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Carlos Ceia ataca excesso de facilidade dos exames nacionais: “Tem sido um descalabro de ano para ano”

17 jun, 17:48
Carlos Ceia, Universidade Nova de Lisboa FCSH
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O professor catedrático da Universidade Nova de Lisboa defende que tanto facilitismo “tem implicações” no percurso académico e profissional dos jovens “seja em que área for”

Carlos Ceia, professor catedrático da Universidade Nova de Lisboa, considera que o exame nacional de Português do 12.º ano realizado na terça-feira foi demasiado fácil, em linha com o que tem acontecido nos últimos anos e defende que isso “tem implicações” sérias na vida dos jovens, nomeadamente nos seus percursos académico e profissional, “seja em que área for”.  

“As perguntas sobre Cesário Verde são lastimosas. Aquilo é um exercício de Psicologia e não de Português. Pedir a um aluno que explicite os sentimentos do sujeito poético?”, exemplifica.

O exame desta terça-feira pedia para os alunos lerem um poema de Cesário verde e depois explicitarem “dois sentimentos revelados pelo sujeito poético, tendo em conta o modo como este descreve as varinas”. “Identifique, de entre as afirmações referentes à poesia de Cesário Verde, as três afirmações que podem ser comprovadas através da leitura das estrofes do poema ‘O Sentimento dum Ocidental’ apresentadas”, pedia a pergunta seguinte, apresentando cinco hipóteses de escolha.

Carlos Ceia critica aliás o excesso de peso e a quantidade de questões de escolha múltipla nos exames nacionais, sublinhando que os alunos não saem do Ensino Secundário preparados para enfrentar as exigências do Ensino Superior. “Os alunos vão para as universidades sem serem capazes de fazerem uma interpretação de um texto básico. Por isso é que logo no primeiro ano, entram em pânico quando têm de escrever um texto com mais de 350 palavras e, semanas depois de entrarem no Ensino Superior e de se depararem com o nível de exigência que ainda lá existe têm de procurar apoio psicológico”, exemplifica.

Isto porque a última pergunta do exame, que está a suscitar polémica por outros motivos e que pedia um texto crítico sobre o cartoon “Child Labor”, do artista iraniano J. J. Takjoo, entre 200 e 350 palavras, o que Carlos Ceia considera ser pouco para um aluno que está a completar o 12.º ano.

Ainda na terça-feira, a professora de Português Carmo Oliveira, membro da Associação de Professores de Português (APP), tinha considerado o exame fácil e que “não intimidou” os alunos, em linha com os níveis de exigência das provas dos últimos anos. “As perguntas dos exames do 12 são muito primárias. A APP considera que, nos últimos anos, os exames têm um peso excessivo de questões de escolha múltipla. É um exame de uma disciplina estruturante. Mais do que ler um texto e saber que, de quatro hipóteses de interpretação, uma está correta e três estão erradas, os alunos devem ser capazes de autonomamente redigir uma interpretação crítica do excerto que lhes é apresentado”, explica.

“As interpretações não deviam surgir em opções para alunos que estudaram Português durante 12 anos”, reforça Carmo Oliveira.

Até porque, considera Carmo Oliveira e também Carlos Ceia, tanta facilidade acaba por gerar uma espécie de círculo vicioso. Os exames nacionais servem de referencial para o que é expectável que as escolas façam com os alunos e condicionam a prática em sala de aula. “Conformamos a nossa prática consoante aquilo que achamos que vai ser a avaliação externa. As nossas expectativas em relação ao sucesso do aluno acabam por ser que eles sejam capazes de ter esse raciocínio menos desafiador. As expectativas da própria sociedade e dos pais informados é que a escola replique os critérios do exame”, lamenta Carla Oliveira, em declarações à CNN Portugal.

Isso acaba por se traduzir numa exigência menor e faz com que os alunos estejam a sair menos preparados para tarefas tão simples como interpretar um texto: “Hoje tenho alunos com notas de 15, 16 ou 17 valores que, há 10 anos, seriam alunos de 9 ou 10”.

“Acho que este modelo de exame não é produtivo. Um aluno se acertar as escolhas múltiplas todas, tem 9,1 valores. Depois, basta-lhe responder a uma pergunta das outras, mesmo que a resposta não esteja correta, tem 10 no exame”, acrescenta a docente de português.

A primeira fase dos exames nacionais arrancou esta terça-feira e decorre entre 16 e 26 de junho, começando depois a 2.ª fase, entre 16 e 22 de julho. Mais de 81 mil alunos estavam inscritos para fazer o exame nacional de Português do 12.º ano, o mais concorrido por ser o único obrigatório para concluir o Ensino Secundário.

Mais de 166 mil alunos estão inscritos nos exames nesta primeira fase. E, pela primeira vez, apesar de ainda serem feitas em papel, as provas vão ser corrigidas em formato digital.

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