Mundial 2026: Portugal-Uzbequistão, 5-0 (crónica)
Houston, we don’t have a problem
Cristiano Ronaldo.
Se não se importam, o primeiro parágrafo fica todo para ele. Pode até ser injusto para outros jogadores, para Bruno Fernandes, por exemplo, para Cancelo, Nuno Mendes ou João Neves. E peço desde já desculpa. Mas Ronaldo... bem, esta tarde ele voltou a alinhar os planetas.
O que numa cidade como Houston, onde a NASA tem o principal centro, faz todo o sentido.
Senão, vejamos: fez o primeiro golo logo a abrir o jogo, fez o segundo ainda na primeira parte e só não completou o hat-trick por Khusanov lhe tirou o terceiro em cima da linha. Deixou Nuno Mendes bater um livre à medida dele, que acabou também em golo, e esteve no meio da confusão que levou o mesmo Khusanov a devolver o que nos tinha tirado - com um autogolo -, enfim, Ronaldo encheu o campo e lançou uma mensagem para todo o planeta.
«Houston, we don't have a problem»
Resumir esta vitória à tarde inspirada de Ronaldo é injusto, porém. Tremendamente injusto. A verdade é que Portugal revolucionou-se, numa daquelas revoluções feitas com pinças: bastou trocar Tomás Araújo e Bernardo Silva por Rúben Dias e João Félix para a equipa sofrer um upgrade de software impressionante.
Por exemplo, se contra o Congo a seleção parecia mancar, insistindo teimosamente apenas no corredor esquerdo, desta vez Portugal abriu uma autoestrada de três vias. Atacou pela direita, pela esquerda e pelo centro.
Uma dinâmica criativa que deixou o Uzbequistão a andar em contramão desde o início.
A equipa asiática, refira-se, apresentou uma debilidade confrangedora. Também ela tinha uma linha de cinco na defesa, mas era a única semelhança com o Congo. De resto, cobria mal os espaços, era bem menos agressiva e raramente contra-atacava com perigo.
Parecia ter alergia à bola, embora seja difícil distinguir onde começava essa alergia: se na falta de jeito uzbeque, se na excelente pressão portuguesa, fortíssima e muito bem definida. João Neves, nesse aspeto, foi fabuloso: sempre no sítio certo para atacar o homem da bola.
No meio deste sufoco, João Cancelo, Bruno Fernandes, Nuno Mendes, entre outros, montaram um carrossel de bom futebol, que deixou os uzbeques com tonturas crónicas.
Foram cinco golos, podiam ter sido mais. Ronaldo marcou dois, podiam ter sido quatro ou cinco. Enfim, uma barrigada de futebol para os milhares que seguem o capitão nacional.
De resto, e mesmo que a segunda parte tenha baixado um bocado de ritmo - sobretudo depois do quarto golo -, não deixa de ser evidente que a Seleção Nacional respondeu com fúria às críticas que recebeu nos últimos dias, e que vieram um pouco de todo o lado.
Deve ter sido essa fúria que alimentou a agressividade que mudou tudo.
Resumo da ópera espacial em viagem pelo Texas: Portugal está vivo, respira saúde, tem dinâmica e um capitão agora bem mais leve. A missão segue em frente e, por agora, os alarmes estão todos desligados.
Houston, we don’t have a problem.
