Dicas para poupar gás, eletricidade e água. "Pequenos grandes gestos" que o ajudam a salvar o ambiente e a carteira

8 ago, 07:00
Gás (Photo by Frank Rumpenhorst/picture alliance via Getty Images)

A CNN Portugal falou com associações ambientais e reuniu uma série de medidas fáceis de implementar na sua rotina, da cozinha aos transportes. E já agora: se estas medidas são tão simples, porque é que nem todos as aplicam?

Várias normas de redução de consumo energético foram aprovadas na última semana na União Europeia, como forma de combater a dependência face à Rússia. Portugal não é exceção: prevê-se a adoção de medidas obrigatórias para uma redução do uso de energia em pelo menos 7%, nomeadamente em edifícios públicos e superfícies comerciais. O papel da ação individual não deve, porém, ser desvalorizado: "os pequenos gestos do dia-a-dia são extremamente importantes", alerta Rute Candeias, da Associação Portuguesa de Educação Ambiental (ASPEA). 

Islene Façanha, da Associação Zero, realça que a implementação de medidas de eficiência energética deve vir aliada à "alteração de comportamentos" e à adoção de "pequenos grandes gestos" que contribuam para a mudança sem "comprometer as atividades diárias". E isto não se aplica apenas à energia: também a água enfrenta um período de escassez preocupante, com uma situação de seca prolongada desde o início do ano, exigindo respostas imediatas. 

Em resposta à urgência destas questões, "hoje mais importantes do que nunca", as ambientalistas da Zero e da ASPEA partilham com a CNN Portugal um conjunto de medidas simples e acessíveis que possibilitam que os consumidores evitem o desperdício e reduzam os valores nas faturas sem alterar o seu estilo de vida. As principais dicas estão reunidas nas alíneas seguintes, bem como outras recomendações de organizações como a DECO e a EPAL:

Gás: como poupar

  • Quando estiver a cozer ou a assar algo no forno, evite abrir a porta muitas vezes. Caso contrário, perde cerca de 25% do calor e necessita de gastar mais energia para voltar a aquecê-lo; 
  • quando cozinhar num fogão a gás, deve utilizar um bico adequado ao tamanho do tacho. Um bico pequeno para uma panela grande vai fazer com que gaste mais gás;
  • quando cozinhar, coloque sempre as tampas nos tachos, isso conserva mais calor e faz com que o conteúdo ferva mais depressa; 
  • tenha em atenção a quantidade de água que utiliza para cozer ovos ou legumes. Tente utilizar apenas a água necessária, pois quanto mais água colocar, mais tempo ela demora a ferver e, consequentemente, mais gás gasta;
  • sempre que a água, ou qualquer outro líquido que tenha na panela, começar a ferver, pode reduzir a chama; 
  • um uso mais frequente da panela de pressão vai permitir uma poupança que pode ir até aos 15%;
  • no que toca ao esquentador, independentemente de ser inteligente ou manual, tente regular e diminuir a temperatura. Muitas pessoas utilizam sempre a mesma temperatura tanto de verão como de inverno, o que gera um gasto de gás desnecessário;
  • prefira os duches rápidos. Se fizer questão de tomar banhos demorados, opte pelos banhos de imersão - vai acabar por gastar menos água e consequentemente menos gás. 

Eletricidade: como reduzir a fatura

  • Compare o preço da energia no mercado (pode usar esta ferramenta online disponibilizada pela DECO);
  • aposte em lâmpadas LED. Apesar de o custo de aquisição ser superior às lâmpadas tradicionais, valem o investimento, pois o consumo de luz pode diminuir cerca de 80%;
  • evite deixar a luz ligada em áreas da casa onde não esteja ninguém;
  • se não for necessário usar água muito quente na lavagem da roupa, opte por temperaturas entre os 30ºC e 40ºC, em vez dos 60ºC, para poupar até 55% de energia; 
  • no Verão, troque o ar condicionado por uma ventoinha de teto, de janela ou de pé para poupar cerca de 10% na fatura da eletricidade;
  • regule a temperatura do frigorífico (o eletrodoméstico que mais consome energia) para o intervalo entre os 3ºC e os 7ºC, evite a acumulação de gelo no caso dos combinados e arcas frigoríficas e assegure-se de que a parte traseira está numa zona ventilada e livre de pós;
  • planeie as refeições do dia seguinte e passe os alimentos do congelador para o frigorífico. Desta forma, estes alimentos estarão a arrefecer o frigorífico, reduzindo o consumo diário do equipamento em 2%; 
  • evite abrir o frigorífico com muita frequência. Cada vez que se abre a porta durante dez segundos, aumenta-se o consumo energético. Para cada refeição, tente retirar todos os alimentos de uma só vez;
  • não coloque alimentos ainda quentes ou mornos no frigorífico - caso contrário, o eletrodoméstico terá de consumir mais energia para os arrefecer de forma eficaz; 
  • o computador é menos inocente do que se pensa. Recomenda-se reduzir a luminosidade do ecrã, desligar todos os periféricos como impressoras, microfones, altifalantes, colunas, webcams, joysticks, entre outros. Evite, também, o modo de suspensão sempre que não estiver a utilizar o computador, pois este continua a consumir energia. Opte sempre por desligar o equipamento; 
  • desligue os equipamentos das tomadas sempre que não for necessário, de forma a evitar o standby, que também gasta energia. 

