"Sem imigrantes corremos o risco de nos extinguirmos. Precisamos de nos abrir para existir"

27 jun, 08:00
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ENTREVISTA || A socióloga e especialista em demografia Maria João Valente Rosa critica aqueles que querem transformar os imigrantes em "bode expiatório". O problema não é a imigração, é o facto de não querermos pensar a realidade que temos, diz. E a realidade é esta: temos cada vez menos filhos e vivemos cada vez mais tempo. E temos de mudar muito na gestão do país para lidar com isto

Somos 11,4 milhões. O número foi revelado pelo INE esta semana. "Portugal bateu um recorde histórico, não há memória de termos um registo de tanta gente a residir em Portugal", afirma a socióloga Maria João Valente Rosa, especialista em demografia, sublinhando, no entanto, que "um número, por si só, quer dizer muito pouco. Não, não há um número ideal de habitantes para residir em Portugal, ou na Europa, ou no mundo. Tudo depende. Se estivermos muito desequilibrados do ponto de vista de povoamento, se tivermos problemas de desemprego, ou outra coisa qualquer, o número pode dizer alguma coisa". Agora, "estamos perante novas realidades que, em alguns casos, não estávamos a contar que tivessem esta escala, e para as quais nós temos, se calhar, de dar respostas mais profundas e mais fortes do que dávamos no passado, quando éramos menos. É uma nova realidade que nos vai interpelar."

De acordo com o INE, a população residente em Portugal em 2025 foi estimada em 11.424.031 pessoas, o que corresponde a um aumento de mais 824.914 pessoas desde 2021.

Além disso, não só a população é maior do que antes, como também é diferente.

O INE destacou o número de estrangeiros a residir em Portugal: 1.597.539 pessoas, representando 14,0% do total da população residente. Desde 2021, o número de estrangeiros mais do que duplicou, correspondendo a um aumento de 849.384 pessoas (mais 6,9 pontos percentuais), refere o INE.

Mas também a estrutura etária se alterou. A população em idade ativa voltou a crescer, e isso está fortemente ligado à imigração, que se concentra nas idades centrais e contribui também para os nascimentos, atenuando o declínio do saldo natural.

Esta é a nova realidade. E foi a partir dela que falámos com Maria João Valente Rosa, para nos ajudar a interpretar os números divulgados pelo INE e a perceber que tipo de desafios é que eles nos colocam.

Uma nova metodologia: "Estávamos a olhar para a realidade com uns óculos embaciados"

"Estes números divulgados pelo INE surpreenderam bastante a mim e penso que a todos que acompanham estas áreas. Percebemos que afinal éramos muito mais, existem muito mais habitantes a residir em Portugal do que tínhamos ideia", começa por dizer Maria João Valente Rosa. "A primeira coisa que fiz foi tentar perceber o que é que poderia explicar a mudança. Porque quando eu olho para um dado estatístico, o que tento em primeiro lugar é perceber a razão de ele existir."

A especialista alerta que não podemos simplesmente "consumir" os dados estatísticos sem percebermos bem do que estamos a falar. "Isso leva-nos a cometer erros gravíssimos, mesmo do ponto de vista interpretativo", avisa.

Lendo a nota metodológica do INE, percebe-se que o que está em causa é, antes de mais, "uma alteração muito significativa da forma de se fazer as estimativas populacionais" - e aqui é preciso sublinhar a palavra estimativa, porque o que temos não são números reais. O que o INE tem feito é trabalhar com estimativas que, depois, são corrigidas sempre que há um census. "Quando chegámos ao recenseamento de 2021, percebemos que estávamos com valores muito diferentes daqueles que também já estávamos à espera", recorda. "Estávamos à espera de sermos mais e de facto fomos menos. Estávamos à espera de ter níveis de envelhecimento mais baixos e tivemos mais altos."

Os census, que eram feitos de dez em dez anos, deverão acabar. Estas foram as primeiras estimativas de base totalmente administrativa. A partir daqui, as estimativas da população passarão a ser feitas, essencialmente, através da análise de milhões de dados da administração pública. São muitas as fontes usadas, por exemplo: a Base de Dados de Identificação Civil do Instituto dos Registos e do Notariado; a base da AIMA sobre títulos de residência válidos, concessões de título de residência; beneficiários de proteção temporária, vistos de longa duração prorrogados e pedidos de concessão e renovação de título de residência. São também usados dados da Autoridade Tributária e Aduaneira, como as declarações mensais de remuneração, e-fatura e IRS, ou os dados da Segurança Social e da Caixa Geral de Aposentações sobre declarações de remunerações e prestações sociais, entre outros.

