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Se eu não quiser votar nos Trumps, voto em quem?

25 abr, 12:00
WASHINGTON, DC - 6 DE JANEIRO: Um manifestante grita «Liberdade» no interior da sala do Senado, após o Capitólio dos EUA ter sido invadido por uma multidão durante uma sessão conjunta do Congresso, a 6 de janeiro de 2021, em Washington, DC. O Congresso realizou hoje uma sessão conjunta para ratificar a vitória do presidente eleito Joe Biden no Colégio Eleitoral, por 306 votos contra 232, sobre o presidente Donald Trump. Um grupo de senadores republicanos afirmou que rejeitaria os votos do Colégio Eleitoral de vários estados, a menos que o Congresso nomeasse uma comissão para auditar os resultados eleitorais. Manifestantes pró-Trump invadiram o edifício do Capitólio dos EUA durante manifestações na capital do país. (Foto de Win McNamee/Getty Images)

ENSAIO || Nicolau do Vale Pais aproveita o 25 de abril para escrever um ensaio sobre populismos, dos Estados Unidos a Portugal, e sobre como lidar com eles - e connosco próprios - entre esses instintos e destroços

 

“A partir de que momento deveremos temer a chegada do perigo? Eu respondo: se ele alguma vez chegar, nascerá de dentro de nós” Abraham Lincoln, “The Lyceum Address”, 1838.

Permitam-me ver os movimentos populistas – incluindo os de cá da terra – como “sintomas” e não como “causas”; diabolizá-los é infrutífero, é como perder tempo a discutir com idiotas.

Um Regime que não apresente alternativas, cairá, inevitavelmente, numa escalada de conflitos verbais, institucionais e, eventualmente, bélicos. A Democracia é um sistema de responsabilidades partilhadas, um pacto entre poder e eleitores, em permanente construção; o seu objectivo primordial é a defesa contra o abuso de poder. Fomentando a consciência do imperfeito como inseparável da condição humana, a Democracia – e as instituições que a garantem –  vivem da possibilidade de regeneração, e não de buscas delirantes por quimeras, prometidas pelo oportunismo dos homens providenciais.  

Não é totalmente verdade que nos EUA se glorifiquem os “políticos homens de negócios” mais do que em qualquer outro lado. Sendo certo que aquela nação é, para o melhor e para o pior, um país de celebração quase existencial do sucesso, a verdade é que em Portugal, por exemplo, é comum ouvirmos dizer que se aprecia o político “a, b ou c” porque "ele é bom gestor". Ora lá, como cá, o problema é outro: é que ninguém parece saber bem o que é que há para gerir, e, portanto, está tudo a gerir o poder. Trump não tem feito outra coisa na vida, não deve nunca ser subestimado, e muito menos ainda deve ser desvalorizada a explosiva mistura de ambição e desilusão em  que as massas que o apoiam se sustentam.

2017. Donald e Melania Trump contemplam a estátua de Abraham Lincoln no Lincoln Memorial, em Washington, DC, a 19 de janeiro de 2017. Foto de BRENDAN SMIALOWSKI/AFP via Getty Images

No discurso que ficou conhecido como “The Lyceum Address” (por ter sido proferido no “Young Men’s Lyceum of Springfield”, no Illinois), o ainda jovem legislador Abraham Lincoln parece ter profetizado não só Trump, como também o horror dos autocratas eleitos do Séc. XX europeu -  eleitos, ou seja, “nascidos dentro de nós”. Lincoln temia que um dia surgisse uma figura que se quisesse sobrepôr à Constituição, de ambição tão brutal que não se daria por satisfeita com menos do que a subjugação do sistema constitucional. A sua lógica (ou aviso) era simples: a ambição estará sempre presente; se desmedida, e sem um sistema que a regule, ela poderá querer ascender acima da Lei Fundamental, pois esse seria o maior triunfo que um tirano, no seu desejo de glória, poderia almejar. Lincoln, o primeiro Presidente Republicano da História dos USA (eleito em 1860) e arquitecto político de uma nação anti-escravatura, trazia consigo a experiência pessoal da Guerra Civil Americana e, como Churchill, tinha visto a barbárie da Guerra olhos nos olhos.

