As mensagens políticas e sociais no novo álbum e o apoio a Lula da Silva. Entrevista ao eterno otimista Martinho da Vila

27 ago, 21:34

Com 51 discos editados, 19 livros publicados, mais de 50 anos de carreira e 84 anos de idade, Martinho da Vila apresenta-se um eterno otimista. As suas músicas entrelaçam-se com a história recente do Brasil e nem mesmo os últimos anos de crise política e social demovem o carioca. No novo álbum “Mistura Homogênea” juntou vários artistas e estilos. Pela primeira vez reuniu toda a família para recantar “Canta Canta, Minha Gente”. Declarou o seu voto em Lula da Silva nas presidenciais brasileira em outubro. Acredita que vem aí um futuro melhor para o Brasil, mas um trabalho difícil para o próximo presidente.

Quase 50 anos a cantar “que a vida vai melhorar” (o álbum Canta Canta, Minha Gente foi lançado em 1974). A vida da sua gente melhorou?

Ah, melhorou, sim! A vida, apesar dos pesares, sempre melhora. Se der uma pensadinha, se você tivesse nascido há uns 30 anos a sua vida era mais complicada. Você não tinha nem celular. (Risos) Telefone, era um bem! (Risos) Difícil de conseguir, poucas pessoas tinham. E hoje não, todo mundo se fala, se comunica… Então, a tendência é melhorar.

Ainda assim faz sentido continuar a cantar “que a vida vai melhorar”?

Ainda falta muito para ficar mesmo bom! A Era de Aquarius que todas as pessoas vão se entender, vai ser tudo maravilhoso… Desde que eu me entendo por gente que dizem que a era de Aquarius está chegando e ela não chega nunca. (Risos)

Pegando na Era de Aquarius, uma das faixas do novo álbum, ela é muito otimista, muito positiva, tem essa esperança? Qual é a mensagem da Era de Aquarius?

Com certeza porque às vezes perguntam “Porque você é otimista?”. Eu sou otimista porque os otimistas é que mudaram o mundo. Os pessimistas não fizeram nada. O pessimista, ele não acredita que pode mudar alguma coisa. Uma situação está difícil, o pessimista diz “É, isso não vai dar certo”. Aí não dá mesmo. O otimista não. Ele fala “Ahh ainda vai dar certo! Ainda vai dar!”.

Mas não tem também um pouco de ilusão nesse otimismo todo que atrapalha?

Mas ter um pouco de ilusão é bom. Quem não tem ilusão nenhuma está ferrado. (Risos) Você tem que ter ilusão de que você vai conseguir todas as coisas que você quer, que você ainda vai chegar lá. Se não tiver esse pensamento anda que nem caranguejo, para trás. (Risos)

O novo álbum Mistura Homogênea é uma mistura de vários estilos mas a alegria de viver e o alto astral do samba estão sempre presentes. Com os últimos anos do Brasil – a crise política, a pandemia, a crise social – como mantém esse alto astral?

“Quem canta seus males espanta” é um provérbio antigo e é verdade. Temos que cantar sempre. Sorrir é bom. Tem que sorrir até de si mesmo. (Risos) Uma coisa que eu fiz que não deu certo eu digo “Caramba, eu me ferrei” (com cara alegre) mas não falo “Puxa vida, me ferrei” (cara sisuda). E quando falo “eu me ferrei” eu ainda posso reverter. (Risos)

É quase uma forma de combate?

É uma forma de combater.

Já são 51 álbuns, qual a mensagem deste novo álbum?

Geralmente eu não penso numa mensagem quando vou fazer um álbum. Eu penso em fazer um álbum bonito, que a poesia esteja presente, que as melodias sejam ricas, que a produção seja bem feita… Isso aí já está um disco bom. Aí eu fico feliz quando ele consegue emocionar as pessoas. E ele consegue. Ele consegue emocionar e levar à reflexão. Aí é bom!

E que reflexão é que este álbum provoca?

É pensar! Pensar é bom. Pensar na vida. (Risos) Refletir. Você tem que pensar “Caramba, eu estou aqui porquê? Qual o sentido da vida?”. Isso é bom.

Logo a primeira faixa Unidos e Misturados tem uma mensagem política, quando fala em cortar as ervas daninha no cerrado (referência que faz lembrar os políticos no Palácio do Planalto, em Brasília). Qual é análise que faz destes últimos anos políticos do Brasil?

