opinião
Físico, Estratega & Ex Cripto-céptico

Portela não pode ser só mais um bairro: proposta para uma Cidade da Saúde que sirva todo o país

31 dez 2025, 13:08
Aeroporto Humberto Delgado

Pouco se tem falado do novo Aeroporto de Lisboa, previsto para estar operacional por volta de 2037. Mas o verdadeiro debate deveria centrar-se no antigo: os 470 hectares da Portela, em pleno centro da capital. O Governo tem indicado que esses terrenos integrarão um projeto urbano com bairros residenciais, espaços verdes e equipamentos culturais – uma visão válida, mas limitada. 470 hectares no coração de Lisboa representam uma oportunidade única, não repetível na maioria das cidades do mundo: construir algo de raiz, com impacto nacional. Desperdiçá-la seria quase um crime urbanístico e social.

O aeroporto não é só uma grande área. É uma área que está hoje preparada para fazer circular várias vezes a população de portugal todos os anos. É um centro logístico ideal, com acessos que seriam desperdiçados por um projecto meramente cultural habitacional e de lazer que tendem a ter procura intermitente. Toda a rede de acessos que ao longo dos anos se desenhou para servir o aeroporto deve ser aproveitada. Nunca para servir as dezenas de milhões de passageiros, mas também nunca para servir "meia dúzia" de habitantes ou enevtos pontuais.

Criar habitação é essencial, tal como infraestruturas culturais e recreativas. Mas pensemos maior: faz sentido concentrar tudo num "gueto temático cultural" ou o que dá vida às cidades é a dispersão orgânica da cultura? O que colocar ali então que não caiba noutro lugar? Este espaço deve enquadrar-se na cidade, mas também aproveitar a sua escala única para resolver problemas sociais, económicos, ambientais e estratégicos – não só de Lisboa, mas de Portugal inteiro. Assim era com o aeroporto; assim deve ser agora.

 

Uma Cidade da Saúde: um ecossistema integrado

Proponho transformar a Portela numa "Cidade da Saúde" – um polo de excelência médica, pública e privada, que funcione como plataforma nacional de inovação, formação, suporte e turismo médico.

Mega-hospital central público e unidades especializadas privadas Um hospital central público de grande escala, capaz de agregar sinergias e talvez substituir ou complementar unidades existentes. Ao lado, concessão de terrenos para clínicas privadas em áreas como fisioterapia, recuperação funcional, estética avançada, oncologia e investigação. As sinergias seriam imediatas: partilha de protocolos, equipamentos e conhecimento, a acrescentar à operacionalidade logística da zona. Não se trata de converter a área num hospital, mas de ter vários hospitais próximos de si.

Turismo médico: copiar o sucesso turco A Turquia é o exemplo perfeito: em 2024, atraiu cerca de 1,5 a 2 milhões de turistas médicos, gerando receitas de vários milhares de milhões de euros. Projeções para 2025 apontam para um novo crescimento. Pacientes de toda a Europa escolhem pacotes completos: tratamento + hotel + transfers. Portugal tem médicos de excelência – porque não captar esse mercado? Um polo na Portela, com hotel de apoio a utentes, acompanhantes e visitantes e até um pequeno aeródromo para ambulâncias aéreas ou transfers médicos que posicionariam o país na vanguarda europeia. Tal projecto arriscaria uma enorme atração de imigrantes especializados de todas as partes do mundo.

Habitação funcional e retenção de profissionais: um incentivo vital para o SNS O Serviço Nacional de Saúde enfrenta uma crise profunda de recursos humanos: em 2025, faltam milhares de profissionais. Um complexo hospitalar de grande escala na Portela moveria facilmente dezenas de milhares de pessoas por dia. Um hospital grande actual facilmente chega aos 5 a 10.000 funcionários. Faz sentido criar habitação acessível em regime de arrendamento prioritário e a custos controlados para esses profissionais – resolvendo simultaneamente a retenção de quadros no SNS e a grave crise habitacional em Lisboa.

Não se trata de um simples dormitório, mas de um bairro vivo que se adeque aos horários atípicos da saúde: creches 24 horas, ginásios acessíveis a qualquer hora e serviços de apoio psicológico integrados para reduzir o burnout, restaurantes, ocupação de tempos livres. Esta habitação poderia ser concessionada com rendas indexadas ao salário, com prioridade para quem aceita dedicação plena ao SNS, por exemplo. Na Portela, esta medida não só reteria talentos como atrairia novos profissionais, aliviando a pressão sobre o sistema público.

Co-living intergeracional e inclusivo: uma valia social única Portugal tem uma grave escassez de respostas para idosos: muitos vivem sós, com riscos de isolamento. Lisboa não foge à excepção. Ao mesmo tempo, faltam residências acessíveis para estudantes de saúde e respostas habitacionais para pessoas com necessidades especiais, como o autismo ou outras especificidades intelectuais e motoras.

