MUNDIAL 2026

Saiba tudo aqui
Mais sobre o Mundial 2026

O amor é ainda a maneira mais bonita de pedir porrada à vida

7 set 2025, 16:00
PRAZERES CULPADOS || amor-a-dias
Adicione a CNN como fonte preferidaSiga-nos no Google News ?Saiba mais

PRAZERES CULPADOS || Isto não é sobre o fim — é sobre a urgência de ir, todas as vezes. Há amores que não são feitos de prometer, de perdurar; são para já. E isso já nos basta. Ardem um pouco mais devagar como certos céus, certos dias

Era só mais um daqueles fins de tarde em que o céu parecia indeciso entre morrer logo ou incendiar-se.

Ocorrera-me perguntar-lhe, ir de alma toda perguntar o que já ensaiara, mas não se pode, mas não se deve, e a palavra a escapar como bicho vivo, impossível de agarrar, como se a fala ali se tivesse enfiado nos bolsos das calças, entre os dentes, entre a dúvida. A pergunta era coisa pequena, mas ainda pesada. E de tanto me tardar, quando enfim tomara coragem a noite já viera, o anoitecer já triunfara sobre quem dorme, como um lençol de chumbo, enorme por cima de tudo.

Era meia-noite, mas não meia-noite sobre mim, mas não meia-noite sobre ela. Agora sim, agora falo, agora isto vai. Escrevo muito, e emendo tanto, construo frases que se desmancham logo ao nascer, e uso da voz, para que me ouça, a tropeçar no atrevimento e a tropeçar no desconforto. Perguntar era uma urgência que se esmaga contra a garganta, ou sai ou sufoco. Vou inventando assuntos. Do outro lado ela ri-se, vibrante e sonora. Talvez me julgue um tonto embaraçado ou talvez me julgue um espirituoso tonto. Sou tudo isso e não sou nada. Vou desviando silêncios. Um dos silêncios é mais prolongado, atravessa-me como uma faca cega. Será que ainda ri?

Mas não era aquilo silêncio algum. Era o seu velho carro, máquina de aço a soluçar, a engasgar-se na estrada, temperamental, mas misericordioso. E ele a ir, e ela a rir-se. Ria com aquele riso de quem não sabe o que fazer às mãos, de quem não sabe o que fazer ao corpo. Disfarçava pessimamente o nervosismo partilhado, e nervosa acentua a pronúncia arredondada, e disse fala tu, diz alguma coisa tu, como se ela me antecipasse a pergunta, que pelos vistos já anunciara com a discrição de cães a ladrar em pátio vazio. E é com uma voz de cão engasgado possível que me sai a pergunta definitiva. Perguntei assim, assim distante, quase como quem deixa cair no chão um talher, quase como se fosse por acaso:

Jantamos?

Ouço-lhe um sim quase sussurrado, que quase não ouvia, quase tímido, quase bonito, como quem tira os seus sapatos devagar por debaixo da mesa ou do medo. E depois:

Domingo?

*

Não éramos domingo, ainda, mas domingo chegaria, como todas as coisas que esperamos avidamente, com as horas a correr, vem como se o tempo tivesse pressa. E jantámos, jantámos como se nós viéssemos de antes da infância, como se inventássemos ali a infância, ou de antes do mundo, como se o mundo tivesse começado naquele jantar demoradamente e desejosamente pedido. E falámos, falámos como quem remenda a vida às pressas antes que rebente outra costura, das coisas dos nossos dias e ainda mais das outras, as que se escondem por vergonha ou partilham por ternura. E a noite foi crescendo em volta como um casulo, uma promessa que não se quer e não se pode romper, até não haver mais vinho e, já dois náufragos, nos expulsarem do restaurante chinês da avenida, nada barato por certo, mas como um ventre quente onde nada nos dói.

Na rua já era de madrugada, que veio mansa como uma gata que se deita sobre os pés. No carro não cansámos as palavras, não calariam as horas as palavras nossas. E ali me ocorreu nova pergunta, que agora faço sem temor, que o vinho me embala sem o tremor de antes do jantar, que faço com a voz de miúdo apanhado a roubar da figueira, a escorregar tortamente por entre as sílabas:

Posso?

Ela só se riu, não como antes se rira, não elevada, não inquieta, antes um levantar de canto da boca que não era bem sorriso, que não era bem desdém, uma coisa miúda, um gesto secreto ou quase. E naquele instante percebi, como se alguma coisa se abrisse, uma ferida ou uma gaveta, que já sabia o que eu naquele instante falaria, antes de o dizer, antes sequer de pensar dizer. Respondeu que sim, não com palavras, mas com corpo, só com o corpo, a inclinar-se devagar, a respiração esquecida. E há uma atmosfera de outono suado a fechar-se sobre nós, perdidos e inteiros, um instante suspenso em que as noites não acabam, em que as noites se recusam a acabar, em que se promete:

Tenho de ir, mas não quero.

*

Há amores que vêm com prazos, como um iogurte grego, embora sem manual, como uma estante sueca. Sabemos que irão acabar, não por ausência de esforço, mas por excesso de realidade. E mesmo assim vamos, e tornamos a ir, ao arrepio do provisório, porque há qualquer coisa de viciozinho nisto de amar o que não dura para sempre: o encantamento do que se sabe falível, do que se sabe encanto. Os amores breves, conscientemente passageiros — e efemeridade não é fugacidade —, são para mim um guilty pleasure. Não porque falham, mas porque se escolhe viver neles sabendo que falham, sabendo que o fim não é acidente, mas é condição.

Permitam-me explicar-vos: o guilty pleasure não é o amor em si, mas o voltar a procurar, o voltar a permitir, sabendo que ficaremos sem chão, que este nos foge, sabendo que o amor se vai entregar a prazo. É amor-a-dias, não é um amor inteiro, às vezes nem íntegro, mas é um amor servido quente e servido rápido, feito de céu indeciso, de perguntas tropeçadas e de respostas trôpegas, de jantares marcados ao domingo como se fossem do mundo a primeira infância, como se essa entrega temporária fosse talvez mais verdadeira por ser consciente, como se uma certa brevidade, e urgência, aumentasse o valor da coisa que recebemos.

Há nisto tudo uma clandestinidade: a de nós sabermos que vamos sair e, ainda assim, abrir a porta. Há nisto tudo uma insaciabilidade: a de nós continuarmos por tão poucochinho, pelo menos no tempo, que tudo possa ser — e é. E é aqui que mora uma culpa doce dos amantes que não são de crer no para sempre.

Como escreveu Mário Cesariny:

nós só temos a ver
com o presente
perfeito
corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados maravilhosos únicos


É isso, Mário, pois é: nós somos só corsários. Pilhamos do tempo a hora, saqueamos do desfecho a emoção, vamos outra vez, sempre outra vez, sabendo que de domingo virá uma segunda-feira burocrática depois, mas vamos por haver um carro e um “posso?”, a meio caminho entre o corpo e o verbo. Porque, lá diz o Cesariny, certeiro e corsário:

nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso

Informação em todas as frentes, sem distrações? Navegue sem anúncios e aceda a benefícios exclusivos.
TORNE-SE PREMIUM

Opinião

Mais Opinião