Parece que estamos a atravessar um “tempo das vacas gordas”. Sabemos é que as vacas, pelo menos as da economia, tendem a emagrecer rapidamente. E se não nos prepararmos para o embate, enchendo os nossos porquinhos mealheiros, talvez fique ainda mais difícil apertar o cinto quando a crise regressar
“É o momento de todos os agentes económicos – empresas, famílias, Estado – constituírem poupanças”. Talvez este aviso recente de Mário Centeno, governador do Banco de Portugal, lhe tenha passado ao lado.
Mas será que existem campainhas de alerta e sinais de risco por detrás do discurso do ex-ministro, que já foi considerado o “Ronaldo das Finanças”? Devíamos estar a poupar? Os especialistas dizem que sim, embora não pareça haver motivos para grandes preocupações. Trata-se, sobretudo, de preparar o futuro.
“Vi essas declarações como uma constatação de que estamos a viver no tempo das vacas gordas. Agora é o tempo de aproveitar e de poupar”, disse à CNN Portugal Ricardo Evangelista, analista da ActivTrades.
Por “tempo das vacas gordas” entende-se o retrato feito pelo próprio governador do Banco de Portugal, Mário Centeno: emprego e salários a aumentar em Portugal, descida da inflação, descida das taxas de juro. O problema é que as vacas também emagrecem, às vezes mais rápido do que se imagina.
“A economia funciona por ciclos. Acabámos de sair de um ciclo inflacionário, que causou uma redução do poder de compra das famílias. É expectável que, com a inflação mais controlada e as taxas de juro a descer, que as pessoas comecem a sentir um alívio, por exemplo nos créditos. O que não podem fazer é acabar a gastar de outra forma”, descreve o especialista em poupança Sérgio Cardoso.
O também administrador da Academia Doutor Finanças lembra aquilo a que se chama “inflação do estilo de vida”. Todos temos um amigo que ganha mais do que nós, mas que está sempre a queixar-se de que não tem dinheiro para nada. É isso mesmo: quando ganhamos mais, tendemos a gastar mais. “É perigoso, porque nos habituamos a um determinado estilo de vida e é difícil voltar para trás”, diz. Ou seja, torna-se mais difícil apertar o cinto quando a isso somos obrigados.
A crise inflacionista pode repetir-se. E “se não amealharmos numa fase com maior rendimento disponível”, fica mais difícil responder-lhe. Da última vez, por incrível que pareça, a pandemia ajudou: o dinheiro guardado durante os confinamentos ajudou muitas famílias a responder à escalada nos preços. O problema, agora, é que não temos poupanças dessas.
Como poupar quando resta mês no fim do salário
Se o orçamento aí em casa não estica, não se preocupe: não é o único com essa consciência de que é difícil poupar. “Não podemos poupar o que não temos. Os nossos salários não nos permitem satisfazer todas as necessidades da vida contemporânea”, concorda João Rodrigues dos Santos, economista e professor associado da Universidade Europeia, lembrando que o salário mínimo em Portugal é digno desse nome e que o salário médio para lá caminha.
Mas mesmo quando sobre mês no final do salário, será possível poupar? Sérgio Cardoso acredita que sim. “A primeira forma para pouparmos é sabermos onde gastamos o dinheiro”. Às vezes, há gastos de que não tínhamos consciência e que é possível reduzir. Já quando a vida está “de tal maneira organizada que é difícil encontrar onde poupar”, a solução “passa pela ótica da receita”. Por exemplo, através de um emprego a tempo parcial ou pondo a render um gosto ou paixão.
Aviso com segundas intenções?
Embora o apelo à poupança seja sempre bem-vindo, há quem tenha visto nas palavras de Mário Centeno “um recado” sobretudo para o Estado. É o caso do economista e analista de mercados Filipe Garcia. “Até porque temos estado num contexto muito benéfico para as contas públicas”, diz.
É como se Centeno quisesse vincar a importância do legado de excedentes socialistas. E, ao mesmo tempo, diz João Rodrigues dos Santos, posicionar-se como possível candidato presidencial. “Estamos próximos da pré-campanha para as presidenciais. É preciso deixar esta mensagem subliminar sobre o legado do anterior Governo”.
O economista concretiza mesmo que um dos problemas para o futuro é o da sustentabilidade da segurança social: “Daí o conselho de poupança para a administração pública, para que não seja usado o excedente em despesa corrente”.
Da parte das famílias, os sinais poderiam parecer contraditórios. Os níveis de poupança estão a subir, mas também o recurso ao crédito. Como se explica isso? “Temos assimetrias nos rendimentos. As famílias com mais rendimentos, com os juros associados aos depósitos, sentem-se mais tentadas a poupar. É também natural que, com as taxas de juro a baixar, as pessoas se sintam menos receosas quanto ao futuro e recorram ao crédito”, simplifica João Rodrigues dos Santos.
Portugal não gera preocupação, o mundo sim
Quando há problemas, sabemos quem responde: os mercados. Mas haverá sinais de que as coisas podem dar para o torto em Portugal? “Não, o mercado não está nada preocupado”, assegura Filipe Garcia. “É curioso, até porque, mesmo num cenário de incerteza orçamental, a perceção de risco sobre a capacidade de o Estado cumprir as suas obrigações tem vindo a baixar. Há 15 anos que não estava tão baixa”, argumenta.
“Para Portugal, não se vislumbra nenhuma nuvem negra”, reitera Ricardo Evangelista. Para os mercados, diz, é a perspetiva de excedente que mais importa.
Apesar deste contexto positivo, Portugal não vive sozinho no mundo. E há vários fatores que podem acelerar o fim deste ciclo, concordam os especialistas ouvidos pela CNN Portugal: a confirmação de uma recessão na Alemanha, os crescimentos tímidos das outras economias europeias, uma vitória de Donald Trump e da sua política protecionista nos Estados Unidos da América, o escalar da tensão no Médio Oriente e o impacto no preço do petróleo.