Portanto, o que se passou, em primeiro lugar, é que "houve realmente uma alteração muito significativa do modo como estas estimativas passaram a ser realizadas, recorrendo a diferentes dados administrativos, e em grande parte é por causa desse tipo de procedimento e da inclusão de certo tipo de informações que ainda não constavam, que chegamos a estes valores".

"Estamos perante aquilo que nós em estatística costumamos chamar uma quebra de série - que acontece quando passamos a ter uma metodologia diferente", explica. A série anterior, pelos vistos, estava a utilizar uns óculos que já estavam um bocadinho embaciados. E estávamos a olhar para a realidade de uma forma bastante embaciada. Havia uma parte significativa que não estava ainda a ser contabilizada."

Entretanto, o INE "andou para trás" e fez a revisão dos dados desde 2021. E são esses que podem ser analisados e comparados. "Não podemos estar a comparar os dados desta nova série, com os dados da série antiga."

Saldo natural e saldo migratório: o que está, de facto, a acontecer em Portugal

A população de um país só varia em função de duas componentes: uma é o saldo natural e outra é o saldo migratório, explica a demógrafa.

O saldo natural, que é a diferença entre os que nascem e os que morrem, tem vindo a ser persistentemente negativo, sublinha Maria João Valente Rosa. Isto significa que "morrem muito mais pessoas do que aquelas que estão a nascer".

"Ou seja, se a população de Portugal só dependesse do saldo natural, a população estava a diminuir. Mas existe outra componente que é o saldo migratório, que é a diferença entre as entradas e as saídas do país. Na realidade, o saldo migratório é mais alto em positivo, estão a entrar mais pessoas do que aquelas que saem, e em positivo é mais alto do que o natural, e por isso está a fazer com que a população possa aumentar."

Globalmente, em 2025, o aumento da população do país resultou do facto de o saldo migratório positivo, de 70.862 pessoas, ter compensado o saldo natural negativo, de -34.053, revela o INE.

Temos menos filhos. Mas, ainda assim, são as mulheres imigrantes que têm mais filhos

Os níveis de fecundidade baixos "não são um exclusivo nacional", diz Maria João Valente Rosa. "Costumo dizer que o maior contracetivo que existe é o desenvolvimento. As sociedades mais desenvolvidas são sociedades onde os níveis de fecundidade andam abaixo do tal limiar de substituição de gerações". Isto é algo que está estudado há muito e que tem razões muito diversas. 

Mas associado a isto há uma outra situação que está a dificultar também que os nascimentos sejam mais, diz: "As mulheres que estão a chegar ao período fértil nasceram já em fases de descendências reduzidas. Ou seja, as mulheres que estão no período fértil já são menos que as suas mães. E, portanto, mesmo que elas tenham mais filhos que as suas mães, o que vai acontecer é que essa compensação não acontece de um momento para o outro".

Em 2025, o número de nascimentos registou um aumento de 3.122 em relação ao ano anterior. Desses, apenas 9 nasceram de mães portuguesas

Dito isto, é preciso perceber que "a natalidade, leia-se o número de nascimentos, tem sido baixa, ou seja, nós passámos abaixo da fasquia dos 90 mil por ano, mas os nascimentos poderiam ainda ser menos se não contássemos com o contributo das populações de nacionalidade estrangeira", explica Maria João Valente Rosa.

"Grande parte das migrações são de tipo laboral e, por isso, concentram-se nas idades ativas, que são também, por sua vez, as idades mais férteis", diz. "Isso quer dizer que, por um lado, as pessoas que emigram, que saem do país, estão na idade fértil e vão ter filhos noutro país. Mas, por outro lado, em Portugal, são as mulheres imigrantes que estão a compensar essa falha."

Em 2025, o número de nascimentos registou um aumento de 3.122 em relação ao ano anterior. "Sendo que, desse aumento, apenas 9 crianças nasceram a mais cujas mães tinham a nacionalidade portuguesa. Portanto, a grande responsabilidade por esse aumento foi nascimentos cujas mães, residentes em Portugal, tinham nacionalidade estrangeira", explica a socióloga. 

