Míssil em território polaco? "Acontece muitas vezes" e "pode acontecer mais vezes". Explicamos como

16 nov, 18:00
Veículo do exército polaco conduz até ao local onde caiu um míssil ucraniano (AP Photo/Evgeniy Maloletka)

Parece uma situação inusitada, mas os especialistas contactados pela CNN Portugal referem que não é assim tão raro quanto isso

Os primeiros relatórios da análise preliminar do incidente que ocorreu esta terça-feira na Polónia indicam que, afinal, o míssil que atingiu o território é ucraniano e não russo, depois de inicialmente ter sido apenas avançado que se tratava de um míssil de fabrico russo. Ainda assim, há dúvidas que ficam por esclarecer, como o que explica que um míssil antiaéreo ucraniano tenha resvalado para o território vizinho, provocando duas mortes.

Parece uma situação inusitada, mas, de acordo com o major-general João Vieira Borges, que comandou o Regimento de Artilharia Antiaérea n.º1 (Queluz) no Exército, o que se passou na Polónia não terá sido mais do que um “efeito colateral da guerra que acontece muitas vezes”. Mas vamos por partes.

Importa perceber primeiro como funciona a defesa antiaérea, que está localizada no solo, mas "tem olhos", que são radares e monitores de previsão futura. Ora, são esses radares que detetam os mísseis que se aproximam do território - no caso, o território ucraniano - e que transmitem diretamente a informação ao posto de comando, onde se encontram os respetivos monitores. Com base nessa informação, o posto de comando estuda a trajetória do alvo e "dá ordem de tiro" de uma arma antiaérea para que se encontre num "ponto de interseção" com o alvo a atingir, destruindo-o.

No caso, a defesa antiaérea ucraniana terá disparado um míssil S-300, desenvolvido pela União Soviética durante a década de 70 e que tem sido utilizado tanto por russos como por ucranianos neste conflito, o que pode causar alguma confusão sobre a sua origem.

"Quando um míssil destes cai não é imediato saber se se trata de um míssil ucraniano ou de um míssil disparado pela Federação Russa. Só uma análise minuciosa permite chegar a uma conclusão", explica o major-general Arnaut Moreira, contactado pela CNN Portugal.

Face a esta confusão, há dois cenários que podem explicar o sucedido, de acordo com o major-general João Vieira Borges: tratando-se de um míssil disparado pela Rússia, este pode ter sido desviado, percorrendo uma “trajetória irregular” que fez com que caísse no território polaco; o segundo cenário, que o especialista considera "o mais provável", é que o míssil antiaéreo ucraniano tenha falhado a interseção com o míssil russo e desviado a trajetória, acabando ele próprio por cair no território polaco.

“Quando um míssil falha a interseção, não é possível ser controlado. É perfeitamente plausível e penso que esse é o cenário mais provável. Não há aqui qualquer intenção, acontece”, defende acrescentando que este parece ter sido “um problema mais técnico do que de dimensão política”.

Questionado sobre como este míssil pode ter chegado ao território polaco, o major-general Arnaut Moreira aponta que os mísseis S-300 "têm uma capacidade de intervenção de muitos quilómetros, uma autonomia e uma distância de atuação muito grande". Logo, argumenta, "não parece estranho que um míssil S-300 disparado contra uma plataforma aérea acabe por cair na Polónia". "Até porque nós não sabemos qual foi exatamente o alvo que foi designado, isto é, para onde é que este míssil russo se dirigia. Até podemos especular que ele se poderia dirigir para uma região bastante próxima da fronteira polaca", sublinha ainda.

De acordo com o major-general João Vieira Borges, "estes incidentes acontecem" nos conflitos armados e "podem vir a acontecer mais vezes". É comum, contudo, que acabem por cair em zonas florestais das fronteiras, por exemplo, sem que provoquem vítimas. 

Para Arnaut Moreira, porém, estes incidentes são imprevisíveis numa guerra que "tem características quase únicas no nosso tempo". "Nunca na Europa encontrámos em confronto nações com o potencial de combate como aquelas que encontramos agora. Estes dois países têm um armamento do mais sofisticado que existe em todo o mundo. Não temos capacidade de fazer uma comparação com qualquer outro conflito dos tempos modernos."

Uma coisa é certa, sublinha o major-general Arnaut Moreira: "Este incidente ocorreu porque existe um ataque maciço por parte das forças russas ao território ucraniano. A responsabilidade moral pelo que aconteceu não é da Ucrânia - foi a Rússia que, com este ataque maciço de vetores aéreos sobre o território ucraniano, obrigou a Ucrânia a defender-se e, infelizmente, uma das interseções eventualmente falhadas conduziu à explosão de mísseis em território polaco."

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