No governo Lula o Brasil andou bem. A nossa economia estava entre as maiores do mundo, a linha da pobreza foi superada um pouco, bastante até, a classe média baixa conseguiu subir um pouco e misteriosamente, não sei como, os ricos também se deram bem! (Risos) E depois descaiu, não é? Aí nós temos hoje muita gente abaixo da linha da pobreza então talvez ele seja reeleito, eu acredito. Mas ele vai ter um trabalho maior do que teve. (Risos)

Tem muita coisa para melhorar no Brasil?

Tem muito, tem muito… inclusive, o pensamento! E principalmente uma coisa que não é uma característica brasileira. Embora o país seja violento, lá acontece muita coisa, mas a política não era violenta, não era agressiva, sabe? Os adversários políticos se respeitavam mais. Hoje há um incentivo muito à violência, então está complicado.

Nas últimas eleições o Brasil polarizou-se muito. Famílias dividiram-se, amigos deixaram de se falar… O Martinho sentiu isso em seu redor?

Não. Do pessoal, da turma que eu ando, estava dividido, mas não estava como um apartheid. Estava tolerante. Agora está ficando um pouco intolerante.

Sente que há falta de diálogo no Brasil?

É porque nós andamos um tempo sem lideranças. Um país, uma família, tudo precisa de uma liderança. Nós ficamos um tempo que nós não tínhamos um político que você não pensa que nem ele mas quando ele vai falar, a gente vai ouvir. (Risos) Isso era o que não estava acontecendo, mas eu acho que agora vai andar um pouco.

Quando o Martinho fala do racismo, fala muitas vezes que a melhor arma é conquistar a outra pessoa para o seu lado.

Isso.

É possível fazer isso também na política?

Com toda a certeza. Um adversário político não é um inimigo então um tem que se aproximar do outro. Acabam se mantendo as mesmas ideias, mas se respeitando, conversando um muda um pouco o outro…

E a cultura pode fazer um pouco por isso?

Sem cultura, nada muda. Quem muda o mundo é a cultura. A cultura significa esclarecimento, formação, mais gente tendo acesso à cultura… quanto mais culto um país, mais livre ele é, melhor ele é.

Declarou o seu voto ao Lula nas eleições de outubro, porquê?

Ele tem uma liderança grande, tem uma capacidade de juntar as pessoas. Ele deu um exemplo bem de agora. Pegou o Alckmin que era adversário e botou ele vice dele. (Risos) Entendeu? Talvez essas coisas vão se ajeitar.

Mais de 50 anos de carreira, quando tinha 75 anos decidiu estudar Relações Internacionais na universidade. O que é que faltava aprender?

A prática das relações internacionais eu já tinha. Eu comecei a fazer isso fazendo a aproximação Brasil-África, Brasil-Portugal, essa mistura que eu amo fazer… a Mistura Homogênea. (Risos) Depois eu fui nomeado Embaixador das CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) e os meus pares eram todos académicos. Todos diplomatas. Aí eu falei “eu vou entrar na faculdade para aprender um pouco mais sobre a teoria das relações internacionais”. (…) O que eu aprendi lá mais importante é que só a diplomacia pode evitar uma Terceira Guerra Mundial. A diplomacia é que equilibra.

E está em Portugal para cantar pela Ucrânia, no Festival “Connect For Ukraine”. O que é que o fez aceitar este convite?

Primeiro que já estava com vontade de vir para Portugal. (Risos) Qualquer motivo, já estou indo! (Risos) E segundo que o show tem uma função solidária então tem uma importância. Eu vou estar bem seguro nesse show.

Com 84 anos vai subir no palco às 22h para mais de uma hora de concerto, ainda não cansou?

Olha, da vida artística, o que eu não gosto mais muito é de viajar. Porque viajar é chato. O que eu mais gostava era de viajar. Porque você viaja, você aumenta os seus conhecimentos, a cabeça abre. Uma coisa é alguém que está lá no Brasil e tem uma visão de Portugal que ele aprendeu lá na escola… aí ele vem aqui, ele vê que não é bem assim. (Risos) Então você tem a noção mais real da coisa. Mas viajar, sair de casa, toda a cidade tem trânsito, aí chega no aeroporto, despacha a bagagem, leva geral da polícia (risos), passaporte… A maioria dos aviões não andam na hora. Tanto é que agora mandam a gente chegar duas, três horas antes da hora. Não é possível isso. Então isso tudo é muito cansativo, eu não gosto muito. Mas quando eu passo por tudo isso e eu estou nos lugares eu gosto.

Ainda vale a pena?

Vale a pena! (Risos)

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