Exclusivo. O calvário dos oito portugueses detidos na Venezuela

20 jan, 21:20

Imagens exclusivas mostram a violência da detenção de Jaime Macedo, preso por ser padrinho da ativista política anti-Maduro Ana Karina, refugiada na Colômbia há oito anos. Governo português diz-se empenhado, mas nenhum cidadão foi libertado, ao contrário do que aconteceu com nacionais de Espanha e Itália

Há oito cidadãos portugueses detidos na Venezuela em casos de natureza política e, apesar de países como Espanha e Itália terem conseguido a libertação de alguns dos seus nacionais, nenhum português foi até agora libertado, numa altura em que cresce a pressão para reforçar a intervenção diplomática.

O Exclusivo da TVI (do mesmo grupo da CNN Portugal) teve acesso a imagens exclusivas da detenção de Jaime Macedo, ocorrida em julho de 2025, na Venezuela. O vídeo mostra o momento em que o cidadão português é intercetado pela polícia, numa operação que envolveu vários órgãos de segurança do Estado, sem que houvesse um simples mandado de detenção.

Segundo apurou o Exclusivo, Jaime Macedo foi detido exclusivamente por ser padrinho de uma ativista opositora ao regime venezuelano. Carlos Fernandes, deputado do PSD eleito pela Madeira, confirma que a detenção não teve qualquer base judicial conhecida.

“Foi detido porque é familiar de uma ativista”, afirma o deputado, que descreve a operação como invulgar pela dimensão e número de forças envolvidas.

A ativista em causa é Ana Karina Garcia, afilhada de Jaime Macedo, atualmente exilada na Colômbia. Em entrevista exclusiva, Ana Karina garante ao Exclusivo que a prisão do padrinho foi uma decisão política destinada a atingi-la diretamente.

“Isto é uma decisão política. O Jaime só está preso por ser meu padrinho e pela relação familiar comigo”, afirma, explicando: “Fui ativista política durante muitos anos na Venezuela e tive de me exilar em 2018 por perseguição.”

Sem advogado, julgamento ou cuidados médicos, Ana Karina Garcia denuncia ainda as condições de detenção de Jaime Macedo, alegando que o cidadão português não tem acesso a advogado, julgamento nem cuidados médicos adequados.

“Ele está numa prisão sem condições reais. Dormem em camas de cimento. Não tem acesso a consultas médicas, apesar de já termos pedido”, relata.

A situação familiar é igualmente delicada. A mulher de Jaime Macedo não pode visitá-lo por ter uma ordem de captura, o que colocaria em risco a sua liberdade caso regressasse à Venezuela. A mãe e os filhos conseguem, ainda assim, visitá-lo.

Sete anos sem ver o pai

Entre os detidos encontra-se também Juan Francisco Rodriguez, preso em Caracas desde 2019 e condenado a 30 anos de prisão. As filhas, Maria Alejandra e Ana Cristina Rodriguez, vivem atualmente em Portugal e descrevem o impacto emocional de quase sete anos sem contacto direto com o pai.

“Tem sido muito duro não saber como ele está”, confessam, entre lágrimas.

Com os recentes desenvolvimentos políticos na Venezuela, as filhas admitem sentir esperança.c“Sentimo-nos mais perto do que nunca de o poder abraçar”, dizem.

Outro caso é o de Fernando Venâncio, agricultor detido a 4 de agosto de 2024, após recusar-se a aceitar a expropriação das suas terras. O filho, também Fernando, denuncia a falta de transparência do processo judicial.

“É muito difícil aceder ao caso. Os advogados públicos evitam a família. Sabemos mais falando com funcionários da esquadra do que por vias oficiais”, explica.

A situação é agravada pelo estado de saúde do detido, que foi submetido a uma cirurgia delicada para remoção de um tumor intestinal e necessita de cuidados médicos regulares.

Governo português diz manter contactos

Questionado pela CNN Portugal, o Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) garante que mantém contacto regular com as famílias dos cidadãos portugueses detidos.

“O Embaixador de Portugal em Caracas tem vindo a intervir, ao mais alto nível, apelando à libertação dos presos políticos luso-venezuelanos”, afirma o MNE.

Apesar disso, famílias e ativistas consideram os esforços insuficientes e apontam como exemplo os governos de Espanha e Itália, que já conseguiram libertar cidadãos com dupla nacionalidade.

“O Governo português tem de fazer mais. Trata-se de reunir famílias que estão separadas há anos”, sublinha Ana Karina Garcia.

Enquanto isso, oito famílias portuguesas continuam à espera. Vivem entre o medo, a incerteza e a esperança de voltar a ver os familiares em liberdade.

País

Mais País