"Isto não é o Afeganistão". Relatos de más condições no porta-aviões americano onde vários marinheiros se suicidaram

7 mai, 17:43
O porta-aviões USS George Washington fotografado no mar Mediterrâneo a 5 de fevereiro de 2017. Foto: USS George H.W. Bush/Anadolu Agency/Getty Images

Marinheiros partilharam com a CNN como era a vida a bordo do USS George Washington, onde sete marinheiros já morreram, pelo menos quatro deles por suicídio

Uma série de suicídios num porta-aviões da Marinha dos Estados Unidos motivou a saída de mais de 200 marinheiros da embarcação. Depois de uma das últimas mortes, de Xavier Sandor, o capitão do USS George Washington sentiu necessidade de falar com a tripulação.

De acordo com a CNN, a conversa entre Brent Gaut e os marinheiros durou duas horas, tempo durante o qual o capitão ficou a saber o que têm sido sentido a bordo ao longo de meses. Uma das maiores queixas foi de que a tripulação embarcou demasiado cedo, mas quatro marinheiros admitiram que era tarde demais para voltar atrás.

“Não existe volta a dar. Não podemos reverter o curso”, disse um dos marinheiros ouvidos por Brent Gaut, que também se queixou do sistema de comunicação.

A situação, que se arrasta há vários meses, ganhou dimensão nacional quando se soube da morte de três marinheiros em apenas uma semana, no passado mês de abril. Entre as principais queixas estão as más condições de acomodação, num navio que, à altura do início da missão, ainda estava em construção, na doca de Newport News, no estado da Virgínia. Problemas relacionados com a alimentação e a sensação de que a situação não estava a ser resolvida pioraram ainda mais o caso.

O testemunho de quem lá esteve

Um dos marinheiros que aceitou falar à CNN garante que não existem condições de habitabilidade no navio, onde os primeiros tripulantes chegaram há cerca de um ano, num altura em que, apesar das obras, já se esperava que fosse possível acolher pessoas.

“Eu estava pronto para uma péssima situação, mas não tinha ideia de que estaria tão mal”, referiu um dos marinheiros destacado para o USS George Washington.

De acordo com os testemunhos, que foram dados na condição de anonimato, era impossível encontrar um lugar tranquilo para dormir, além de que falhas elétricas e a falta de água eram constantes. Por isso mesmo, em várias situações falhava a ventilação, o que diminuía a temperatura dentro do navio até a um ponto insuportável.

“Eu acordava a meio da noite a congelar. Eu vivi no meu carro durante um inverno, e mesmo assim era melhor do que no navio”, disse um dos marinheiros, à altura dos factos com apenas 19 anos, afirmando depois que “não se pode descer mais baixo”.

Numa ferramenta de sugestões de melhoria da embarcação, que os marinheiros preenchiam num portal digital interno, muitas das publicações eram categorizadas como "qualidade de vida", focando situações como difícil parqueamento, baixa moral ou má comida. "As queixas não resultavam em nada. Tínhamos de sofrer em silêncio", referiu, à CNN.

"Ficávamos sem comida, e se sobrasse alguma coisa - com alguma sorte - era apenas uns cereais ou uma pequena perna de frango que podia ou não estar mal cozinhada", acrescentou.

Um outro marinheiro, que recentemente saiu do USS George Washington, foi mais longe nas críticas: "Os prisioneiros têm melhor comida do que nós temos".

"É o ambiente mais insano que já experienciei", garantiu.

"Isto não é o Afeganistão, onde se esperam estas circunstâncias. Isto é Newsport News, na Virgínia", sublinhou outro antigo tripulante.

O processo de modernização do porta-aviões começou no verão de 2017, e inicialmente pensou-se que terminaria ao fim de quatro anos. No entanto, vários adiamentos já fizeram com que a Marinha projetasse março de 2023 como a nova data, cerca de dois anos depois do previsto.

Ao longo do último ano contam-se já sete mortes, das quais pelo menos quatro foram suicídio.

A bordo do navio, e de acordo com o comandante Robert Myers, porta-voz da Naval Air Force Atlantic, todas as condições foram inspecionadas, além de ter sido feita a avaliação dos alimentos que iriam ser distribuídos. De resto, e segundo o mesmo representante, membros do Congresso visitaram o navio ainda esta semana, aferindo que os espaços, incluindo os dormitórios, estavam em condições.

Dadas as mais recentes queixas, e sobretudo as mortes a bordo, a Marinha abriu duas investigações ao caso, esperando que uma delas, que investiga em concreto as mortes, seja resolvida de forma rápida.

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