No ano anterior, ou seja, de 2023 para 2024, os nascimentos diminuíram. "E diminuíram em cerca de mil, mais ou menos. Mas teriam diminuído muito mais se não fosse o contributo dos nascimentos cujas mães têm nacionalidade estrangeira. Porque os nascimentos cujas mães têm nacionalidade portuguesa diminuíram em cerca de 4.500. E nas mães de nacionalidade estrangeira, o aumento de nascimentos em relação ao ano anterior, foi de cerca de 3.400", sublinha a especialista.

Portanto, seja pela natalidade, seja pela imigração, de facto, estes 11,4 milhões de residentes, este aumento deve-se muito à entrada e à presença de imigrantes no país. "De acordo com estes novos óculos, ao longo destes últimos anos, de 2021 a 2025, a população portuguesa tem vindo a aumentar e esse aumento, embora de uma forma cada vez mais desacelerada, tem a ver com saldos migratórios positivos", conclui.

Vamos continuar a envelhecer. Isso é um problema?

Maria João Valente Rosa é taxativa na resposta: "O envelhecimento não é um problema. Ainda bem que estamos a envelhecer. Eu não quero voltar a um país como aquele onde eu nasci, nos anos 60, que era, pelas piores razões, o menos envelhecido da Europa. Porque era um país com a mortalidade elevadíssima, a mortalidade infantil era elevadíssima, as pessoas não tinham hipóteses, muitas delas nem chegavam às idades centrais, quanto mais às idades superiores. Era uma população muito pouco instruída. As mulheres ocupavam um papel diferente. A desigualdade entre sexos era brutal.  A pobreza era enorme. A criança servia muito como segurança na velhice e como mais um bracinho para trabalhar. Portanto, tinha um valor económico incrível."

Nesse país, a natalidade era mais elevada, mas a mortalidade também era elevada, portanto, o país era pouco envelhecido. E, no entanto, como diz a socióloga, este "é um filme que não queremos voltar a ver". "Se o problema está no envelhecimento, eu digo, bem, meus senhores, então não estamos a perceber o filme. Porque se querem deixar de envelhecer, isso significa um retrocesso social enorme. Vejamos bem onde é que nos estamos a meter, que palavras é que estamos a usar e que compromissos queremos assumir", alerta.

Entre 2021 e 2025, a proporção de jovens até aos 14 anos baixou de 13% para 12,4%

Em 2025, o índice de envelhecimento atingiu o valor de 188,8 idosos por cada 100 jovens (era de 178,3 em 2021). O INE fala de um "envelhecimento estrutural da população". Entre 2021 e 2025, a proporção de jovens até aos 14 anos baixou de 13% para 12,4%, enquanto o peso das pessoas com 65 ou mais anos se manteve estável, nos 23%.

"Aquilo que sabemos é que, a médio prazo, os nascimentos não vão aumentar e nós, até 2040, 2045, vamos continuar a crescer porque vamos, de uma forma praticamente inelutável, continuar a envelhecer", diz Maria João Valente Rosa.

E porque é que vamos continuar a envelhecer?

"As pessoas que nasceram em períodos de natalidade elevada, até finais dos anos 70, que eram gerações muito numerosas, passaram a beneficiar de algo muito interessante, que é uma mortalidade muito baixa, e passaram a ter hipótese de viver mais tempo. No passado, as pessoas acabavam por morrer e nem chegavam às idades superiores. Agora não. Chegam às idades superiores e ainda vivem lá mais tempo do que viviam os seus pais e os seus avós", começa por explicar Maria João Valente Rosa.

Ora, essas gerações muito numerosas, já entraram ou estão a entrar nas idades avançadas. "A população acima dos 45 anos, que é aquela que progressivamente vai entrando nas idades superiores, é muito numerosa. Portanto, não vamos deixar de envelhecer. Isto quer dizer que, pelo menos até 2040, 2045, nós vamos continuar a envelhecer."

