Crise de migrantes na Bielorrússia: "É impossível não sentir pena destas pessoas"

O correspondente da CNN destacado para a fronteira da Bielorrússia com a Polónia contou à CNN Portugal os detalhes desta crise humanitária

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Milhares de migrantes continuam na fronteira entre a Polónia e a Bielorrússia a tentar entrar na União Europeia. Onze já morreram. São vidas usadas como arma pelo "último ditador da Europa", para pressionar a União Europeia a levantar as sanções que restringem o país. Mas dificilmente esta estratégia vai ajudar Alexander Lukashenko, considera o correspondente da CNN baseado em Moscovo, Matthew Chance, que esteve em reportagem nesta fronteira e que acredita que a postura do líder bielorrusso serviu para mostrar aos aliados russos que é “demasiado imprevisível e que cria crises desnecessárias”.

Em entrevista à CNN Portugal, o jornalista britânico revela as “condições desesperantes” em que estes migrantes se encontram e antevê o desfecho desta crise migratória.

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Como descreve o que está a passar-se do lado da fronteira da Bielorrússia?

Matthew Chance: "As autoridades bielorrussas decidiram intervir e encaminhar os migrantes que se tinham juntado na fronteira com a Polónia, perto da zona de arame farpado, para um espaço ao qual chamam de 'centro logístico', a cerca de um quilómetro da fronteira.

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O centro logístico é uma instalação com aquecimento, um gigantesco armazém. Os migrantes receberam colchões, cobertores e roupas quentes. Existe uma cozinha militar montada pelas autoridades bielorrussas para entregar aos migrantes uma refeição quente por dia.

É uma situação muito melhor para os migrantes do que a situação em que se encontravam, quando estavam encurralados naquela fronteira em temperaturas geladas, com muito poucos abrigos, alimentos ou instalações sanitárias."

Os migrantes vão ser deportados?

Matthew Chance: "Sim, segundo sei, vão ser deportados de regresso aos seus países. Este processo, aliás, já começou. Pelo menos, um voo de repatriamento vindo de Minsk já aconteceu, com destino ao Iraque, uma vez que a grande maioria destas pessoas são iraquianos curdos. Tanto quanto sei, haverá mais voos.

Apesar de as autoridades bielorrussas não estarem a informar os migrantes de que vão ser deportados, pelas conversas que tenho tido 'nos bastidores' com funcionários fronteiriços na Bielorrússia, é bastante claro que a intenção é tirar estas pessoas do país o mais rápido possível."

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Por que é que a Bielorrússia só decidiu atuar agora? 

Matthew Chance: "As autoridades bielorrussas podiam ter feito isto a qualquer altura, decidiram atuar agora. Porquê? A violência cresceu e a situação tornou-se demasiado dramática.

Por outro lado, sentem que já passaram a mensagem que queriam ter passado. Se as sanções contra a Bielorrússia continuarem, este é o tipo de problemas que os líderes europeus podem esperar na fronteira da União Europeia (UE). Sinto que queriam mandar uma mensagem à UE e, assim que o fizeram, mudaram para uma estratégia de amenização da situação."

E os migrantes? O que foi possível descobrir sobre eles?

Matthew Chance: "A vasta maioria das pessoas com quem contactei pagou entre mil e quatro mil dólares (cerca de 900 euros a 3.500 euros) para viajar dos seus países – muitos são do Curdistão iraquiano – para a União Europeia, o que indica que muitos destes migrantes vieram com a intenção expressa de utilizar a Bielorrússia como uma via de acesso à Europa. Foi isso que lhes foi dito que conseguiriam: uma rota fácil em direção à União Europeia.

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Obviamente que, quando lá chegaram, não foi fácil de todo. A maioria acabou por acampar junto à fronteira, num espaço improvisado, em condições absolutamente terríveis. E creio que só muito lentamente se aperceberam de que a jornada não ia ser fácil e que, de facto, não iam sequer entrar na União Europeia.

Acredito que foi por esse motivo que assistimos a uma grande explosão de violência, com grupos de jovens a tentar forçar as barricadas polacas."

Mas o que é que levou à erupção da violência na fronteira?

Matthew Chance: "Creio que foram vários fatores. A acumulação da frustração por parte dos migrantes é um deles. Sei que existem alegações de que as autoridades bielorrussas “encorajaram e empurraram” estas pessoas para a fronteira e pediram-lhes que atirassem pedras, mas isso são alegações feitas pela oposição, nomeadamente Polónia e UE. Pessoalmente, não testemunhei e, por isso, não posso afirmar que foi assim que aconteceu, embora não me surpreendesse caso se tivesse sucedido.

Aquilo que vi foi um grupo de jovens muito zangados e frustrados, que um dia imploravam às forças de segurança polacas que os deixassem passar. Não estavam violentos de todo. No entanto, isso mudou rapidamente quando perceberam que os guardas polacos não os iam deixar entrar na UE.

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Independentemente de as forças bielorrussas terem ou não “empurrado” as pessoas para a fronteira – e eu penso que eles o fizeram –, a realidade é que ficaram sentados a olhar, enquanto a situação se desenrolava. Para mim, deixar que a situação aconteça por falta de intervenção é uma forma consentimento. Mas, sem dúvida, que a frustração foi parte do motivo que levou à erupção de violência."

Considera os migrantes esquecidos no meio de uma guerra geopolítica?

Matthew Chance: "Às vezes, essa é uma questão que se perde na cobertura geopolítica de uma crise como esta. De um lado, temos o governo bielorrusso a tentar ensinar uma lição aos europeus e, no outro lado, a Polónia e a União Europeia a dizer que não vão ceder à chantagem bielorrussa. No meio desta disputa, as pessoas são genuinamente vulneráveis.

