Casa em Pompeia expõe a realidade das classes mais baixas - mas ainda é um mistério quem ali vivia

24 ago, 11:42

Descobertas arqueológicas recentes traçam o retrato de "uma classe vulnerável" que "também ambicionava escalar socialmente" - e provam inesgotáveis os segredos de uma cidade romana próspera, que ficou soterrada após a erupção do Vesúvio

A cidade de Pompeia permaneceu preservada durante milénios sob as cinzas do Vesúvio. As escavações das últimas décadas têm desenterrado as histórias dos habitantes do Império Romano, centradas sobretudo no quotidiano sumptuoso das classes sociais elevadas: frescos, termas, carruagens cerimoniais. As mais recentes descobertas ajudam a desvendar aquela que terá sido a experiência da classe média/baixa - a maioria da população, portanto, mas também a menos frequentemente representada nas descobertas arqueológicas da cidade. 

As novidades foram anunciadas pelo Parque Arqueológico de Pompeia este mês mas tudo começou com a descoberta de uma habitação em 2018. Recebeu, na altura, o nome de "Casa do Larário", por conter no pátio uma divisão dedicada à adoração de espíritos domésticos conhecidos como "lares". A área exterior dispunha ainda de uma cisterna cuidadosamente decorada. 

"Evidentemente, os recursos económicos não foram suficientes para decorar as cinco divisões da casa", notou Gabriel Zuchtriegel, o diretor do Parque Arqueológico, após novas escavações terem revelado uma habitação mais modesta do que o esperado. 

A cidade de Pompeia ficou parada no tempo - e a casa não é exceção. Uma das divisões, uma espécie de armazém, apresenta-se exatamente como foi deixada pelos habitantes, com paredes por pintar e chão de terra batida. Num dos quartos foi encontrada a armação de uma cama, de formato semelhante a um berço, que parece ser idêntica a outras três camas de uma família de escravos descobertas no ano passado. 

Destaca-se ainda a descoberta de um baú de madeira com a tampa aberta, parcialmente danificado pela explosão vulcânica. O conteúdo do interior foi, porém, recuperado - incluindo um candeeiro a óleo com o retrato de uma divindade a transformar-se em águia. Perto do baú, repousava uma pequena mesa de três pernas. 

A disparidade de objetos encontrados, alguns mais valiosos do que outros, realça uma estranha dicotomia: um pátio encantador em contraste com um interior modesto; utensílios e móveis simples coexistindo com vasos de bronze e objetos decorativos. Na rígida sociedade de classes do Império Romano, o templo no pátio e os ocasionais bens valiosos parecem ser meras "aspirações" e não um retrato fiel da realidade de quem lá habitava. 

"Havia uma grande parte da população que passava dificuldades devido ao seu estatuto social, e para quem uma refeição diária não era um dado adquirido", explicou Zuchtriegel. "Era uma classe vulnerável durante as crises políticas e épocas de fome, mas que também ambicionava escalar socialmente." 

A identidade dos residentes da "Casa do Larário" é ainda um mistério - e, tendo em conta o seu provável estatuto social, assim deve permanecer. "Não sabemos quem viveu ali, mas a vida agradável do pátio era mais provavelmente uma ambição do que a realidade do quotidiano", apontou o arqueólogo. No final, as ambições destes residentes ficaram eternamente interrompidas no ano de 79, consumidas por nuvens de cinza e gás vulcânicos, tal como toda a cidade de Pompeia.

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