Prazeres culpados: "Onde as águias voam, no alto da montanha". Ao colo de Richard Gere

30 ago 2025, 16:00
Oficial e Cavalheiro

"O amor eleva-nos para onde pertencemos,
onde as águias voam
no alto da montanha.
O amor eleva-nos para onde pertencemos,
longe do mundo lá em baixo,
lá em cima, onde os ventos sopram límpidos"

A esta hora já as lágrimas me escorrem pelo rosto sem que as consiga controlar. "Como assim?", perguntam vocês. Perante um verso tão pouco literário, a anos-luz de qualquer prémio de literatura... A resposta é simples.

Traduzam para inglês este pequeno verso. Juntem a voz de Jennifer Warnes e Joe Cocker, Richard Gere, Debra Winger, uma história de amor e um final feliz, mesmo com uma tragédia pelo meio. E o nome de um filme: "Oficial e Cavalheiro" (An Officer and a Gentleman - título original). Data de 1982 e foi dirigido por Taylor Hackford.

"Love lift us up where we belong
Where the eagles cry
On a mountain high
Love lift us up where we belong
Far from the world below
Up where the clear winds blow"

Não, não é por ser o Richard Gere. Não, não é por ser um oficial da Marinha (mesmo assumindo que os homens ficam bem de farda). Não, não é por ser um cavalheiro, já que gosto de abrir a porta do carro sozinha.

Ainda não tinha feito dez anos quando o filme estreou. Fui ver com a minha irmã mais velha ao cinema, porque nessas décadas era preciso esperar muito tempo para ver um filme recente na televisão. Mas perdi a conta das vezes que o revi. Podia contar, mas esse "prazer culpado" vai continuar no segredo dos Deuses. É certo que chorei no cinema e em todas as vezes que Richard Gere pegou em Debra Winger ao colo e partiram rumo ao futuro (não confundam com outro filme). Às vezes ainda não lhe tinha pegado ao colo e eu já estava a chorar.

Em pequena não acreditava em contos de fadas e acabei adulta sem acreditar em grandes histórias de amor, em que o destino está traçado para um casal qualquer ser eternamente feliz. A felicidade não dura para sempre e prefiro sentir que ela é eterna enquanto dura. É a intensidade com que a sinto.

Mas todos precisamos de esperança. Acho que esse é o meu prazer culpado. Alimentar a minha esperança com histórias de amor que sei impossíveis. Porque sabe bem, porque dá prazer acreditar. Porque me obriga a imaginar e na minha imaginação eu posso ser a Debra Winger, ao colo de Richard Gere.

Assumo que não é o único filme que me faz chorar, mas é daqueles que me dá alguma vergonha e não sei explicar porquê. Por isso, para mim, é um "prazer culpado". Irei rever mais vezes, sempre que precisar de acreditar.

Não me vou armar em crítica de cinema, ou de música, e justificar que o simples funciona. Que os grandes enredos podem complicar e que tudo o que é demais, enjoa. Mas a verdade é que, às vezes, não é preciso um guião brilhante para nos prender ao ecrã. Bastam os atores certos, nos papeis certos. A música certa, com vozes que nos tocam. E fazerem-nos acreditar que o amor respira, tal como nós.

 

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