Proponho residências de co-living onde estudantes de medicina e enfermagem partilham espaços com idosos autónomos e adultos com necessidades especiais. Este modelo reduz a solidão, promove a troca geracional e ensina empatia prática às novas gerações de cuidadores, oferecendo um ecossistema seguro onde a diferença é integrada no quotidiano e não isolada. Quem melhor do que os estudantes da área da saúde para sensibilizar para a saúde dos mais necessitados?

Formação nacional de cuidadores: da assistência doméstica à competência técnica Portugal apresenta um dos piores rácios de cuidadores por idoso na OCDE, mas o problema é também qualitativo. Atualmente, não existe uma rede real de cuidadores profissionais; o que temos é uma massa invisível de empregados domésticos a desempenhar esse papel sem a preparação necessária. Criar uma Academia Nacional de Cuidadores na Portela, ligada diretamente às unidades de cuidados continuados do local, seria uma oportunidade histórica para dignificar a função. Esta academia formaria milhares de profissionais qualificados em áreas como mobilidade, nutrição e apoio psicológico, permitindo-lhes prestar cuidados de forma segura. Estes profissionais dispersar-se-iam depois pelo país, elevando o padrão de cuidados em todo o território.

 

O Pulmão Terapêutico e o Alto Rendimento: os parques verdes como coração da Cidade da Saúde

Esta Cidade da Saúde não seria feita apenas de betão e edifícios clínicos. Os espaços verdes, ocupando uma parte significativa dos 470 hectares, deixariam de ser meramente decorativos para se tornarem elementos centrais de cura, prevenção e excelência desportiva – um verdadeiro pulmão terapêutico.

Estudos científicos consolidados demonstram que o contacto com a natureza em ambientes de saúde reduz o stress, a ansiedade e a dor percebida pelos pacientes, acelera a recuperação pós-cirúrgica, diminui a necessidade de medicação analgésica e melhora o bem-estar de visitantes e profissionais. Pacientes com acesso a áreas verdes têm internamentos mais curtos e menos complicações – factos comprovados por décadas de investigação em paisagismo curativo.

Imagine-se um grande parque central na Portela, projetado como ginásio de reabilitação mas também de treino profissional a céu aberto: trilhos acessíveis com diferentes níveis de dificuldade para recuperação motora, estações de exercícios adaptados a fisioterapia, jardins sensoriais, etc.. Estes espaços seriam especialmente úteis em reabilitação neurológica, oncológica, pós-cirúrgica ou para idosos, integrando-se diretamente com as unidades clínicas adjacentes. 

A este cenário soma-se a componente de alto rendimento. Unidades de medicina desportiva de elite, atrairiam atletas de topo mundial para estágios, tratamentos especializados e investigação. Portugal poderia posicionar-se como hub europeu de preparação olímpica e reabilitação de lesões desportivas, gerando receita através de parcerias com federações internacionais, turismo médico desportivo e organização de eventos de prestígio. Já temos os profissionais, falta concentrar os meios.

Assim, os espaços verdes da Portela tornam-se o coração vivo da Cidade da Saúde: curam pacientes, potenciam a performance desportiva de elite, elevam o prestígio internacional do país e devolvem à capital um oásis de bem-estar acessível a todos.

 

Olhar para o Futuro

Integrar em todo este plano os polos de investigação universitária na área da medicina e enfermagem, bem como polos de investigação técnica de dispositivos hospitalares e não só, trazendo as universidades para o ambiente desta nova cidade, criando pontes entre o que se inventa e o que se conhece, pode trazer a este projecto algo que de facto é único. O objetivo desta ideia é de facto criar um polo irradiador de excelência que beneficie o país. Modelos de gestão integrada que possam ser exportados internamente ou mesmo externamente, modelos de Inteligencia artificial ligados à saude, conectividade para intervenções remotas, investigação laboratorial, coportamental, organizacional e tantos outros beneficios trazidos pela proximidade e coexistência numa integração urbana que é garantida por parques abertos e habitação mista. Não é um hospital, é um Silicon Valley de cuidados de saúde. 

Em 2037, quando o novo aeroporto abrir, Portugal pode olhar para a Portela e ver um ecossistema vivo de saúde e inovação. A Portela é o maior terreno livre de Lisboa e o maior teste à nossa capacidade de imaginar o futuro. Podemos enchê-la de prédios e rotundas que podemos colocar em qualquer outro lugar mais ou menos perto, ou transformá-la num legado nacional. Doze anos não é muito tempo se quisermos planear uma Cidade da Saúde pública e privada a uma escala quiçá pioneira.

O aeroporto ligava-nos ao mundo. A Cidade da Saúde pode ser a pista que nos permite levantar para futuro. O país não precisa de mais bairros; precisa de visão. Se esta ideia tiver força, que seja esse o meu contributo para um país que merece pensar maior. E que 2026 seja, finalmente, um ano com mais estratégia.

Opinião

Mais Opinião