"Aquilo que sabemos é que, a médio prazo, os nascimentos não vão aumentar, mais, e nós até 2040, 2045, vamos continuar a crescer porque vamos, de uma forma praticamente inelutável, continuar a envelhecer"

Isto é aquilo que os demógrafos chamam o efeito da inércia demográfica, "que é aquela onda que vem de trás". "É claro que os níveis de envelhecimento podem ser mais acentuados ou menos acentuados, mas irão continuar. Não conseguimos travar esse processo", conclui. "As migrações, pelo papel que têm nas idades centrais, contribuem de algum modo para atenuar, não é para evitar, é para atenuar os níveis de envelhecimento. Porque ao entrarem pessoas para as idades centrais, as idades superiores podem diminuir o seu peso relativo estatístico e por isso ajudam a que o envelhecimento não seja tão intenso. Mas que ele vai continuar, vai."

Apesar de tudo, a idade mediana da população residente em Portugal é de 45,8 anos (era de 46,1 anos em 2021). "O envelhecimento demográfico em Portugal continuou a acentuar-se, ainda que atenuado pelo reforço relativo da população em idade ativa", escreve o INE. 

"Ao longo do período em análise, o índice de renovação da população em idade ativa, que corresponde ao número de pessoas dos 20 aos 29 anos por cada 100 pessoas dos 55 aos 64 anos, permaneceu abaixo do limiar de substituição (100), indicando que o número de pessoas em idade potencial de entrada no mercado de trabalho é insuficiente para compensar o número de pessoas em idade potencial de saída de mercado de trabalho", descreve o INE. "Ainda assim, o aumento deste índice, de 81 em 2021 para 89,7 em 2025, sugere uma ligeira melhoria na capacidade de renovação geracional da população em idade ativa associada à entrada de população mais jovem, nomeadamente por via dos fluxos migratórios."

Imigração: "Estamos em risco é se nos fecharmos sobre nós próprios"

"Entre 2021 e 2025, os residentes estrangeiros mais do que duplicaram, correspondendo a um aumento de 849.384 pessoas (mais 6,9 pontos percentuais). Os aumentos mais expressivos ocorreram nos anos de 2022, 2023 e 2024", lê-se no destaque do INE.

Pelo que se viu até aqui, é fácil perceber que o aumento da imigração não é, em si, um problema do ponto de vista demográfico. Pelo contrário. Os imigrantes contribuem, de várias formas, para o rejuvenescimento da população portuguesa, diz Maria João Valente Rosa. "Há quem diga que as pessoas estão cá para tomarem o poder e por isso é que nós, como população, estamos em risco. Nada disso. Nós estamos em risco é se nos fecharmos sobre nós próprios pela razão que eu acabei de dizer há pouco,. Sem imigrantes corríamos o risco de nos extinguirmos porque seríamos cada vez menos e o saldo natural seria cada vez mais negativo, portanto nós precisamos de nos abrir para existir, essa é a verdade".

"Sem imigrantes, teríamos um país ainda mais envelhecimento, com uma economia mais frágil e com muito mais pressão sobre a segurança social"

Além disso, os imigrantes têm um papel importante quer a nível social quer a nível económico. "Todos nós, se sairmos à rua, todos nos confrontamos, todos os dias, com alguém de nacionalidade estrangeira que se cruza connosco, e essas pessoas estão a prestar serviços que são essenciais - não estou a falar só de serviços de luxo, estou a falar de serviços muitas vezes básicos, nomeadamente o apoio a pessoas que precisam de cuidados, na saúde, na restauração, no turismo, na agricultura, na construção, etc.", diz. "Acho que seria um pesadelo para todos imaginarmos que de um dia para o outro acordávamos e nenhum desses estrangeiros estava cá. Como é que resolveríamos isso? São funções, muitas vezes, altamente exigentes. E não há cidadãos nacionais para cumprir essas funções, ou porque não querem ou porque não há, sobretudo em algumas regiões. Os imigrantes não estão a tirar emprego a ninguém. Isso é um equívoco."

"Temos uma visão muito distorcida e perigosa da realidade migratória", diz a demógrafa, alertando para o perigo de se criarem "bodes expiatórios", em vez de se tentar resolver os problemas que efetivamente existem. "Sem imigrantes, teríamos um país ainda mais envelhecimento, com uma economia mais frágil e com muito mais pressão sobre a segurança social", contrapõe.