 

“Como é que se pede a um homem que seja o último a morrer em nome de um erro?” John Kerry, Democrata, 1971, dirigindo-se a uma comissão do Senado sobre a Guerra do Vietnam (1955-1975)

1971. John Kerry, então diretor da organização "Veteranos do Vietname Contra a Guerra", presta depoimento perante a Comissão de Relações Externas do Senado dos Estados Unidos a 22 de abril de 1971. Kerry, um antigo tenente-júnior da Marinha, fez um apelo comovente para que se pusesse fim à guerra, pedindo a todos os americanos que refletissem sobre quem seria o último a ser escolhido para morrer por um erro. Créditos Bettmann via Getty

Onde pára hoje o Partido Democrata? Aparentemente, e já desde 2016, perdido. Não se percebe o erro crasso da escolha de Hillary Clinton para defrontar Trump em 2016. Clinton tinha, em 2008, sofrido clamorosa derrota interna nas Primárias do Partido, para um “underdog” chamado Barack Obama. Quem tinha de ter percebido, em primeira instância, o significado dessa mudança era o próprio Partido (e a própria Clinton, claro); mas, pelo contrário,  o Partido Democrata conseguiu o “prodígio” de anular a mudança de paradigma que o próprio Obama tinha conseguido. Pior ainda, repete exactamente a mesma mistura de ingenuidade e voluntarismo na gestão desastrosa da tentativa de passagem de testemunho do Presidente Biden para a sua Vice-Presidente Kamala Harris, conduzindo Trump ao seu segundo mandato. É extraordinário; tanto, que até o próprio Barack Obama parece ter ressurgido em tempos recentes, movido pela sua inquieta consciência e pragmática percepção do estado das coisas lá para os lados do seu Partido; isto apesar de já não se poder recandidatar, sequer.

2007. Orangeburg: os então candidatos presidenciais democratas (da esquerda para a direita): o senador Joe Biden, o senador Barack Obama e a senadora Hillary Rodham Clinton chegam ao debate das primárias presidenciais do Partido Democrata, a 26 de abril de 2007, na Universidade Estadual da Carolina do Sul, em Orangeburg, Carolina do Sul. Crédito: Stan Honda/AFP via Getty Images

Se olharmos em jeito de analogia, este estado de coisas não é muito diferente do estado de grande parte do centro-esquerda e do centro-direita europeus, perdidos que estão entre o alto nível de compromisso com o Regime que criaram e uma dificuldade imensa – diria mesmo, uma insensibilidade e falta de imaginação grosseiras – em olharem para os reais problemas das populações e perceberem que já não estamos nos anos 90 do século passado. Cá, muitos destes partidos pedem emprestada demagogia aos partidos radicais, para parecer que “andam atentos”; lá, os radicais já são poder. A defesa intransigente de um somatório avulso de causas – próprias ou emprestadas - não é um programa político, nem os medos e dificuldades das populações se resolvem por osmose.

 

“Vede agora os homens como que acorrentados desde a infância, podendo ver apenas as sombras projetadas na parede.” Platão, “A República”, Livro VII, circa 375 a.c.

A caverna hoje está nos nossos bolsos, na forma de smartphone. As imagens, essas, já não são sombras, mas vídeos curtos, tweets, informação descontextualizada, enfim, uma miríade de conteúdos onde cabe toda e qualquer paixão, todo e qualquer enviesamento. Muito se tem dito e escrito sobre redes sociais e a internet, a ubiquidade insidiosa da propaganda, e o problema das “fake-news”. Mas a questão é mais profunda e, no meu entender, deve ser abordada por outro lado, mesmo que mais assustador: num sistema feito para ser consumido em fracções de segundo, que desenvolvimento de consciência individual podemos ter, baseados em percepções que têm tanto de vago como de deliberadamente equívoco?

Não há Democracia sem cidadania, e estamos todos, cada vez mais, despromovidos de cidadãos a consumidores compulsivos. Esse é o território onde os Trumps se movem com o à vontade de uma raposa num galinheiro, onde o carisma é tomado fácil e perigosamente por competência. Esta sociedade ocidental de utopias à medida da fantasia de cada um, rouba-nos da prudência da consciência histórica, e a percepção que vai crescendo é de que “isto nunca esteve pior”. E, no entanto…

  • Só entre 1961 e 1969, os Estados Unidos passaram pela maior ameaça vivida durante toda a Guerra Fria, a crise da Baía dos Porcos (1961); pelo assassinato do Presidente John F. Kennedy (1963); pelo assassinato do seu irmão e candidato presidencial, Robert Kennedy (1968) e ainda pelo assassinato de Martin Luther King Jr. (idem,1968). Tudo isto enquanto em 1969 o país atingia o maior número de efectivos presente na Guerra do Vietnam, cerca de meio milhão de soldados. Tudo isto em meros oito anos;
     
    1963. O presidente dos EUA, John F. Kennedy, a primeira-dama Jacqueline Kennedy, o governador do Texas, John Connally, e outras personalidades sorriem para a multidão que se aglomerava ao longo do percurso da comitiva em Dallas, Texas, a 22 de novembro de 1963. Minutos depois, o presidente será assassinado, quando o seu carro passar pela Dealey Plaza.
  • Na Europa, até 1989, data da queda do Muro de Berlim, mais de 400 milhões de pessoas viviam sob ditaduras comunistas, privadas de qualquer tipo de liberdade. Esta soma abarca os cerca de 16 milhões de cidadãos da Alemanha de Leste, os mais de 285 milhões da antiga União Soviética e ainda a totalidade das populações da Polónia, da (antiga) Checoslováquia, da Roménia, da Hungria, da Bulgária e da Albânia. Isto depois de mais de 70 milhões de mortos durante a II Grande Guerra (algumas estatísticas chegam aos 85 milhões);
     
