Porque confiamos cada vez menos nos políticos? Há pelo menos três razões para acharmos que eles são todos iguais

2 out 2025, 07:01
Voto antecipado (Tiago Petinga/Lusa)

Em período de campanha, o contacto nas ruas torna evidente a desconfiança. Não é por estarem perto que os políticos deixam de estar longe. O vento pode levar as promessas, mas não o desejo de que sejam mesmo cumpridas

São todos iguais, não acredito em nenhum.

Só cá passam de quatro em quatro anos.

Prometer, eles prometem muito. Agora fazer…

(CNN Autárquicas 2025) - Não foi preciso identificar os alvos destas frases para perceber de quem estamos a falar. Em Portugal, parecemos confiar cada vez menos nos políticos. Estamos abaixo da média da OCDE na hora de confiança no governo central.

E a abstenção, o primeiro sintoma de a relação estar beliscada, é um problema atual que não existia no início da democracia - como, aliás, revela este estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos acabadinho de sair.

Fomos, por isso, falar com quem estuda a política e os políticos. Todos confirmam: há uma “deceção e frustração” da população em geral. E pelo menos três razões que ajudam a explicar porquê.

Razão 1: Promessas por cumprir

Vamos melhorar isto. Vamos construir aquilo. Com o seu voto, conseguimos fazer.

Sempre que há eleições, os argumentos repetem-se. E, por isso, para o politólogo Bruno Ferreira Costa, a trabalhar na Universidade da Beira Interior, o “não cumprimento de promessas” é o primeiro motivo para o desgaste da nossa confiança nos políticos.

“Há falta de compromisso e incumprimento da palavra dada. É uma questão de coerência ética. Se me perguntasse que fator escolheria como a principal causa, seria este”, completa a politóloga Sílvia Mangerona, professora na Universidade Lusófona.

Razão 2: Qualidade do debate de ideias e comportamento dos políticos

A política é um ringue. E os ataques são em todas as direções. Os portugueses parecem fartos de tanto confronto, de tanta tentativa de desarmar o adversário, sem reflexo concreto no dia a dia.

Bruno Ferreira Costa lembra que, nos últimos anos, “a qualidade do debate de ideias” caiu em flecha, o que alimenta a sensação de que não há preocupação efetiva com medidas que melhorem efetivamente as vidas das pessoas. Mesmo quando as ideias são boas, a barreira ideológica trava o seu avanço.

É algo que gera “desconfiança e falta de crédito”, junta a politóloga Paula do Espírito Santo, professora no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP).

“A falta de responsabilização dos políticos por más decisões tem um impacto significativo na abstenção”, alerta Sílvia Mangerona. E isso leva-nos à próxima razão.

Razão 3: Apatia perante tanto escândalo

Más gestões de crises, escândalos, casos de corrupção, suspeitas. Tudo contribui para desacreditar a vida política. E para que os eleitores se desliguem da política, julgando todos os seus protagonistas como iguais.

É aquilo a que Bruno Ferreira Costa chama de “desligamento por responsabilização transversal dos políticos”, num momento em que, simultaneamente, a ação dos políticos é alvo de um “maior controlo” pelos meios de comunicação social.

“Os políticos deviam ser pessoas que estão acima da média nas suas competências. Há, por isso, um distanciamento entre eleitores e eleitos, motivado pelos contextos de crises, de escândalos, de desacreditação da vida política”, descreve Paula do Espírito Santo.

Em resumo, diz Sílvia Mangerona, “estamos mais apáticos”. E basta ver que, recentemente, Portugal foi às urnas porque havia suspeitas sobre um primeiro-ministro. Luís Montenegro encarou a eleição como um julgamento dos eleitores sobre o caso da empresa familiar Spinumviva. Foi reeleito. Não é uma prova de confiança? “Falar de resultados já exige outra complexidade. Podem não transparecer o que acontece na sociedade”.

(Tiago Petinga/Lusa)

Autárquicas: usar quem está perto para culpar quem está longe

As autárquicas são as eleições de maior proximidade. Nelas, escolhemos os políticos com quem nos cruzamos no dia a dia, que (alegadamente) conhecem a nossa terra.

Mas essa proximidade tem um custo, avisa Bruno Ferreira Costa: “há um conhecimento mais exaustivo do que devia ser melhorado e não o é efetivamente”. E não é só sobre o que ficou por fazer na terra. Há, muitas vezes, uma “deslocação de culpas”.

“Embora se continue a escolher com base no perfil dos candidatos e no histórico dos autarcas ou partidos no concelho, as eleições autárquicas servem, muitas vezes, para demonstrar insatisfação em relação ao poder central”. E já houve governos que caíram à custa disso.

Como voltar a acreditar…

“Estamos mais desconfiados dos políticos do que da política. Importa vincar que a política somos todos nós. Já os políticos, como todos nós, são falíveis. Talvez o busílis não seja o facto de errarem. Talvez seja antes a forma como gerem as coisas quando não correm bem”, resume Sílvia Mangerona.

E, para voltarmos a acreditar nos políticos, precisamos de voltar a olhar para eles como referências. Ora, como é que isso se alcança? Com “transparência”, um “discurso e ação políticos assentes na verdade”, “propostas apresentadas e cumpridas”, “clareza na comunicação” e uma “melhoria efetiva das condições de vida”, apontam os especialistas.

É a inversão da lógica aplicada à mulher de César: por muito que os políticos queiram parecer honestos, têm mesmo de o ser.

Além disso, Bruno Ferreira Costa sugere o caminho da “reforma do sistema eleitoral”, onde, em vez de votarmos em listas fechadas, poderíamos votar em candidatos concretos, o que favoreceria a identificação e a proximidade com quem nos representa.

A exceção à regra: populismos

Num contexto de descrença nos políticos, há um tipo de políticos que parece prosperar: os populistas. E a explicação é simples: eles alimentam-se dessa mesma descrença no sistema.

“Os populistas tiram partido de um conceito que é o mercado eleitoral: a ideia da novidade, de serem algo novo, que pensa de forma diferente, que desconstrói o que existe da política dita tradicional”, começa Paula do Espírito Santo.

O problema, avisam os especialistas, é que essas forças políticas - onde se pode inserir o Chega - “beneficiam de poderem apresentar-se aos olhos do público como alternativa” porque não tiveram ainda responsabilidades governativas ou executivas.

Em resumo: tentam parecer diferentes do sistema. Mas, se e quando lá chegarem… acabarão engolidas por ele.

Até os mais diferentes serão todos iguais.

(Lusa)

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