A idade mediana da população residente em Portugal baixou devido aos imigrantes: é agora de 45,8 anos

"Há diferenças culturais, claro, mas é preciso que todos pensemos o que é necessário, quais são os fatores mínimos e desejáveis para que todos passemos a sentir-nos bem dentro do país que habitamos É importante pensar nesta questão da integração bem-sucedida e partilhando princípios civilizacionais que têm mesmo que ser partilhados. Não podemos abrir mão de certos princípios civilizacionais e isso é muito importante, quer para quem cá está, quer para quem cá vem. E a partir daí construímos juntos esta sociedade."

Os grandes desafios: segurança social e saúde

O envelhecimento da população coloca problemas na sustentabilidade da segurança social e no SNS, porque nós vivemos mais tempo, vamos precisar de pensões e vamos ter mais doenças, como é óbvio. Portanto, temos é que nos adaptar a esta nova realidade, diz a socióloga. "O envelhecimento está cá. E agora a questão é: temos estruturas que foram montadas para uma sociedade que era uma cidade não envelhecida, que se baseia no modelo de repartição, que pressupõe uma substituição de gerações. E aquilo tudo funcionava no passado. Só que o passado passou, nós já não estamos nesse ponto. Agora, precisamos de repensar a segurança social", diz Maria João Valente Rosa. "Mas isso ninguém faz. Estamos só a encontrar paliativos."

A saúde enfrenta um problema semelhante. "Hoje, os problemas de saúde são bem diferentes dos problemas do passado. Nomeadamente, o facto de as pessoas, com a idade, irem acumulando comorbilidades. Ou seja, antigamente tínhamos uma doença e morríamos dela. Hoje temos uma doença e já não morremos dela, felizmente. Mas vamos acumulando comorbilidades. E o sistema tem de se adaptar a esta nova situação, tem de haver uma visão mais integrada dos vários problemas de saúde. Mesmo em termos de cuidados primários, cuidados de proximidade, etc., tudo tem de se adaptar às novas realidades."

O problema, diz a especialista, "é que nós não temos coragem de fazer uma reflexão a fundo sobre as mudanças necessárias que esta sociedade precisa para se adaptar aos novos tempos. E continuamos a adotar soluções antigas que funcionavam bem no passado e que cada vez funcionam menos bem no presente."

Segundo o cálculo, 50% das crianças que nascem hoje em Portugal têm hipótese de ultrapassar a barreira dos 100 anos com sucesso. Portanto, são tempos de vidas longas."

Maria João Valente Rosa recorda as palavras de Jean-Claude Juncker, ex-comissário europeu, quando dizia que todos sabemos o que é preciso fazer, só não sabemos como ser reeleitos depois de o fazer. "O que vejo no nosso país é que, independentemente dos governos, o que está sempre em cima da mesa do ponto de vista de reflexão é ou as eleições próximas ou então o tentar dizer que o problema está nos outros. Os outros podem ser a demografia, que tem as costas largas, são os que vêm de fora, os imigrantes, que também têm as costas larguíssimas, e são uma série de outros aspetos que parece que não dependem de nós. E então, continuamos a usar essas desculpas e continuamos sem fazer uma reflexão em profundidade", critica.

"Temos de fazer esta reflexão estratégica, porque nós estamos a desaproveitar os recursos que temos, nomeadamente, por exemplo, o facto de estarmos a viver mais tempo em média, portanto, estarmos a entrar num tempo de vidas longas. Segundo o cálculo, 50% das crianças que nascem hoje em Portugal têm hipótese de ultrapassar a barreira dos 100 anos com sucesso. Portanto, são tempos de vidas longas. E isto é muito bom se soubermos aproveitar as vidas longas. Não nos interessa só esticar tempos de vida. O que eu quero é esticar tempos de vida com qualidade."

Vidas longas pedem um novo pensamento estratégico: uma proposta de ação

Na opinião de Maria João Valente Rosa, este é o momento para "aproveitar esta oportunidade de termos novos dados sobre o país para começarmos a pensar o país de raiz, sem compromissos com aquilo que nós continuamos a manter sem razão de ser, a não ser com medo de perder as próximas eleições, ou pelo mero comodismo ou também por mera ignorância". 

Estes dados agora conhecidos têm implicações em múltiplos outros setores que ainda não foram aqui nomeados - desde a educação à habitação passando pelo emprego, pela fiscalidade e por toda a economia - e, diz a especialista, "não podemos pensar nestes setores de uma forma desarticulada, segmentada. Os assuntos estão ligados. É preciso pensar a sociedade como um todo e não como um conjunto de pessoas, em que este encaixa ali, o outro encaixa aqui. A sociedade tem de ser pensada como um todo."