Água: reduzir o desperdício

  • Aproveite a capacidade total da máquina de lavar roupa e lavar loiça, de forma a evitar o desperdício de água;
  • segundo a EPAL, uma torneira aberta 1 minuto pode desperdiçar 12 litros de água. Verifique sempre se fechou as torneiras e se continuam a cair gotas;
  • opte por duches rápidos e feche a torneira enquanto se ensaboa. Um duche de 5 minutos sempre com a torneira aberta gasta até 60 litros de água, mas com a torneira fechada enquanto se ensaboa pode consumir apenas 24 litros;
  • feche a torneira enquanto lava os dentes. Uma torneira aberta pode despender 36 litros, e uma fechada durante a lavagem apenas 0,3 litros;
  • ajuste o autoclismo para o volume de descarga mínimo e e evite descargas desnecessárias. Um autoclismo desvedado pode desperdiçar cerca de 200 mil litros de água por ano; 
  • aproveite a água usada na lavagem dos legumes e da fruta para regar as plantas de interior.

E ainda... 

  • Opte por transportes públicos em vez de privados, ou pela deslocação a pé ou de bicicleta em trajetos mais curtos; 
  • caso seja necessário viajar de transporte privado, procure manter uma velocidade estável e constante. Uma condução intensa com acelerações e travagens sucessivas consome mais combustível;
  • se viável, invista em energias renováveis, como painéis solares;
  • se não for possível reduzir a produção de lixo, a reciclagem permite a poupança de recursos naturais. Reciclar uma simples garrafa de vidro, por exemplo, evita a recolha desnecessária de areia para a transformar em vidro e emite menos dióxido de carbono, gasta menos água e poupa os recursos naturais. 

Os pequenos gestos do dia-a-dia são importantes e fáceis de aplicar. Então, porquê tanta resistência? 

Rute Candeias não hesita em nomear o principal fator: "o comodismo". As medidas acima enunciadas são simples e não implicam mudanças significativas no quotidiano, mas poderão exigir um desvio do "conforto" a que estamos acostumados.

"É muito mais fácil, por vezes, ir pelo caminho menos amigo do ambiente", lamenta a ambientalista, em conversa telefónica com a CNN Portugal. "Estar no conforto do nosso carro em vez de andar de transportes públicos, ou comprar um saco porque não nos apetece transportar as coisas na mão ou trazer um saco de casa" são disso exemplos. 

A poupança de recursos e energia, quer por motivos ambientais ou económicos (ou ambos), parte sempre de uma premissa imutável: redução. Numa sociedade de consumo, bombardeada com anúncios que convidam ao excesso, à aquisição, à acumulação - e de qual é exemplo o fenómeno da fast fashion - pode ser pouco tentador enveredar por escolhas mais minimalistas. 

Muito frequentemente, são as crianças que agem como educadoras e ensinam os pais a adotar hábitos mais sustentáveis e energeticamente eficientes. Rute Candeias é educadora ambiental há mais de 20 anos, e reconhece que é nas faixas etárias baixas que ocorrem as mais intensivas - e também bem-sucedidas - campanhas de sensibilização, sobretudo no âmbito escolar. "As crianças em idade tenra aderem muito a estas coisas, interiorizam esta situação de crise e são bastante lúcidas sobre o que tem de ser feito. São elas que sensibilizam as famílias e os pais lá em casa". 

Alguns destes pequenos ambientalistas vêm a tornar-se adultos "bastante dedicados a estas questões", outros "retrocedem". A receção da família ao interesse dos mais jovens pode determinar a motivação ou, pelo contrário, o desânimo: se os pais não acolherem e incorporarem as medidas na rotina doméstica, as crianças "cansam-se de ouvir uma coisa na escola mas não ter apoio em casa, e acabam por desistir".

Por outro lado, "do sexto ano de escolaridade para cima" verifica-se um maior desinteresse por esta temática. As campanhas de sensibilização, mais orientadas para o 1º ciclo, tornam-se menos frequentes nos anos seguintes e "a mensagem vai-se perdendo". "Temos tentado combater isso com ações no ensino secundário, mas há poucas entidades a trabalhar com esta faixa etária", diz.

Em alguns jovens, é a mera entrada para os anos de adolescência que acaba por "corrompê-los". É um período crítico, pautado por "consumismo, moda, marketing", mas também uma forte necessidade de manifestar rebeldia e provar "que são donos da sua vida". Deixam de cumprir as medidas que tinham aprendido na infância (e às quais se mostravam tão sensíveis) para optar por um estilo de vida mais centrado na satisfação imediata. Por outras palavras: "não estão para ter chatices". 

"É difícil mudar hábitos, mas torna-se mais fácil se houver consciência". O problema, aponta a educadora ambiental, é que "a mensagem não é passada".

Como contornar estas dificuldades e permitir que miúdos e graúdos se consciencializem da importância da ação climática e eficiência energética, sobretudo no contexto atual?

A sua resposta é simples: sensibilizar, sensibilizar, sensibilizar. "Nos canais principais, em horário nobre, deveria haver mais campanhas a alertar para estas situações, porque seriam vistas por muita gente", propõe. No cenário atual, "só os canais mais direcionados para esse conteúdo passam documentários" e, quanto aos generalistas, apenas se debruçam sobre o assunto quando se prevêem pesadas consequências económicas. "Não é suficiente", frisa Rute Candeias, que apela a medidas estruturais, e não temporárias. 

Há ainda outra possível justificação para a resistência: as consequências ainda não se materializam totalmente perante os nossos olhos. "Até agora, parece ficção científica. Só quando as pessoas se depararem com lixo no prato" ou abrirem a torneira e escassear água, acredita a ambientalista, é que "começam a abrir os olhos" e a compreender a necessidade de ação.

Num inverno que se afigura rigoroso na gestão e fatura energéticas, as consequências poderão vir a refletir-se de forma significativa na carteira dos consumidores. O lado positivo? Talvez comecem, "finalmente", a "tomar consciência" e a optar por hábitos mais sustentáveis. 

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