PRAZERES CULPADOS || Há canções que nos agarram pelo colarinho e aceleramos, um prego a fundo interior — mesmo que, por fora, só estejamos intransitáveis no IC19. Esta canção será talvez urgência sem razão, a resposta emocional desproporcionada a estímulo menor. Mas ninguém controla o que vem do esterno à espinal, esvoaçante e primaveril
Há canções que nos salvam do mundo. Outras, mais traiçoeiras, salvam-nos de nós próprios, terapeutas ou exorcistas dos 150 BPM — e, quando damos por isso, já estamos com a cara no vidro do Uber, a olhar para a Avenida Infante D. Henrique como se fosse a Route 66. “Nowhere Fast”, dos Fire Inc., é isso para mim, um guilty pleasure. Mas com tudo o que o termo não diz: culpa, sim, prazer, também, mas uma absoluta certeza de que há ali qualquer coisa de sagrado. Mesmo que venha embrulhado em couro ranhoso e neón dos anos 80.
Quem são os Fire Inc.? Ninguém. E, ao mesmo tempo, tudo. A banda nunca existiu. Foi inventada para dar músculo sonoro ao filme “Streets of Fire”, de 1984, uma espécie de ópera-rock com motociclistas, batom borrado, porrada coreografada e diálogos escritos num estado avançado de cerveja morna. O filme é uma confusão gloriosa que não convenceu ninguém, nem no ano em que saiu, nem depois. Mas logo na primeira cena, quando Diane Lane (ou melhor, Ellen Aim, a personagem que finge ser) aparece em palco e canta “Nowhere Fast” como se estivesse a exorcizar um demónio com gloss nos lábios, é ali que a minha andorinha entra.
Sim, a andorinha. Aquela sensação que vem do esterno e sobe em espiral, feita de emoção, adrenalina e um bocadinho de vergonha. Aquilo que os românticos chamariam de “comoção” e os clínicos de “resposta emocional desproporcionada a estímulo menor”. Mas que eu, com o peito aberto e os olhos semi-húmidos, chamo só de verdade. Porque não há nada de pequeno em ver alguém a cantar como se o mundo fosse acabar em quatro minutos e vinte e cinco segundos. E ainda menos pequeno quando percebes que essa canção, essa entrega, não é para o mundo — é até para ti. De certa forma é.
Não há nada de racional nisto, eu sei. A canção é um festim de sintetizadores, bateria com eco, vozes em coro que parecem ter saído todas da mesma garrafa de medronho rasco num bar de karaoke em Tavira e uma letra que fala de correr sem destino, de lutar por um amor impossível, de ser demasiado novo para morrer e demasiado velho para sonhar. E, no entanto, quando o refrão entra — "You and me, we're goin' nowhere slowly / But we should be goin' nowhere fast" — há ali uma urgência que me rebenta as costuras. Como se, mesmo parado num engarrafamento na IC19, eu estivesse a fugir de uma cidade em chamas com a minha paixão agarrada à cintura.
Há quem tenha guilty pleasures mais decentes: ver reality shows de engate em praias do Caribe, ouvir Nirvana em bossa nova, comer chocapic às três da manhã e depois (já que a “cama” está feita e está) vinho branco às três e meia. Eu tenho esta canção. Que ouço de vez em quando, em segredo. Ou em público, mas com cara de quem está a ouvir Springsteen, vá. E não é que me envergonhe. É mais o receio de que, ao explicar demais, ela perca força. De que a ironia a desgaste. De que a dissecação a transforme noutra coisa. Porque esta música, como o amor de adolescência ou o primeiro murro no estômago emocional, só vive enquanto for sentida com irracionalidade plena.
E sim, claro que tentei replicar a sensação noutros sítios. Outras canções. Outras ficções. Mas nenhuma me dá o que “Nowhere Fast” me dá. Que é isto: a ilusão, durante esses tais quatro minutos e vinte e cinco segundos, de que ainda há tempo. De que ainda se pode pegar na vida pelos colarinhos, gritar com ela na cara e dizer: “vamos, arranca, acelera, fode-te para os limites, leva-me contigo”.
Há dias em que não sou mais do que um tipo a precisar de café e silêncio. Mas noutros, nos bons, sou um adolescente com as mãos no volante de um carro que nunca tive, o volume no máximo, a cidade a fugir-me dos retrovisores e a andorinha a rasgar o céu do meu peito que ainda tem, que ainda me traz, primaveras. Tudo por culpa de uma canção inventada para um filme falhado, cantada por uma actriz dobrada, escrita por alguém que provavelmente já morreu e que, ainda assim, parece ter escrito aquilo para mim. E isso tem de contar.
A Mónica delirava quando ouvíamos a canção — e a Mónica ensinou-se muita coisa da beldade sem merdices ou vergonha. Godspeed.