PRAZERES CULPADOS || Raphael é nome de parentalidade questionável no Instituto dos Registos e do Notariado. Talvez. Mas um certo Raphael cantou certa canção que, tantos anos depois, acabou por servir, numa versão mais pop-melosa-melódica, de banda-sonora numa telenovela revanchista. Que nunca vi. Portanto, esta crónica será antes sobre o ridículo e a ternura
Se calhar esta não é bem a melhor altura para falar dos Anjos.
Há um julgamento em curso, um pedido de indemnização milionário, uma comediante que está no banco dos réus, os irmãos Rosado no papel de queixosos, e um país que tenta decidir o que é humor e o que é ofensa. Mas esta crónica não será sobre nada disso. Ou até é — mas de lado. Porque eu venho em paz. Para elogiar, até.
Portanto, irmãos Rosado: peço aqui que não processem mais ninguém, ou não a mim. Não sou humorista nem “radiologista”. Isto é só o meu guilty pleasure. Com memória, com afeição — e com a Patrícia ao volante. Entre outras coisas.
A cena é esta: um carro em andamento, calor, calor a sério, final de tarde. Évora, talvez? Ou só um algures alentejano. Tudo suficientemente veraneante para justificar óculos escuros até às nove da noite. A Patrícia lá conduz com aquele ar de quem sabe sempre para onde deverá ir — e se ela se engana, a culpa é minha, evidentemente. Começa a tocar uma canção que eu reconheço e não me reconheço ao mesmo tempo: “Eu sou aquele que vive aceso no teu mundo”. Olho de soslaio para ela. Já está a cantar. A cantar o refrão como se fosse um hino — não esse hino, não —, desafinada (ela diz que não) mas convicta. Eu ainda estou a processar. Não me rendo logo.
A canção é Eu Estou Aqui, versão portuguesa de um tema que representou Espanha na Eurovisão de 1966, dramatismo espanhol de peito aberto e mão ao peito interpretado por Raphael — com “ph”, como se fosse nome de perfume ou parentalidade questionável no Instituto dos Registos e do Notariado. Raphael foi dramático. Os Anjos pegaram nessa cançoneta e fizeram o que talvez façam melhor: um hino pop-meloso-melódico, com modulação vocal e os punhos cerrados. E isso, convenhamos, é um talento.
Nunca vi a novela Vingança, cuja banda sonora incluía esta preciosidade. Não sei quem se vinga de quem, nem porquê. Mas consigo imaginar uma câmara lenta, um plano em contraluz, talvez uma lágrima que corre, enquanto alguém diz “tu não me toques” — e depois se arrependeu imediatamente. Adiante. À Patrícia.
Ela nunca teve problemas com os seus próprios gostos. Gosta do que gosta com a convicção mais desarmante. Como velhas séries policiais medíocres em que se adivinha o assassino logo aos cinco minutos. E gosta dos Anjos. Sem ironia alguma, sem nota de rodapé. Aprendi com ela que há gostos que não têm de se explicar. Só assumir.
Mas isto não é sobre a Patrícia. É também sobre mim, claro. Sobre como demorei anos a admitir fragilidades absolutamente banais. Que até gosto do cheiro do protector solar numa toalha guardada de um verão para outro. Que isso me comove. Que me comovo com o que não devia não sei porquê. Que há frases de realities que me ficaram no goto sem nunca ter visto — todas de um tal Bruno Marvão —, como “eu treino todos os dias para entrar num octógono” ou “eu estou cansado, eu estou saturado, eu estou depressionado” — esta repetida pela Patrícia, com uma convicção concreta. E não há ali vergonha nenhuma — o que, paradoxalmente, até me envergonha ligeiramente. Porque eu sou o tipo que precisa de um parágrafo inteiro para justificar por que razão sabe toda a letra da balada dos Anjos.
Eu Estou Aqui não me emociona pela canção em si, mas porque me transporta para aquele verão instantâneo. Porque há canções que não nos salvam, mas que nos seguem. Como o som do Nokia 3310 a vibrar.
Mas falando dos meus guilty pleasures, a culpa do guilty pleasure é sempre dos outros. De imaginarmos deles a troça, a sobrancelha levantada, o riso contido ou não. Haverá quem goze comigo agora. Ou haverá até quem diga que isto é só e apenas um truque de ironia millennial — essa coisa de assumir um mau gosto, ou gosto mau, para se aparentar “interessante” no fim. Mas naquele carro naquele verão, com a Patrícia a “cantafunhar”, não havia espaço para culpabilização ou ruídos alheios. Só ela no volante e o volume que aqui só aumenta em múltiplos de quatro — não tenham vocês essa audácia de parar no 21. E eu a saborear um daqueles momentos que se sabe logo no dia que algum dia se revelam em crónica. Um momento kitsch, talvez. Mas absolutamente, e estranhamente, bom.
Eu Estou Aqui não é um statement. Não tenho essa pretensão. Nem uma provocação aos cantores. Não tenho essa pretensão. É só para mim um bilhete de volta a um instante com alguém de quem se gosta, onde dançávamos ao som do que nos bem apetecia, nem ridículos, nem sublimes. E não sei se é da idade, ou é do cansaço, mas cada vez tenho menos paciência para fingir que não gosto do que eu gosto. A vida já tem culpa suficiente para andarmos a moderar o entusiasmo. E se isto for culpa, pois que seja.
Obrigado, Patrícia. E obrigado, Rosados. Obrigado às baladas excessivas e às playlists que não admitimos em público. Por nos lembrarem que o que nos constrange também nos constrói. E que o ridículo, às vezes, é só uma espécie de ternura. Subo o volume para 24.