Mundial 2026: Portugal-Croácia, 2-1 (crónica)
Prepara-te mundo, somos portugueses
Pode haver várias maneiras de se ser português num Mundial, mas ainda não foi inventada nenhuma que não envolva um sofrimento atroz.
Se faz sentido ser assim? Faz, faz sentido.
O nosso povo fez-se grande nas maiores adversidades, a enfrentar o mar e o adamastor, a construir as maiores cidades que existem por esse mundo fora, a cantar o fado mesmo para não entendia uma palavra que fosse. E alguma dessas vezes desistimos?
Não, claro que não.
Há um sentimento muito nosso, muito português, na arte de transformar um aparente desastre num triunfo histórico
Este jogo com a Croácia, é um bom exemplo disso. A linha que separou a tragédia épica da glória suprema é da espessura de uma linha de fora de jogo. Sobretudo se for aquele fora de jogo final, já no período de descontos, quando os portugueses faziam a festa.
Estivemos à distância de uma mão - daquelas mãos de Diogo Costa – de ser eliminados do Campeonato do Mundo, mas no fim, esqueçam lá isso. Ganhámos. Passámos à fase seguinte. O país pode sair à rua, buzinar, embebedar-se e abraçar desconhecidos.
Podíamos estar agora em lágrimas, mas não, estamos em festa. O caminho podia ter desumano, mas não senhor, foi épico.
Enfim, há algo muito especial em tudo isto. É preciso ser feito desta massa de que nós, portugueses, somos feitos, para aguentar uma noite assim. Porque se fosse fácil, não era para Rui Vitória. Perdão, não era para nós.
E agora, o que fazemos nós com este triunfo? Antes de mais, marcamos viagem para Dallas, onde defrontamos aquela velha cliente habitual chamada Espanha, na próxima segunda-feira.
Depois, obrigamo-nos a ter esperança, que é uma coisa cansa imenso. Permitimo-nos ter fé, ter confiança e ter capacidade de sonhar. Se o poeta lá ia assim, porque não podemos nós.
Uma vitória assim não é só um apuramento: é um manifesto. De força, de valentia, de ânimo. Um manifesto de exuberância até. O mundo que se prepare, porque estamos prontos para sofrer até ao limite do impossível, se esse for o caminho para sermos felizes.
Esta noite, por exemplo, passámos pela primeira parte a declamar poesia. Fomos de uma superioridade tão esmagadora, tão sublime, que até os croatas pareciam pedir desculpa por aquele nulo no marcador, conscientes da superioridade lusitana.
Veio o intervalo, mudámos de campo e mudámos de jogo. A Croácia teve largos momentos em que foi superior, marcou primeiro, voltou a ameaçar uma série de vezes e só Diogo Costa manteve Portugal vivo. Até que um penálti de Ronaldo nos devolveu a alma.
Aliás, devolveu-nos a alma, a perspetiva e a clarividência.
Só assim se explica que Roberto Martínez tenha tido a coragem de tirar Cristiano Ronaldo de campo - que não saiu nada satisfeito -, para lançar Gonçalo Ramos. E foi ele, Gonçalo, com a simplicidade dos heróis, com a humildade dos valentes, que fez o golo que nos qualificou.
Num jogo com três golos anulados por fora de jogo e duas bolas nos ferros, ainda haveria uma página final, carregada de negro, que não entrou nesta história. Os croatas bem festejaram, mas o VAR acabou com aquele abuso e falta de bom senso.
Afinal de conta somos portugueses, merecemos a glória que sobra no fim de tudo, com uma beleza quase trágica, mas tão, tão, tão nossa.
Seguimos em frente, com sorte, alma e Diogo Jota.