E, como um todo, por onde começar? A socióloga propõe começar por pensar no modelo do ciclo de vida.

"Temos um modelo de ciclo de vida que está completamente obsoleto. É aquele modelo tripartido: uma fase de formação, uma fase de trabalho, trabalho, trabalho e, depois, uma fase de reforma. Como se o envelhecimento não fosse um processo contínuo, como se nós não precisássemos de formação ao longo da vida, como se a partir dos 45 anos já fôssemos velhos e já não pudéssemos mudar de emprego. Isto é um desperdício de capital humano brutal. No passado, as competências eram muito ligadas à força física, mas atualmente as competências são mais soft skills e wisdom skills, portanto competências associadas ao saber. Vidas longas pedem carreiras mais longas, mas não são as carreiras como as temos agora, têm de ser adaptadas a este processo contínuo"

"As vidas são mais longas, e por isso precisamos de, por um lado, se calhar não trabalhar tanto nas idades centrais, mas prolongar a atividade por mais tempo", diz a socióloga

Isto quer dizer que a formação é essencial para nos irmos atualizando. A mudança é importante. O facto de começarmos com uma atividade e acabarmos nessa mesma atividade é uma coisa completamente bizarra, porque a pessoa vai evoluindo ao longo da vida. E à medida que a pessoa envelhece também precisa de adaptar o seu trabalho, não se pode esperar que uma pessoa faça a mesma coisa da mesma maneira aos 25 anos e aos 40 e aos 60 anos. O mercado de trabalho tem de estar preparado para acolher e apoiar estas mudanças. Em vez de descartar as pessoas com 50 anos poderíamos estar a aproveitar todo o seu potencial e experiência, diz a socióloga. 

"Por exemplo, 70 anos é a idade compulsória da reforma na Administração Pública. Ou seja, no dia anterior era uma interessantíssima e válida, no dia seguinte fecharam-lhe as portas. Esse decreto que marcou 70 anos com uma idade compulsória, faz este ano, 100 anos, data de 1926. Não há qualquer semelhança entre a sociedade de 1926 e a sociedade de 2026, até porque também eram poucos que chegavam aos 70 em 1926. Mas nós continuamos com a mesma lei", diz Maria João Valente Rosa. "Isto é um indicador, mas existem tantos."

A atividade não é só uma fonte de rendimento. A atividade pode ser uma fonte de realização pessoal e uma fonte de interação social, que é essencial para as nossas vidas, porque depois instala-se a solidão e vêm todas as questões de saúde mental."

"As vidas são mais longas, e por isso precisamos de, por um lado, se calhar não trabalhar tanto nas idades centrais, mas prolongar a atividade por mais tempo. Mas de maneira diferente, porque quando nós chegamos aos 60 já estamos fartos de fazer aquilo que fazíamos quando começámos e adorávamos. Acho que todos sairíamos felizes, todos seríamos muito melhores a trabalhar e não teríamos aqueles níveis de produtividade baixíssimos", afirma. "Porque a atividade não é só uma fonte de rendimento. A atividade pode ser uma fonte de realização pessoal e uma fonte de interação social, que é essencial para as nossas vidas, porque depois instala-se a solidão e vêm todas as questões de saúde mental."

"Mas para isso é preciso mexer com a educação, a escola, repensar o modelo de trabalho, a questão da saúde tem de estar obrigatoriamente aqui envolvida. E fazermos aqui um match entre estas várias frentes. Encontrar novas formas de nos organizarmos em sociedade e novas estratégias para todos acabarmos por ficar a ganhar, independentemente da idade que tenhamos. Parece que andamos sempre a olhar pelo espelho retrovisor e a ver como as coisas eram. Mas temos que olhar para a frente."

Para isto, Maria João Valente Rosa defende a criação de um Conselho para as Vidas Longas, um conselho transversal, que não dependesse de ciclos eleitorais, para pensar a sociedade há 20 anos. "Sei que muitos de nós já cá não estarão, mas isso não interessa. Interessa é tornar a sociedade sustentável. Porque a demografia não é só números, ao contrário do que algumas pessoas pensam. É pensarmos como é que conseguimos viver todos juntos e viver melhor."

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