Estas são as melhores praias do Brasil de que provavelmente nunca ouviu falar

CNN , Megan Frye
23 ago, 17:00
A deslumbrante faixa costeira do estado de São Paulo raramente figura nos roteiros dos viajantes internacionais, mas devia. Na imagem, a Praia de Itamambuca, em Ubatuba. (Gustavo Asciutti/iStockphoto/Getty Images)
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A área é vasta, mas basta explorar um pequeno trecho da costa para caminhar sob fetos gigantes de 18 metros de altura, mergulhar em cascatas, nadar em baías em forma de meia-lua e rios de água cristalina, ou admirar orquídeas resistentes que parecem saudar o sol da manhã

Muito para lá dos limites de uma das maiores metrópoles do planeta, estende-se uma faixa de floresta tropical milenar e de costa que permanece praticamente desconhecida para a maioria dos viajantes internacionais.

Os cerca de 600 quilómetros da faixa costeira montanhosa e bem preservada do estado de São Paulo encontram-se resguardados pela copa da Mata Atlântica — a segunda região com maior biodiversidade das Américas, apenas superada pela Amazónia.

A Grande São Paulo acolhe mais de 21 milhões de habitantes, com a mancha urbana alargada a ultrapassar os 30 milhões. No entanto, uma viagem de carro de duas a três horas a partir dessa megacidade conduz a cascatas imponentes, praias desertas e acolhedoras vilas de pescadores onde o ritmo diário continua a ser ditado pelas luas e pelas marés.

"Quem descobre estes lados costuma voltar", refere Adriano Camolez, guia na ilha de Ilhabela, localizada na região do Litoral Norte. O responsável cresceu na Baixada Santista, a cerca de 100 quilómetros a sul de Ilhabela em linha reta, e passou a vida a cruzar o canal em direção à ilha.

A paisagem ao longo do litoral paulista é tropical e exuberante e, durante a maior parte do ano, surpreendentemente pacífica. Fora das épocas festivas do Natal, Ano Novo, Páscoa ou das férias escolares de julho, é perfeitamente possível ter uma cascata ou uma praia inteira por sua conta. Os principais frequentadores são moradores da cidade de São Paulo em escapadinhas de fim de semana, surfistas em busca de ondas e um fluxo constante de observadores de aves atrativos pelas espécies raras e migratórias da região.

A área é vasta, mas basta explorar um pequeno trecho da costa para caminhar sob fetos gigantes de 18 metros de altura, mergulhar em cascatas, nadar em baías em forma de meia-lua e rios de água cristalina, ou admirar orquídeas resistentes que parecem saudar o sol da manhã.

Três Litorais, uma floresta

A faixa costeira do estado divide-se em três zonas distintas.

O Litoral Norte, que abrange os municípios de Ubatuba, Caraguatatuba, São Sebastião, Maresias e a ilha de Ilhabela — quase totalmente coberta por floresta tropical —, destaca-se pelo ponto em que a Serra do Mar desagua diretamente no oceano, revelando enseadas escondidas e uma cultura viva ligada ao surf.

Ilhabela acolhe este areais intocado. (Ildo Frazao/iStockphoto/Getty Images)

A Baixada Santista, a secção intermédia ancorada pela cidade portuária de Santos, é a área mais urbanizada, mantendo contudo recantos tranquilos, como a Praia do Tombo, no Guarujá, uma das zonas balneares mais próximas da cidade de São Paulo.

Mais a sul, o Litoral Sul, que inclui Iguape, Cananéia e Ilha Comprida, regista um afluência ainda menor do que o trecho norte e um ambiente bastante mais sereno do que o centro. Trata-se de uma paisagem dominada por mangais e estuários protegidos no âmbito da Área de Proteção Ambiental Cananéia-Iguape-Peruíbe.

Em conjunto, as três regiões albergam alguns dos fragmentos mais bem conservados da Mata Atlântica no Brasil. Isto deve-se, em grande medida, ao relevo acidentado que inviabilizou, desde a época colonial, as explorações agrícolas em grande escala — como os engenhos de açúcar e os cafezais que alteraram a geografia do resto do país. O terreno revelou-se demasiado complexo para a desflorestação agrícola ou para a expansão urbana que consumiu o interior paulista.

