PRAZERES CULPADOS || Há madrugadas que pedem silêncio, outras que pedem rendição. No curling, encontro o primeiro: um desporto lento, solene, que não entendo e talvez por isso me acalme. No Baby TV, encontro a segunda: estímulos para um cérebro em cacos, hipopótamos que não julgam. São prazeres distintos. Mas ambos me salvam de maneiras que a luz do dia nunca compreenderia
Não sei como se joga curling.
E, no entanto, é nas madrugadas da Eurosport que me sinto mais próximo da paz interior. Há qualquer coisa naqueles campeonatos repetidos, muitas vezes do ano anterior, em que equipas do Canadá, da Suécia ou de um canto obscuro da Escócia deslizam pedras com solenidade olímpica, que me conforta. É um desporto que parece inventado numa sala de espera. Gente de ar tranquilo empurra discos com cabos, há vassouras, há gritos incompreensíveis (“HAAAARD!”), e tudo se decide por milímetros — como se a tensão emocional de um domingo à noite, madrugada dentro, tivesse sido convertida num jogo de precisão sobre gelo.
Não compreendo as regras do curling.
Nunca percebi se o objetivo é tirar as pedras do adversário ou se basta que a nossa fique mais ao centro no circulo congelado que é o alvo. Mas talvez a ignorância seja o segredo. Saber demasiado estragaria o prazer. Parte do encanto está em ser espectador de um ritual enigmático, como quem observa uma missa noutra língua ou uma cerimónia do chá no Japão: sei que há significado, mas não estou aqui para entendê-lo, estou aqui para senti-lo.
O curling, para mim, é isso: um guilty pleasure. Ou, em português, um prazer culpado. O termo não traduz bem, porque “culpa” implica moral e “prazer culpado” tem mais a ver com estatuto — coisas de que gostamos, mas que não queremos que os outros saibam. Porque não são sofisticadas, ou porque são demasiado infantis, ou demasiado idiotas, ou demasiado nós.
A madrugada tem esse dom: liberta-nos do juízo alheio. Às três da manhã, não há ninguém a perguntar por que motivo um adulto está a ver curling em vez de dormir. E se a madrugada for de ressaca, então o curling já nem sequer chega.
Aí, entro noutra dimensão. Chama-se Baby TV. E é talvez o canal mais radical da televisão moderna.
O Baby TV é feito, presumivelmente, para bebés. Mas só os adultos em estados alterados, bebidos, de sexta-feira para sábado, percebem a sua verdadeira potência. São cores fortes, ritmos repetitivos, personagens que vivem fora do tempo. Um caracol que canta, uma ovelha que recita os dias da semana, um hipopótamo que aprende a contar até três durante cinco minutos. E, claro, as mandalas, magnéticas: estruturas geométricas que giram, brilham, hipnotizam. Feitas, ao que tudo indica, por alguém com acesso privilegiado a matéria psicadélica.
Numa madrugada de ressaca — já estivemos aí, todos — há algo de profundamente curativo neste mundo. O cérebro, dorido e inchado, precisa de estímulos simples. Precisa de saber que o triângulo vai voltar a aparecer. Que a música será sempre a mesma. Que o hipopótamo não o vai julgar.
Talvez os guilty pleasures não sejam sequer guilty. Talvez sejam apenas a forma mais honesta de prazer: aquela que dispensou o filtro do prestígio. Desculpem: não são os filmes do Kurosawa que nos salvam às três da manhã. São as repetições do curling. São as mandalas hipnóticas. São os programas infantis que nos embalam quando já não somos crianças, mas também ainda não voltámos a ser adultos.
Houve uma altura em que achei que devia esconder isto. Fingir que vejo documentários sobre a Segunda Guerra Mundial ou que aproveito a madrugada para pôr a leitura em dia. Mas chega uma altura em que um homem tem de fazer as pazes com os seus hábitos noturnos. Há quem faça scroll infinito no TikTok. Eu, que nunca abri um TikTok, vejo suecos a varrer gelo. E Baby TV, às vezes.
E, por uns instantes, sinto que tudo vai ficar bem.