as amizades se traíam, as drogas circulavam e as emoções eram ditas com a convicção de quem faz de árvore na peça de teatro de final de ano da Academia de Música de Vilar do Paraíso. A convicção é tudo. Mesmo que a frase seja um “sai, João” e o João esteja parado, de olhos pregados na régie.

“Riscos” era má televisão? Provavelmente. Mas eu pagava para a rever. Sem ironia que pagava. Pagava bom dinheiro. Desse que me dói a ganhar. E não era para gozar com o penteado do Diogo — que obviamente não repliquei porque em casa não me permitiram — ou para ser nostálgico durante cinco minutos num grupo de WhatsApp arquivado chamado "Leave the gun, take the cannoli". Era porque, naquele tempo, “Riscos” era tudo o que eu queria saber da vida: paixões impossíveis, arrufos quixotescos, professores demasiado jovens e alunos demasiado crescidos, e famílias disfuncionais com a moral em voz alta. 

Era um mundo onde tudo acontecia na sala de estar, no bar, no pátio — e sempre com alguém a entrar a meio da frase, como mandava o guião da época. Era o nosso “Beverly Hills 90210”, só que em Algés. O nosso “Dawson’s Creek”, mas com um gajo a mandar speeds: “[Deixa-te de ‘bogas', Diogo, diz lá qual é a história!] Comprimidos, anfetaminas, doping, percebes?! O gajo ‘tá metido nos speeds, meu!”. Era amador e, ainda assim, heróico. Como quando se tenta dançar com os pés errados e mesmo assim se gira. Porque a tentativa, quando é séria, tem sempre qualquer coisa de bonito. Mesmo que toda a gente esteja a olhar de lado.

A série era o reflexo do país que estávamos a tentar ser: urbano, adolescente, dramático, livre. Mas era também a prova do que não sabíamos fazer. Só que a televisão pública queria arriscar — não em conteúdo, mas na forma. E os riscos acabaram por ser outros: narrativas que se desmanchavam, atuações com o entusiasmo de uma leitura encenada do IRS na repartição da Fontes Pereira de Melo e um olhar para a juventude mais próximo da pedagogia do que da empatia.

Mas era a nossa série. E, como todas as coisas nossas, havia um pacto: não importa se é boa ou má, importa que era minha. Daquele verão. Daquela idade. Daquele corpo a mudar sem pedir licença. Da t-shirt da Semente sobre calças Chevignon sobre ténis Airwalk. Era tudo ali, naquela televisão quadrada.

Recordo-me da excitação de ver o episódio seguinte como quem espera resposta a uma carta. O enredo, cheio de reviravoltas, parecia um Shakespeare em calções. Havia uma nobreza naquilo — ou pelo menos uma urgência. Os problemas eram grandes porque nós éramos pequenos. E quando a Maria João chorava, e muito a Maria João chorava — normalmente ao som de Texas, “Say What You Want” —, a televisão também era minha por instantes. Era a primeira vez que eu via alguém chorar na televisão por algo que não fosse um divórcio, uma morte ou o fim da monarquia numa série do Moita Flores. Era só amor — e isso já bastava.

É esse o verdadeiro guilty pleasure: aquilo que nos comove mesmo quando já sabemos melhor. Mesmo quando temos o cinismo, a crítica, a distância. Porque há um tempo em que não sabemos distinguir qualidade de identificação. E ainda bem que assim é. Porque é aí que tudo se grava.

Hoje, se me aparecesse um VHS de “Riscos” num quiosque meio abandonado em Salvaterra de Magos, de capa pelo sol desbotada, eu comprava — embora não possua um leitor. Sem vergonha. Vinha para casa, punha no leitor, que ainda não tenho, mas hei-de ter, e mergulhava, só mergulhava. Não para rir, nem para comparar, mas para regressar. Como quem encontra uma carta antiga da adolescência e volta a acreditar que aquilo era amor. Mesmo que não fosse.

Porque há séries que nos ensinam sobre televisão e há outras que nos ensinam sobre nós. “Riscos” fez-me querer ter uma vida que desse uma série. Fez-me acreditar que os amores adolescentes tinham peso de novela. E que bastava entrar num bar com luzes neon para a vida começar. Hoje, talvez isso tudo me pareça ingénuo. Mas às vezes, no fim do dia, é disso que precisamos: da ingenuidade que sobreviveu ao tempo. E isso, lamento dizer-vos — ou talvez não —, não se encontra no catálogo da Netflix.

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