"Acabaram-se os líderes que dizem verdades incómodas mas que inspiram através da integridade e não da conveniência"

2 jun 2025, 18:00
 Karol Nawrocki

A vitória do candidato nacionalista conservador nas presidenciais da Polónia, Karol Nawrocki, prova que as eleições "já não servem para moldar um sentido de comunidade partilhada". A política hoje "é um canal para descarregar a frustração em relação aos que estão no poder – um teatro de desilusão e não de deliberação". E isso é verdade "quer vivamos na Polónia, em Portugal ou em França"

Foi uma corrida renhida até ao fim num país dividido a meio. Há alguns dias, em entrevista à CNN Portugal, o analista polaco Pawel Zerka, do European Council on Foreign Relations (ECFR), tinha ressaltado que havia muito em jogo na ida às urnas de domingo na Polónia, para a segunda e última volta das eleições presidenciais – e não apenas para o país. 

Em particular, disse Zerka numa passagem por Lisboa para falar na Fundação Gulbenkian sobre “o efeito de Trump na UE”, os resultados do plebiscito no seu país-natal iam ajudar a perceber se a “ofensiva de Trump contra a Europa” estava ou não a “sair pela culatra”. E contabilizados os votos, estão dissipadas as dúvidas – ainda que alguns analistas não considerem que a visita da secretária de Segurança Nacional dos EUA para apoiar formalmente Karol Nawrocki, dias antes da votação, tenha feito diferença no resultado final.

“Não creio que as visitas de funcionários estrangeiros para apoiar o candidato do partido Lei e Justiça (PiS) tenham sido decisivas”, diz à CNN Małgorzata Zachara-Szymańska, especialista em Relações Internacionais da Universidade Jaguelónica, em Cracóvia. “Afinal, no último comício de Rafał Trzaskowski [o centrista derrotado], o recém-eleito presidente da Roménia chegou para o apoiar, exortando os polacos a ‘tornarem-se a próxima Roménia’ e, bom… não resultou.”

Depois de uma primeira volta renhida, na qual ficou em segundo lugar, Nawrocki, o nacionalista conservador apoiado pelo PiS – e pela administração de Donald Trump –, foi eleito presidente da Polónia este domingo. A vantagem em relação ao rival – Rafał Trzaskowski, autarca de Varsóvia pró-UE apoiado pela Coligação Cívica do primeiro-ministro, Donald Tusk – foi inferior a 2% dos votos. Ou seja: apenas 300 mil votos fizeram a balança pender a favor do historiador de 42 anos com um passado duvidoso.

“As condições sociais transformaram as eleições em algo que já não se centra em candidatos individuais, mas sim em visões do mundo simplificadas que os eleitores projetam num determinado político ou partido”, considera Zachara-Szymańska. “No caso da Polónia, Karol Nawrocki obteve a vitória não pelo seu apelo pessoal ou reconhecimento público – é relativamente desconhecido do eleitorado – mas porque tinha o apoio total de uma poderosa máquina política e mediática. Esta foi uma vitória do PiS, não do próprio Nawrocki.”

Karol Nawrocki venceu por uma diferença mínima foto Getty

Era tanto o que estava em causa nestas eleições que a participação bateu recordes, aproximando-se dos 73% na segunda volta. E no contexto desta nova “natureza das eleições”, o plebiscito acabou por marcar uma mobilização-recorde mais “para bloquear um candidato do campo oposto” do que para eleger um presidente no qual uma maioria dos eleitores se revê, adianta a analista polaca.

Se tivesse sido Trzaskowski a vencer com a mesma margem, a vitória do europeísta seria considerada um sucesso apenas “em termos de continuidade política da Polónia e do seu alinhamento com o Ocidente”, mas “ele não teria um verdadeiro mandato para governar” porque “metade do país continuaria zangado e com medo”. A diferença é que essa metade corresponderia “àqueles que votaram em partidos populistas ou de extrema-direita, que veriam a sua frustração aumentar, convencidos de que o partido que apoiaram devia estar no poder”, e não aos que, esta segunda-feira, acordaram frustrados e com medo por terem agora Nawrocki como chefe de Estado. 

