Estar 12 horas a olhar para uma porta para saber que um príncipe nasceu em nada contribuiu para a minha felicidade. Mas fi-lo. E repeti. E voltaria a fazê-lo
A curiosidade nasceu pela notícia mórbida. A 31 de agosto de 1997, tinha eu dez anos e acabado de perder o meu pai há pouco mais de dois meses, quando nesse domingo de manhã a notícia de que a princesa Diana tinha morrido era comentada por todas as pessoas do lugar onde vivia.
Na sala de casa, rapidamente, surgiram revistas sobre a mãe de William e Harry, aqueles dois rapazes que, tal como eu, tinham perdido um dos pais sem quê nem porquê. Foi como se entre nós, separados por milhares de quilómetros, se criasse um elo de dor que só quem perde um pai consegue compreender.
As revistas sobre o funeral também apareceram lá por casa. Foram guardadas anos a fio (acho que ainda estão guardadas no sótão da minha casa de infância), foram tema de um trabalho na faculdade há uns anos e falo delas volta e meia como para justificar o "vício" de todos os dias ler notícias sobre a realeza.
Sou fã, talvez. A vida deles em nada contribui para a minha felicidade, mas há 12 anos estive várias horas a olhar para um polícia em frente a uma porta da maternidade onde a (agora) princesa Catherine estava em trabalho de parto. Foram horas a fio a olhar para a porta e para o polícia até ser anunciado que o príncipe George tinha nascido. Repeti o feito com a Charlotte e com o Louis. Fiz casamentos, batizados, funerais e coroações quase como se fosse algum familiar. Festejei o beijo de William e Kate na varanda, o de Harry e Meghan à porta da Catedral de Windsor e todos os nascimentos como se de sobrinhos se tratassem. E todos os dias, mas todos os dias sem exceção, lá vou eu ver o que os membros da família real britânica andam a fazer. Ou os da família real espanhola. Ou da família real sueca. Ou de uma qualquer família real. Se é realeza, eu quero ver. Quero analisar vestidos, vibrar com momentos inesperados (como as fotos em que William e Kate aparecem de mãos dadas durante as viagens oficiais), perceber quem está doente, quem pode ou não abdicar, onde vão os filhos dos príncipes estudar (a princesa Sofia de Espanha vai andar por Lisboa no próximo ano), ou até onde passam férias.
Entre os meus amigos, não tenho um que perceba o meu fascínio pela realeza, até porque a realidade da realeza é em tudo diferente da minha - não há bailes de gala, vestidos de estilistas, banquetes ou tiaras, assim como não percebem porque fiquei tão entusiasmada por ir fazer reportagem a Londres sobre a rainha Isabel II.
Vocês sabem lá o que é estar ali, junto a Buckingham, a dois passos do edifício que passo a vida a ver em fotografias, a tentar perceber se alguém vem à janela espreitar. Ou entrevistar o Chris Jackson, fotógrafo da Getty Images que acompanha a família real há vários anos? Aquela miúda de dez anos curiosa sobre a realeza estaria muito orgulhosa.