A floresta que tudo sustenta

A grandiosidade destas praias secretas depende intrinsecamente da Mata Atlântica, o bioma que no passado cobria quase toda a costa brasileira e que hoje sobrevive em núcleos dispersos que representam cerca de 7% da sua área original. O estado de São Paulo protege cerca de metade da sua área remanescente sob diferentes estatutos de conservação, uma percentagem significativamente superior à da maioria dos restantes estados brasileiros.

O ecossistema resistente continua a apresentar uma riqueza extraordinária: os cientistas catalogaram mais de 20 mil espécies de plantas, das quais perto de 8 mil não existem em mais nenhum ponto do planeta. Numa única parcela de um hectare no sul do estado da Bahia, os investigadores chegaram a identificar mais de 450 espécies de árvores distintas.

A Mata Atlântica cobria no passado quase a totalidade do litoral brasileiro. Atualmente, estende-se por apenas cerca de 7% da sua área original. O estado de São Paulo protege perto de 47% da floresta remanescente sob diferentes estatutos de conservação. (FG Trade/E+/Getty Images)

A floresta serve também de habitat a centenas de espécies de aves, anfíbios, mamíferos e peixes endémicos. As organizações ambientais classificam-na como um dos pontos críticos de biodiversidade mais importantes do mundo.

Percorrer os trilhos da região é um privilégio para os amantes da natureza: a copa das árvores abriga tucanos, tanagras coloridas e aves de rapina. Já os micos-leões-dourados, pequenos primatas de tom acastanhado, e várias espécies de beija-flores continuam a ser avistamentos valiosos para quem caminha sem pressa.

No mar, as águas acolhem golfinhos, baleias em migração, tartarugas-marinhas, raias e aves marinhas, fazendo do Litoral Norte um dos locais mais fiáveis do país para a observação da fauna marinha sem necessidade de organizar expedições especializadas.

Ilhabela: entre a mata e o mar

No coração do Litoral Norte situa-se Ilhabela, um município insular onde mais de 300 cascatas rasgam a vegetação maioritariamente protegida. Algumas quedas de água são acessíveis através de pequenas caminhadas, enquanto outras exigem percursos mais exigentes.

A ilha é igualmente reconhecida como a capital da vela no Brasil, acolhendo anualmente algumas das maiores regatas da América Latina. O acesso a Ilhabela faz-se por embarcação privada, táxi marítimo ou através do ferry gratuito com partida de São Sebastião.

Adriano Camolez, responsável pela agência Buenaventura Turismo, efetua essa travessia quase diariamente.

"Cresci ao lado da ilha, deixando um pouco da minha história em cada praia e em cada cascata", conta o profissional. Camolez é caiçara, denominação dada aos povoadores tradicionais do litoral de São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná, resultantes da miscigenação entre populações indígenas, portuguesas e africanas, com uma identidade marcada pela ligação ao mar e pela transmissão de conhecimentos geracionais.

A Praia do Bonete, na extremidade sul da ilha de Ilhabela, destaca-se pela sua riqueza natural. À noite, o céu límpido oferece as condições ideais para a observação de estrelas. (Larissa Neves/Alamy Stock Photo)

A Praia do Bonete, na extremidade sul de Ilhabela, é acessível através de um trilho de cinco horas ou por uma viagem de barco de uma hora em mar aberto, manobrado com mestria pelos marinheiros caiçaras. O local é famoso entre os apreciadores de astronomia devido à ausência total de poluição luminosa. A pequena povoação conta apenas com 300 residentes e algumas albergarias com redes de descanso. A comunidade é alimentada exclusivamente a energia solar e destaca-se por um projeto comunitário de jiu-jitsu, o Dojo Bonete.

A história de Ilhabela guarda também episódios complexos, recorda Camolez. A realeza portuguesa, incluindo o rei D. João VI, passou pela ilha durante o período imperial. Ilhabela acolheu igualmente dois dos últimos portos clandestinos de tráfico de pessoas escravizadas no Brasil, na Praia da Fome (acessível apenas por barco) e na Praia de Castelhanos (acessível por mar, por trilho ou em veículos todo-o-terreno), ambos desativados apenas após a abolição da escravatura, em 1888.

Perto da costa, o naufrágio do Príncipe das Astúrias, um transatlântico de luxo que afundou em menos de três minutos em 1916, atrai mergulhadores ao local onde mais de 500 pessoas perderam a vida. O navio é apenas um dos pontos de interesse no local apelidado pelas escolas de mergulho como a capital dos naufrágios do país.