“Estamos todos numa posição semelhante, quer vivamos na Polónia, em Portugal ou em França”, adianta Małgorzata Zachara-Szymańska. “Quando, na manhã a seguir a uma eleição, uma grande parte da população está não só desiludida mas também furiosa e/ou assustada, é sinal de que o processo democrático não está a conseguir criar um quadro estável. Já não serve para moldar um sentido de comunidade partilhada – uma sociedade que se sente segura consigo própria e entre si.”

As reformas que o primeiro-ministro polaco, Donald Tusk (à esquerda), tem tentado implementar nos últimos dois anos sem sucesso deverão continuar a ser bloqueadas pelo novo presidente após a derrota de Rafał Trzaskowski (à direita), o candidato centrista pró-UE que a Coligação Cívica de Tusk apoiou foto Czarek Sokolowski/AP

A uma semana da segunda volta, e uma semana depois da segunda, Zachara-Szymańska tinha defendido à CNN Portugal que a derrota de Rafał Trzaskowski significaria que “a grande mobilização de 2023”, que expulsou o PiS do poder após oito anos de governação, teria sido “efetivamente anulada”, antevendo que o sistema político polaco ficaria “mais desestabilizado” e que o país entraria “numa espiral de conflitos e lutas de poder desnecessárias, desperdiçando tempo, energia e potencial”.

Essa desestabilização começa pelas reformas que Donald Tusk tem tentado aprovar sem sucesso desde que foi eleito primeiro-ministro há dois anos, nomeadamente para reverter as estritas leis antiaborto implementadas pelo PiS e legalizar as uniões civis de casais da comunidade LGBT, a par de repor a separação total de poderes e a independência do judiciário.

À luz dos resultados finais, e questionada sobre o impacto da vitória de Karol Nawrocki na Polónia e no resto da UE, a analista invoca uma “grande incógnita”, também no contexto do que pode vir a diferenciar o futuro chefe de Estado do presidente que agora cessa funções. 

“Até agora, Karol Nawrocki tem sido um cliente do PiS, pelo que é razoável esperar que o partido o tenha posicionado como um bloqueador das reformas do governo de coligação, para ganhar as próximas eleições. Mas é também um jovem político que pode atrever-se a afirmar a sua independência. O cessante Andrzej Duda não aproveitou esta oportunidade e, ao fim de dez anos, deixa o cargo recordado apenas como um ‘detentor da caneta do PiS’. Karol Nawrocki pode optar por escrever um guião diferente para si próprio – mas se isso acontecer, não será certamente no início do seu mandato.”

"A questão na Polónia não é que as pessoas não tenham votado num candidato liberal – elas votaram", refere Małgorzata Zachara-Szymańska. "A afluência às urnas foi elevada e o candidato liberal perdeu por apenas 300 mil votos. A verdadeira questão é a motivação por detrás desses votos: as pessoas votaram sobretudo para bloquear um candidato do campo oposto" foto Petr David Josek/AP

Com base na campanha eleitoral do novo presidente, Zachara-Szymańska antecipa que haverá “ameaças e apelos retóricos ao orgulho nacional e à soberania alegadamente minada por Bruxelas, mas pouca ação substantiva por trás dessa fachada”, sobretudo porque muitos dos eleitores que votaram em Nawrocki são favoráveis à UE.

“A contestação dos valores da UE faz parte do ADN do PiS, mas parece-me improvável que haja uma mudança significativa neste domínio porque, quando questionados, os eleitores das regiões que há muito são leais ao partido continuam a manifestar o seu apoio à permanência na UE – e, para ganhar as próximas eleições legislativas, a direita polaca tem de garantir esses votos. A UE serve como um adversário imaginário ideal: demasiado útil para ser descartado de forma imprudente, como fez a direita britânica com o Brexit.”

