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Casas caras são uma grande m#$%&

6 set 2025, 16:00
PRAZERES CULPADOS || Casas

PRAZERES CULPADOS || É à noite que me vingo dos ricos sem os taxar. Entro-lhes em casa, e nem me descalço, e aponto defeitos a tudo. Depois durmo melhor

Sim, tenho este hábito, um bocadinho inútil, um bocadinho sagrado: perder tempo em sites de imobiliárias a visitar casas que nunca vou comprar. 

Não são casas normais. São casas ridiculamente caras. Casas com nomes — “Quinta do Vale Encantado”, que provavelmente tem dinossauros, ou “Villa Aurora”, assim mesmo, com dois L’s —, casas com mais garagens do que pessoas a viver nelas. Casas que vêm com piscina, ginásio, home cinema e uma despensa do tamanho da minha sala inteira. 

Mas eu não estou lá por ambição. Estou lá por desforra.

Não há prazer mais profundo, nem mais perverso, do que entrar numa mansão de seis milhões de euros e encontrar defeitos. É um desporto para mim. Começa logo no chão da entrada. Mármore? Que cliché. Sobe ao telhado. Painéis solares? Tarde demais, mundo. Vai ao interior. Portas de correr? Pronto, nem para isolar o barulho prestam. E aquela cozinha — desculpem, “cozinha gourmet com ilha central em Silestone” — tem uma disposição que dá voltas ao estômago de qualquer pessoa que alguma vez cozinhou arroz e atendeu um telefonema ao mesmo tempo.

As casas dos outros, quando são tão caras que parecem saídas de um anúncio de perfume ou novela da Globo, dão-me um alívio difícil de explicar. Há qualquer coisa de tranquilizador na certeza de que, mesmo que pudesse comprar, não comprava. Que sorte a minha — escapar, outra vez, à ruína estética de um closet com candeeiros de cristal.

Este guilty pleasure, que já é ritual, começou como fuga. Primeiro à rotina. Depois à vida adulta. Agora é quase uma forma de terapia. Muitas noites, e antes de dormir, abro uma aba no telemóvel e entro num mundo onde nada me pertence. Mas onde tudo é julgável.

Não é inveja. Ou é, mas algo processada. O scroll é lento, cerimonial. Entro nas fotografias como se entrasse numa loja de roupa em que não encontramos etiquetas: já sei que isto não é para mim. O prazer está, pois, no juízo, não na posse. Ao contrário do que me disseram em miúdo, apontar o dedo não é nada muito feio. Ajuda-nos a viver com as próprias escolhas.

É, talvez seja isso. Julgar casas que nunca irei ter ajuda-me a fazer as pazes com a que tenho. Com a minha cozinha de oito metros quadrados, onde o micro-ondas fica a mais em toda a parte e acaba em cima do frigorífico. Com os tacos que me rangem e estão sempre frios. Porque depois de se ver uma moradia com o pé direito da Sagrada Família, com vista sobre para o Tejo e um “spa interior com luz zenital”, e reparar que as janelas são em PVC e que o corrimão da escada parece comprado — sem ofensa — na Loja Maria, sinto-me mais perto de casa. Da minha.

Há quem pratique desporto ao fim do dia. Eu pratico uma espécie de realismo imobiliário. É um exercício de modéstia, sem pinga de suor. Um treino de defesa emocional contra um mundo que insiste em pôr etiquetas de preço na ideia de felicidade. E não é que essas casas não sejam bonitas — são. São projetadas para seduzir. Mas têm aquela beleza que cansa. Que exige uma manutenção. Que implica ter de lidar com jardineiros, e sistemas de rega, e empresas de limpeza, e sensores de movimento e técnicos de AVAC.

Eu já não quero toda essa logística. Eu quero um lugar onde o silêncio não dependa de três painéis de isolamento acústico. Um lugar onde me lembre de onde estão as colheres sem precisar de abrir algumas quatro gavetas.

O meu guilty pleasure não é aspiracional. É pedagógico. Ensina-me a aceitar o que tenho. A desconfiar da perfeição. E, às vezes, a rir alto sozinho ao ver certa “master suite com lareira suspensa” decorada com quadros de budas fluorescentes.

No fundo, talvez seja uma forma de vingança contra um mercado que nos quer fazer crer que, sem 400 metros quadrados e uma escada helicoidal, ninguém é bem-sucedido, que isto está bom é para quem é nómada digital. Eu cá, do alto do meu T2, que ainda nem é bem meu, suburbano, sem closet nem ilha central, continuo a fazer scroll e a pensar: "esta casa não tem charme nenhum”. A minha tem livros ao menos.

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