A pequena Ilha das Cabras situa-se no meio do canal, entre São Sebastião e a ilha de Ilhabela. (Pedro Turrini/iStockphoto/Getty Images)

A pequena Ilha das Cabras, situada a meio do canal entre São Sebastião e Ilhabela, oferece dezenas de pontos de imersão. Vão desde as águas rasas e calmas junto à ilha — um mergulho acessível repleto de corais, esponjas e tartarugas — até zonas mais profundas e técnicas, onde se encontram os destroços dos cargueiros Aymoré e Velásquez, hoje completamente integrados na vida marinha.

Quem se aventura em mar aberto em redor do arquipélago de Alcatrazes, em São Sebastião, encontra excelentes condições para observar espécies pelágicas, enquanto os pontos mais abrigados perto das ilhas de Ubatuba são procurados para batismos de mergulho.

Praias de exceção e o Trilho das Sete Praias

Ao longo do litoral paulista encontram-se praias que raras vezes figuram nos roteiros internacionais.

É o caso da Praia Brava do Camburi, cujo acesso se faz exclusivamente por trilho, perto da fronteira com o estado do Rio de Janeiro. A cerca de meia hora de carro fica Itamambuca, junto a Ubatuba, conotada como uma das zonas de ondulação mais consistentes dos quase 8 mil quilómetros de costa brasileira.

Um surfista caminha ao pôr do sol na Praia de Itamambuca, reconhecida pelas suas ondas constantes ao longo dos quase 8.000 quilómetros de costa brasileira. (Alex Saberi/Photodisc/Getty Images)

A forma mais prática de conhecer esta faixa costeira numa só jornada é percorrer o Trilho das Sete Praias, perto de Ubatuba, no Litoral Norte. O percurso de cerca de dez quilómetros liga sete praias de areia clara, subindo e descendo perto de 600 metros de desnível acumulado num terreno considerado exigente, com passagens estreitas e escorregadias que requerem calçado adequado.

Caminhantes experientes podem realizar o percurso de forma autónoma. O tempo estimado de travessia situa-se entre as cinco e as seis horas a um ritmo constante, podendo estender-se até às sete ou oito horas para grupos mais lentos ou que optem por nadar em cada paragem.

Vista a partir do Trilho das Sete Praias destaca a vegetação exuberante da Mata Atlântica. (Leoaraujo7/iStockphoto/Getty Images)

Entre os vários pontos de interesse, destaca-se o miradouro sobre a Praia do Cedro, onde as piscinas naturais de água transparente convidam à prática de mergulho livre. A maioria dos visitantes faz o caminho de ida e volta a pé, embora seja possível assegurar o regresso de barco. Os meses mais frescos e secos, de maio a agosto, constituem o período ideal para realizar a caminhada.

A cerca de três horas de viagem para sul, a partir de Ubatuba, situa-se Maresias, perto de São Sebastião, conhecida pela sua cultura ligada ao surf. A Praia do Tombo, no Guarujá, fica a pouco mais de duas horas de distância nessa mesma direção.

Para lá do Guarujá, no extremo sul, as montanhas afastam-se ligeiramente da linha de água, dando lugar a pequenas localidades onde a prática do surf é generalizada. Os visitantes reúnem-se no areal em Peruíbe para observar o nascer da lua cheia ou exploram as comunidades isoladas em redor da Praia do Guaraú, as dunas de Juruvaúva e a Praia do Marujá, na Ilha do Cardoso, onde a floresta tropical dá lugar a estuários de mangal e praias desertas.

Ondas e herança ancestral

A prática do surf chegou a esta costa no final da década de 60, quando uma família na Praia do Tenório importou uma das primeiras pranchas para a região. Nos anos 70, Ubatuba acolhia já os primeiros festivais nacionais da modalidade.

A localidade mantém desde então o estatuto de capital do surf no país, beneficiando da forma como a ilha de Ilhabela recorta a ondulação ao largo.