  • No Portugal da ditadura, morriam cerca de 39 bebés em cada 1000 nascimentos, com duas dessas mortes a acontecerem ainda antes dos 28 dias de vida. A Guerra Colonial (1961-1974) mandava para África muitos que nem Lisboa conheciam; 1 em cada 4 portugueses não sabia ler nem escrever. As mulheres viviam sob submissão social e jurídica dos maridos, impedidas de decidir sobre o que quer que fosse, de ter privacidade na leitura da sua correspondência, a precisar de autorização do marido para viajar. Estima-se que só para a região de Paris tenham emigrado mais de 1 milhão de Portugueses durante a ditadura.

 

“Portugal inventou-se a si mesmo antes de se cumprir” Eduardo Lourenço, in “O Labirinto da Saudade” (1978)

Apesar das conquistas da nossa jovem Democracia,  o país politico tem tido muita dificuldade em sair da discussão entre o virtuosismo da austeridade orçamental e a expansão exacerbada pelo investimento público; falta-nos outra estratégia que não se fique só pela persuasão. Por causa deste desequilíbrio institucionalizado, tem-se vindo a perder a confiança entre contribuintes e Estado, o que sabemos, é perigoso, como é sempre perigoso viver em eterna promissão. 

O país tem problemas de produtividade crónicos, excesso de comércio e serviços em detrimento de agricultura, pesca e indústria, dificuldades estruturais graves em termos de planeamento de território (por exemplo, na ferrovia, tanto nas grandes cidades como no acesso ao interior, cada vez mais desertificado), a que se soma uma economia de consumo, aberta a fluxos de investimento estrangeiro cuja escala é de tal maneira superior à nossa capacidade interna, que só poderiam conduzir a inflação; este fenómeno é particularmente evidente no sector imobiliário -  demonstram-no os preços alucinantes da habitação, sobretudo quando postos em perspectiva comparativa com os baixos salários que por cá se praticam.

2026. André Ventura, líder da oposição e candidato à Presidência de Portugal apoiado pelo partido de extrema-direita Chega, que ficou em segundo lugar e passará à segunda volta das eleições presidenciais, levanta os punhos em sinal de comemoração ao chegar para falar aos seus seguidores num evento da noite eleitoral com apoiantes no Lisbon Marriott Hotel, em 18 de janeiro de 2026, em Lisboa, Portugal. Foto de Horacio Villalobos/Corbis via Getty Images
 

Com o benefício da retrospectiva, compreende-se que o País se tenha agarrado à tábua de salvação do Turismo no pós-Troika de 2011; o que já se torna mais difícil de entender é a redução político-mediática de um país inteiro a tanta festa e lazer, tanto festival, tanto trânsito incomportável nas cidades, tanto shopping a céu aberto, sobretudo quando o país exporta mão-de-obra qualificada a um ritmo que nos deveria envergonhar a todos, e tem deficits na Educação e na Saúde que há 30 anos nos pareceriam impossíveis. Não está em causa aqui o mérito do investimento do pequeno e médio empresário na área do Turismo; pelo contrário, esses empreendedores não só investiram na maioria das vezes tempo, dinheiro e sacrifícios seus como, por ironia do destino, são eles os principais prejudicados pela massificação altamente conveniente para a classe política, do fenómeno do Turismo.

A guerra está aí, com ela a inflação. Pior do que o aumento directo dos preços de literalmente tudo, no entanto, vai ser a inevitável subida das taxas de juro, agravando o custo da dívida de privados, empresas e Estado. Alguns, mais optimistas do que eu, poderão entender que a crise poderá ser evitada ou mitigada; mas todos temos de ter consciência que quando e se ela acontecer, recairá sobre um país com quadro político-partidário muito distinto de 2011. Se eu não quiser votar nos Trumps, voto em quem?

 

Foto no topo: Jacob Chansley, que responde pela alcunha de "xamã QAnon", na invasão do Capitólio, em Washington, a 6 de janeiro de 2020. Neste momento específico, Chansley grita "Liberdade!" dentro da sala do Senado, que tinha sido evacuada momentos antes da multidão a invadir durante a sessão conjunta do Congresso para ratificar a vitória do presidente eleito Joe Biden no Colégio Eleitoral, por 306 votos contra 232, sobre o presidente Donald Trump, que contestou a eleição como "roubada". Manifestantes pró-Trump invadiram o edifício do Capitólio, num ataque mortal. Jacob Chansley seria condenado a 41 meses de prisão. (Foto de Win McNamee/Getty Images)

 

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