Enquanto potência maior do flanco leste da NATO, há várias dúvidas quanto ao que esperar da nova presidência polaca no que toca ao apoio à Ucrânia. Embora Nawrocki tenha defendido que os ucranianos merecem ser apoiados contra a agressão russa, também fez campanha contra a adesão do país à NATO e questionou os custos de longo prazo de continuar a ajudar Kiev, em particular os custos de apoiar os refugiados de guerra. 

Nalguns momentos, ecoou a postura de Trump, por exemplo ao acusar o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, de não estar suficientemente grato à Polónia pela ajuda prestada. E com um eleitorado agastado, a Polónia poderá passar de forte aliada a parceira condicional dos ucranianos, sobretudo se a guerra se arrastar por muito mais tempo.

“Até há pouco tempo, a ajuda à Ucrânia era uma questão marcada por um consenso interpartidário na Polónia, mas essa era parece estar a terminar”, admite a analista da Universidade Jaguelónica. Com a eleição de Nawrocki, “o governo e o palácio presidencial deixarão, sem dúvida, de falar a uma só voz sobre esta matéria”, ainda que seja “pouco provável que os ajustamentos sejam abruptos”.

RIP estadistas

Finalizada a votação presidencial na Polónia, Zachara-Szymańska destaca grandes lições desta ida às urnas em tudo semelhantes às de outros plebiscitos recentes dentro e fora da UE, a começar pela ausência de lideranças fortes, que foram substituídas por soundbites e câmaras de eco. 

“De um modo geral, já não temos estadistas na política – líderes capazes de dizer verdades incómodas aos eleitores e de inspirar através da integridade e não da conveniência”, ressalta a analista. “A arena política atual é regida pela lógica da comunicação instantânea. Espera-se que os candidatos digam o que a máquina partidária lhes exige, ao mesmo tempo que se apresentam ‘autênticos’ aos eleitores nas redes sociais.” E no caso dos populistas e dos extremistas, isso continua a ter muito efeito junto de uma importante fatia do eleitorado.

“Cada vez mais, as eleições nas democracias ocidentais são moldadas por jovens eleitores criados na cultura do clickbait. Para muitos deles, a política é um canal para descarregar a frustração em relação aos que estão no poder – um teatro de desilusão e não de deliberação.”

Além disso, destaca a especialista de Cracóvia, estas foram apenas mais umas eleições a provar que as regras do jogo mudaram de uma forma fundamental quando se observa as diferentes interferências nos processos eleitorais. No contexto da visita de Kristi Noem à Polónia a três dias da última volta, e também das campanhas de desinformação online, estamos diante de um “tipo de ‘turismo eleitoral’ cada vez mais normalizado”, que deve “ser reconhecido como uma forma de disfunção política”, defende Zachara-Szymańska.

Kristi Noem, secretária de Segurança Nacional da administração Trump, esteve na Polónia dias antes da segunda volta das presidenciais para dar o apoio formal dos EUA ao candidato conservador que acabou por ser eleito com uma ligeira vantagem foto Alex Brandon, Pool/AP

“As eleições são um assunto interno de uma comunidade democrática e, quando vozes externas – seja para elogiar ou condenar – entram na conversa doméstica, as acusações de influência indevida estão apenas a um passo de distância. Se aceitarmos isto, o próximo passo lógico é assistirmos a algo como o vice-presidente dos EUA castigar a Alemanha por ‘discriminar a extrema-direita’ e ‘violar a liberdade de expressão’”, diz, numa alusão ao famigerado discurso de JD Vance na Conferência de Segurança de Munique, à margem do qual também aproveitou para se encontrar com a líder da extrema-direita antes das legislativas federais alemãs.

“Não devemos esquecer-nos de que a interferência estrangeira assume atualmente muitas formas, desde manipular o discurso público a espalhar desinformação e alimentar a polarização – [mas] as eleições são, e devem continuar a ser, um assunto soberano.”

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