Ubatuba ostenta o título de capital do surf no Brasil há várias décadas, com a qualidade das suas ondas a ser influenciada pela forma como a ilha de Ilhabela recorta a ondulação ao largo. (Alex Saberi/Photodisc/Getty Images)

No interior, nas colinas por trás destas praias, localizam-se alguns dos quilombos do estado — comunidades fundadas por pessoas escravizadas que fugiram e estabeleceram povoações livres, muitas das quais persistem desde antes da abolição.

Apenas no município de Ubatuba existem quatro comunidades quilombolas reconhecidas, incluindo Caçandoca e Camburi. Mais a sul, no interior da floresta do Vale do Ribeira, um coletivo formal acolhe visitantes em comunidades como Ivaporunduva, onde é possível pernoitar, provar a gastronomia local e conhecer a história de resistência da região.

À mesa no litoral

O peixe que chega às mesas caiçaras sai diretamente das embarcações ao início da manhã: a tainha, apreciada sobretudo durante a pesca de inverno quando comunidades inteiras se mobilizam para a apanha; a garoupa; o cação (geralmente panado ou ensopado); o robalo e a pescada.

O prato emblemático do Litoral Norte é o peixe azul-marinho — peixe fresco, frequentemente garoupa ou cação, cozinhado com banana-verde num caldo que adquire uma tonalidade azul escura durante a confeção. É servido com arroz branco e pirão feito a partir do próprio caldo. As caldeiradas, que combinam diferentes variedades da pesca do dia, são igualmente habituais na restauração local.

A jabuticaba é um fruto semelhante à uva que cresce diretamente no tronco da árvore. (IltonRogerio/iStockphoto/Getty Images)

A floresta oferece também os seus próprios sabores. Os quintais e as orlas da vegetação produzem frutos raros fora dos mercados locais: a jabuticaba, que cresce diretamente no tronco da árvore; a pitanga, de sabor acidulado, utilizada em sumos e gelados; o araçá e a uvaia, de notas cítricas e florais; e a guabiroba.

As pequenas geladarias da região transformam estas frutas em sobremesas artesanais, frequentemente servidas ao lado do açaí com granola e banana.

Como chegar e onde ficar

Existem ligações de autocarro a partir de São Paulo e do Rio de Janeiro, mas a opção mais flexível passa pela utilização de plataformas de boleias partilhadas como a BlaBlaCar. No entanto, o aluguer de carro oferece maior autonomia para explorar os troços mais isolados.

Independentemente do transporte escolhido, convém ter em conta que a estrada costeira é estreita e ladeada por vertentes íngremes, com curvas apertadas que exigem atenção redobrada, sobretudo após a chuva. É igualmente recomendável acautelar a presença de borrachudos em Ilhabela e nas proximidades — pequenos insetos cuja picada causa algum desconforto e que motivaram a criação de um repelente local muito popular na região, o Citroilha.

Surfistas enfrentam as ondas durante uma prova local na Praia de Maresias, em São Sebastião, em novembro de 2021. (Andre Penner/AP)

A oferta de alojamento adapta-se a diferentes orçamentos. O Davila Hostel, em Ilhabela, é procurado por um público jovem e por quem viaja sozinho. O Canto Bravo, alimentado a energia solar e situado na Praia do Bonete, oferece uma estadia simples num ambiente isolado.

A Pousada Pitaya, em Maresias, acolhe a comunidade do surf, dispondo de redes nas varandas com vista para as montanhas a norte. Para uma experiência mais requintada, a Pousada Picinguaba, numa antiga vila de pescadores perto de Ubatuba, figura entre os pequenos hotéis de referência da região.

O Tombo Beach Hostel, no Guarujá, perto de Santos, serve os viajantes que procuram uma opção económica mais próxima da mancha urbana.

Mais a sul, perto da Ilha do Cardoso e de Guaraú, a Pousada Villa dos Golfinhos oferece uma base confortável com acesso direto aos embarcadouros para a ilha, onde residem apenas cerca de 500 habitantes.

Estes areais preservados continuam a ser um dos roteiros de estrada mais populares para quem parte de São Paulo, fazendo as memórias de muitos citadinos que ali passam as férias. No entanto, a presença de turismo internacional permanece reduzida e o domínio da língua inglesa é raro na região.

Embora a receção dos caiçaras seja calorosa, existe um forte sentimento de identidade local. A permanência é bem-vinda, mas exige adaptação: ao sotaque característico, à proximidade das comunidades, ao ritmo das marés e às curvas da estrada.

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