Cientistas identificam uma nova espécie de polvo azul minúsculo que cabe na palma da mão

CNN , Avni Trivedi
15 ago, 16:00
polvo azul minúsculo
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Cientistas anunciaram a descoberta de uma espécie de polvo até então desconhecida, encontrada nas ilhas Galápagos, e que certamente vai chamar a atenção. O animal, que apresenta corpo azulado e olhos grandes, cabe entre a base da palma da mão e a primeira articulação do dedo médio

Em 2015, um robô subaquático operado remotamente captou o pequeno polvo azul a deslocar-se nos sedimentos, a cerca de 1.773 metros abaixo da superfície.

Do navio, à superfície, um dos membros da tripulação comparou o animal a um peluche.

“É ou não é um bichinho adorável?”, disse outro membro da tripulação, que pode ser ouvido nas imagens de vídeo que documentam a descoberta dos investigadores.

Questões burocráticas e logísticas atrasaram o processo de investigação do animal - um cefalópode fêmea -, apesar de a tripulação a bordo do E/V Nautilus o ter descoberto há mais de uma década, em colaboração com a Fundação Charles Darwin e a Direção do Parque Nacional das Galápagos. O polvo só chegou ao Field Museum, em Chicago, em 2022.

Num estudo publicado a 24 de maio na revista Zootaxa, Janet Voight, curadora emérita de invertebrados no Field Museum, identificou o polvo como uma espécie até então desconhecida: Microeledone galapagensis.

Voight mostrou-se hesitante em realizar uma dissecação extensa quando começou a estudar o pequeno animal.

O polvo tinha sido preservado em formaldeído, que interrompe a decomposição. No entanto, como o espécime tinha ovos grandes nos ovários, o formaldeído não conseguiu penetrar totalmente em todo o animal, deixando os seus tecidos relativamente delicados.

“Se fizermos um corte errado ou rasgarmos alguma coisa, perde-se para sempre”, afirmou Voight. “O custo de ir para o mar é simplesmente astronómico, e as probabilidades de encontrar outro exemplar e conseguir recolhê-lo com sucesso não são propriamente elevadas.”

Recorrendo a um aparelho de tomografia computorizada, os investigadores conseguiram criar um modelo 3D de uma espécie de polvo recém-descoberta. (Fundação Charles Darwin)

Depois de consultar outros especialistas, decidiu utilizar o tomógrafo recém-adquirido pelo Field Museum para observar melhor a anatomia do animal, mantendo o espécime intacto.

Milhares de imagens obtidas por raios X foram compiladas digitalmente para criar um modelo 3D que permitiu a Voight determinar em que ponto da árvore filogenética o animal se insere.

Um polvo fora do comum

Os polvos são criaturas fascinantes, afirmou Jim Barry, cientista sénior do Monterey Bay Aquarium Research Institute, na Califórnia, que não participou no estudo.

“São muito diferentes da maioria dos outros organismos”, afirmou Barry. “O sistema nervoso dos polvos é mais complexo do que o de qualquer animal invertebrado na Terra, por isso talvez seja essa a razão pela qual conseguem agir de determinadas formas ou apresentar comportamentos que são tão cativantes para nós.”

Existem mais de 300 espécies, com diferentes tamanhos, formas e cores.

“Quando se pensa num polvo, imagina-se um animal com tentáculos compridos”, afirmou Voight. “Não é o caso deste aqui.”

Voight identificou o polvo como pertencente ao género Microeledone, que conta com apenas uma outra espécie: Microeledone mangoldi. Ambas pertencem à família de polvos Megaleledonidae. A M. mangoldi foi descrita pela primeira vez em 2004, após ter sido descoberta no sudoeste do oceano Pacífico, perto da Nova Caledónia, uma ilha situada a leste da Austrália.

A M. galapagensis partilha muitas características com o outro membro da sua família, como pele lisa, grandes órgãos em forma de funil, ausência de pigmentação na zona do manto - o grande saco situado atrás da cabeça - e quantidades semelhantes de ventosas nos braços e de lamelas branquiais. As lamelas branquiais são placas finas de tecido no interior das brânquias que permitem aos organismos absorver mais oxigénio.

No entanto, esta espécie distingue-se pela coloração no revestimento das paredes superiores ou posteriores do manto, enquanto a M. mangoldi apresenta coloração nas bainhas que cobrem os próprios órgãos.

Voight observou que a capacidade destas espécies para ocultar presas bioluminescentes ingeridas pode ser um exemplo de adaptação convergente, ou seja, do desenvolvimento independente de características semelhantes, sugerindo que “seguiram caminhos distintos até às profundezas do oceano”.

O facto de a M. galapagensis, encontrada nas Galápagos, parecer estar intimamente relacionada com a M. mangoldi, encontrada na Nova Caledónia, “diz-me que o seu antepassado comum deve ter vindo de algum lugar entre as duas regiões”, afirmou Voight. “Portanto, existe uma ligação comum, e devemos esperar encontrar mais animais que revelem essa ligação.”

A importância das espécies recém-descobertas

Esta descoberta e a procura contínua de espécies novas para a ciência permitiram aos investigadores compreender melhor o fundo do mar, do qual os exploradores observaram menos de 0,001%, segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA).

“Simplesmente não sabemos o suficiente sobre a biodiversidade das profundezas do oceano de modo geral”, afirmou Barry, “por isso, à medida que descobertas como esta continuam a surgir em cada mergulho, é possível encontrar algo novo que nunca antes visto.”

As ilhas Galápagos, situadas ao largo da costa do Equador, são conhecidas por serem o único habitat de mais de mil espécies de plantas e animais. Com mais de 20% da vida marinha da região encontrada exclusivamente naquele local, as ilhas apresentam alguns dos níveis mais elevados de endemismo, ou seja, de espécies que vivem apenas numa única localização geográfica.

O fundo do oceano apresenta igualmente elevadas taxas de endemismo; possui vastas planícies, vales profundos e cadeias montanhosas, que podem abrigar uma grande biodiversidade.

“As Galápagos são muito especiais em termos da biodiversidade e das condições físicas locais, bem como dos processos biológicos que deram origem a um conjunto de espécies verdadeiramente único”, afirmou Barry, “mas esses mesmos processos podem dar origem a comunidades de animais em águas profundas sobre as quais ainda sabemos muito pouco.”

Explorar as profundezas do oceano é importante porque reforça a compreensão científica sobre a biodiversidade do nosso planeta e revela serviços ecossistémicos dos quais dependemos, como a reciclagem de nutrientes e a regulação climática. No entanto, segundo Barry, o fundo do mar não está imune às ameaças que afetam as espécies em terra.

“As alterações climáticas estão a chegar ao mar profundo”, afirmou Barry. “Isso está a alterar alguns sistemas e ecossistemas de águas profundas antes mesmo de sabermos realmente o que lá existe.”

Barry atribui mérito a taxonomistas como Voight, que continuam a descrever espécies de animais recém-descobertas em todo nas profundezas oceânicas, por acompanharem o “acumular de espécies desconhecidas” e disponibilizarem essa informação ao público.

“Isso permite-nos, esperamos nós, ter uma melhor ideia da evolução dos animais do mar profundo”, afirmou Voight sobre a descoberta da M. galapagensis, “e saber com quem partilhamos o planeta.”

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