Prazeres Culpados: a arte de deixar para amanhã o que posso fazer hoje

23 ago 2025, 16:00
Procrastinação procrastinar preguiça arrumações lida da casa Foto PeopleImagesi _ Stockphoto _ Getty Images

Prometi ao coordenador desta rubrica que tinha um texto pronto até dia 18 de julho. Acabo de o escrever à 1:30 de 9 de agosto. A piada faz-se sozinha

Há quem esconda chocolates no fundo da gaveta para resistir à tentação, quem veja reality shows com o volume no mínimo e longe de julgamentos alheios, quem se apaixone frequentemente por quem não deve. Mas este prazer culpado é mais subtil - e ao mesmo tempo mais perigoso: chama-se procrastinação. 

Sim, é um prazer. Não vale a pena tentar contrariar essa realidade. Há qualquer coisa profundamente sedutora naquele instante em que escolho, deliberadamente, não fazer o que tenho para fazer. Adio com convicção. Com uma caneca de chá preto ou de café solúvel na mão e uma playlist de "focus music" que nunca cumpre o propósito, entrego-me a esse limbo onde tudo parece cativante, exceto o que realmente importa. 

Podia começar aquele relatório, claro que podia. Mas primeiro tenho de reorganizar os separadores do browser. Não posso escrever com aquela aba do YouTube aberta há três dias com vídeos de gatinhos e teorias da conspiração. E já agora, se vou mesmo reorganizar, porque não limpar também o ambiente de trabalho? Aquela pasta "Novo Documento (3)" merece finalmente a atenção que lhe neguei. Entretanto, numa breve passagem pelo Instagram, o algoritmo atraiçoa-me com publicidades tentadoras: uns tampões xpto para os ouvidos, um seguro de saúde a preço de feira para o animal de estimação, uma máquina de depilação a laser portátil - chovem possibilidades e eu não uso chapéu de chuva.

Procrastinar é como entrar num spa mental: digo a mim própria que estou só a relaxar para a seguir produzir melhor, ou que é um "miminho" depois do sacrifício de escrever três linhas de texto, a meio de um bloqueio criativo. Alguns chamam-lhe "preguiça", eu chamo-lhe "respeitar os meus limites". Um autoengano com aroma a lavanda. "Agora não é o momento ideal", penso, acreditando genuinamente que esse momento vai chegar. Mas admitamos que há uma certa adrenalina em fazer tudo à última da hora, uma espécie de montanha-russa emocional sustentada pelo cortisol. Nunca ouviram ninguém dizer "trabalho melhor sob pressão"?

E há beleza nesta dança entre o dever e o desejo de não cumprir no exato momento. A procrastinação tem timing, tem método, tem disciplina na indisciplina. Estou obsessivamente atenta aos minutos que vão passando e sei exatamente quantos episódios daquela série pendente posso ver antes de o pânico se instalar.

"E será que compensa?", perguntam-me. Convenhamos, é tentador, mas verdadeiramente desgastante - ou não seria um 'prazer culpado'. Sei quando essa culpa começa a bater à porta, tímida, como quem pergunta: "Já chega?" E eu, com um suspiro dramático e um olhar para o relógio, respondo: "Agora sim. Agora é que vou começar". E começo. Com a frustração e o arrependimento de quem acabou de comer uma caixa inteira de gelado sozinha. Outras vezes, embora menos frequentes, com a energia de quem teve mil ideias geniais durante o adiamento. É um tiro no escuro.

Por isso, sim, o meu prazer culpado é procrastinar. Não o recomendo, mas também não o condeno. É um vício romântico, uma rebeldia silenciosa contra o tempo, uma relação tóxica, de amor-ódio. E enquanto escrevo esta crónica, adio outra coisa qualquer. E está tudo certo. Ou não. Mas logo penso nisso. 

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