Os migrantes que se encontravam na fronteira estavam numa situação muito má do ponto de vista humanitário. Não o podemos descartar. Eles estavam verdadeiramente desesperados para entrar na União Europeia. Cometeram um erro ao tentar entrar através da Bielorrússia? Sem dúvida. Porém, os migrantes cometem estes riscos em várias partes do mundo. Pensaram que desta vez conseguiriam entrar através da Bielorrússia, mas não funcionou e acabaram por ficar presos numa situação desesperante.

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Eu senti pena deles. Desafio-te a ir a um daqueles acampamentos, olhar para a cara da mãe que segura nos braços a filha que precisa de uma operação nas costas, e dizer que não sentes pena deles. É impossível não sentir pena por estas pessoas."

Das história com as quais te cruzaste, houve alguma que te marcou em particular?

Matthew Chance: "Eu encontrei, por mais de uma vez, uma mãe que trazia o seu filho que tinha um problema grave nas pernas. A situação era muito tocante, ela não estava a fazer este percurso por dinheiro. Ela só queria ir para um país que operasse o seu filho. As condições hospitalares no Curdistão não permitem realizar a operação e esta mulher acabou por se colocar, a ela e ao seu filho, numa posição desesperante. 

Muitas destas pessoas vêm de lugares extremamente pobres e a vasta maioria que encontrámos no acampamento procurava uma vida melhor. São migrantes económicos. Não existe uma guerra no Iraque, não existe uma guerra no Curdistão. Quem conhece o Iraque sabe que a região do Curdistão é uma das mais pacíficas do país, há muito anos, mas é, ainda assim, uma região pobre. 

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Estas pessoas acreditam que têm hipóteses de uma vida melhor na União Europeia e provavelmente até têm razão. Querem ir para a Alemanha e para o Reino Unido."

Qual é a justificação das autoridades bielorrussas para o que está a passar-se no país?

Matthew Chance: "Eu falei com o ministro dos Negócios Estrangeiros bielorrusso, Vladimir Makei, acerca deste assunto e questionei-o sobre se encorajam pessoas a tentar entrar na União Europeia. Ele negou as acusações e disse-me que os migrantes vieram por si próprios – e eu achei isto bastante engraçado – porque viram a União Europeia a receber tantos migrantes bielorrussos e a dar-lhes uma posição privilegiada. Por isso, os migrantes acreditaram que lhes ia acontecer o mesmo. Ele referia-se ao asilo político que a União Europeia deu a dissidentes políticos do regime de Lukashenko.

Porque a União Europeia deu asilo político a cidadãos da Bielorrússia, os cidadãos do Iraque e Afeganistão acreditaram que também o poderiam ter tido. Foi essa a justificação do ministro dos Negócios Estrangeiros para o aumento do fluxo de migrantes. No entanto, acredito que foi tudo uma forma de pressionar a União Europeia e de lhes mostrar o que pode acontecer se a Bielorrússia decidir criar problemas para a UE."

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E os cidadãos bielorrussos? O que é que eles pensam acerca desta crise?

Matthew Chance: "É muito difícil ter uma boa perceção daquilo que o povo bielorrusso pensa acerca do seu governo e das suas ações, porque as pessoas estão muito relutantes em falar com jornalistas estrangeiros – ou qualquer jornalista, na verdade – desde que as autoridades começaram a reprimir a população após a reeleição fraudulenta de Lukashenko.

Nos últimos 12 meses, existiu uma repressão muito forte contra dissidentes, membros da oposição e gente que fala contra o governo. Muitos têm sido presos, torturados e alguns fugiram do país e, agora, estão em exílio.

É difícil ter uma boa noção daquilo que a população realmente pensa, mas a sensação que eu tenho, dos breves encontros que tive, é de que as pessoas não estão contentes com a situação atual em Minsk e na Bielorrússia, em relação à grande quantidade de migrantes que chegaram ao país. Em qualquer centro comercial, em qualquer rua, no aeroporto, podemos ver grupos de pessoas do Iraque, Afeganistão e Paquistão, a vaguear. Os bielorrussos não estão habituados a ver este nível de imigração no seu país e para algumas pessoas a situação é um pouco desconfortante."

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O que podemos esperar no futuro? 

Matthew Chance: "É interessante, tenho pensado muito sobre isso. Não tenho a certeza acerca do que Alexander Lukashenko ganhou com esta crise. Ele queria enviar uma mensagem à União Europeia, mas a União Europeia não cedeu, por isso, creio que não atingiu os seus objetivos.  

Lukashenko queria que as sanções contra o país fossem levantadas e queria ser reconhecido como o líder legítimo da Bielorrússia, algo que a UE não fez. Para além disso, acredito que ele acabou por chatear os russos, os seus únicos apoiantes."

Acredita que Moscovo está por detrás desta crise, como acusa a Polónia?

Matthew Chance: "Não acredito que Vladimir Putin tenha estado por detrás desta crise. A determinada altura, Lukashenko ameaçou cortar o fornecimento de gás para a Europa, levando o Kremlim a reagir com muita força. Moscovo afirmou que as declarações do líder bielorrusso foram uma reação emocional e que o corte não ia acontecer. Foi quase como se tivéssemos presenciado uma discussão entre Lukashenko e Putin acerca do fornecimento de gás. 

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Putin não gosta de Lukashenko, ele acredita que o líder bielorrusso é demasiado imprevisível e que cria crises desnecessárias. A Rússia apoia-o porque quer prevenir que a Bielorrússia entre na esfera de influência das instituições da União Europeia. Esta crise demonstrou ao Kremlin o quão imprevisível a Bielorrússia é. É uma disputa que não vai fazer com que ele aumente a sua popularidade em Moscovo. Lukashenko sai daqui como uma figura diminuída."

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