Chega critica sondagens, mas nenhuma o colocou abaixo de 13,5%
Contexto imediato
As eleições legislativas de 19 de maio de 2025 aguardam apenas a contagem dos círculos da Europa e Fora da Europa. Mesmo assim, o Chega já garantiu um reforço histórico de mandatos, podendo tornar‑se o primeiro líder formal da Oposição oriundo de um partido fundado no século XXI.
Na entrevista concedida pelo seu líder às redações da TVI e da CNN Portugal, em 21 de maio, foram reiteradas acusações contra as sondagens publicadas “ chegaram a dar 10 % das intenções de voto ao Chega” — imputando parcialidade à Pitagórica e a outras empresas do setor dos estudos de opinião.
Este documento apresenta, com serenidade e base empírica, as razões pelas quais nenhum instituto atribuiu 10 % ao Chega, demonstra a consistência interna das diferentes séries de sondagens e reforça o valor democrático da investigação de mercado e opinião.
1. “Deram‑nos apenas 10 %” — *fact‑check*: **zero ocorrências**
Entre janeiro de 2024 e maio de 2025 foram publicados 97 inquéritos eleitorais por oito entidades diferentes. A tabela mostra o valor mínimo atribuído ao Chega por cada instituto.
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Resultado: nenhuma das 97 medições públicas colocou o Chega abaixo de 13,5 %. O sector, como um todo, nunca aproximou sequer a fasquia dos 10 %.
O valor de 13,5 % aparece em duas medições distintas — Pitagórica (6 mar 2025) e Consulmark2 (3 abr 2025). No caso da Pitagórica, a vaga anterior cerca de uma semana antes (28 fev 2025) atribuía 17,5 % ao Chega. Tendo a variação presente sido resultado da moção de censura que foi apresentada pelo Chega a 18 de fevereiro.
2. Últimas projeções pré‑eleitorais (abril–maio 2025, excluindo *exit polls*)
| INSTITUTO |
DATA TRABALHO DE CAMPO |
N |
% CHEGA |
MARGEM DE ERRO (P.P.) |
| Pitagórica (Barómetro CATI) |
15 mai 2025 |
810 |
19,2 |
±3,5 |
| ICS/ISCTE‑GfK (Presencial) |
05 mai 2025 |
1 062 |
19,0 |
±3,1 |
| Intercampus (CATI) |
05 mai 2025 |
1 055 |
17,4 |
±3,1 |
| Aximage (CATI/CAWI) |
05 mai 2025 |
654 |
18,1 |
±3,9 |
| Consulmark2 (CATI) |
13 mai 2025 |
589 |
15,7 |
±4,1 |
| CESOP (CATI) |
13 mai 2025 |
1741 |
19,0 |
±2,4 |
3. Crescimento gradual, não “correção de última hora”
O tracking contínuo da Pitagórica para a TVI, CNN Portugal, TSF e JN — média móvel de quatro dias — mostra recuperação sustentada.
| VAGA |
% CHEGA |
| 22 abr 2025 |
15,2 |
| 30 abr 2025 |
16,8 |
| 07 mai 2025 |
17,9 |
| 15 mai 2025 |
19,2 |
4. Por que podem divergir as estimativas entre institutos?
- Modo de recolha — Entrevistas presenciais (ICS/ISCTE‑GfK) captam entrevistados de classes sociais mais baixas; CATI/online (Intercampus, Pitagórica, Aximage) alcançam mais eleitorado urbano e com instrução mais alta. Estudos internacionais indicam que diferenças modais até 3 p.p. são normais em partidos anti‑sistema.
- Calendário do campo — Um debate mediático ou decisão judicial pode deslocar 1–2 p.p. em 48 h; comparar sondagens de datas diferentes sem ajustar esse efeito é metodologicamente incorreto.
- Ponderação estatística — Cada instituto aplica pesos ligeiramente distintos (sexo, idade, região, voto anterior). Trata‑se de engenharia estatística auditável pela ERC, não de manipulação discricionária.
5. Salvaguardas de transparência e ética
- Todos os estudos citados entregam a base de dados anónima à ERC no ato de publicação.
- As fichas técnicas divulgam universo, método, amostra, datas de campo e erros‑tipo, em linha com as normas ESOMAR/WAPOR.
- Vários institutos aderem à AAPOR Transparency Initiative, permitindo a replicação por terceiros.
Conclusão
Nenhuma sondagem séria colocou o Chega sequer perto dos 10 %. Entre março e maio de 2025, a série vai de 13,5 % para 19,2 %, espelhando factos políticos concretos. Recorde histórico: exit polls com desvios mínimos; pré‑eleitorais com desvio médio de 0,90 p.p.
Atacar esta indústria sem base técnica é disparar contra a evidência empírica. O research emprega milhares de pessoas qualificadas e movimenta mais de 120 M € por ano; nenhum instituto arriscaria a reputação por preferências partidárias ou outras agendas.
Há aqui algo mais profundo do que o simples embate político. Vivemos um tempo em que se critica diariamente as “fake news”, mas, ao mesmo tempo, se aceita que dirigentes partidários e meios de comunicação ataquem, sem base técnica, uma indústria inteira – que é das poucas em Portugal cujos resultados são pública, objetiva e imediatamente verificáveis.
Nas eleições de domingo foi batido um recorde: as quatro sondagens à boca das urnas apresentaram os menores desvios médios de que há registo em Portugal.
A Pitagórica, apesar de ter tido o maior desvio médio da noite (0,5 p.p.), acertou em todos os partidos dentro da margem de erro estatística. Poucas indústrias em Portugal têm tamanha capacidade de acerto sob escrutínio público instantâneo.
As sondagens pré-eleitorais – mais difíceis por natureza, porque medem intenção e não ação – também foram altamente fiáveis. A Pitagórica, que realizou um tracking para o Jornal de Notícias, TSF, TVI e CNN Portugal, teve o menor desvio médio desta eleição (0,90 p.p.).
Previmos, com consistência, a queda do PS. O Jornal de Notícias, pela mão do Rafael Barbosa, publicou a este propósito uma manchete: “PS arrisca pior resultado dos últimos 38 anos” dias antes da eleição – e acertou.
Também antecipámos a vantagem da AD e um resultado elevado do Chega, já perto do limite superior da nossa margem de erro.
E, no entanto, ouvimos insinuações de enviesamento político. São críticas que, a bem da verdade, dizem mais sobre quem as faz. Mais grave, porém, é quando se trata a ignorância técnica como arma política. Num país onde ainda se confunde ADN com AD, é normal que seja difícil explicar o que é uma sondagem, uma margem de erro, ou uma amostra não probabilística.
Cabe à indústria do “research” ser mais pedagógica. Mas é igualmente essencial que dirigentes partidários, comentadores e jornalistas façam o seu trabalho com responsabilidade. Porque todos juntos participamos na formação de uma opinião pública mais esclarecida — e isso não se faz com frases feitas, desinformação ou insinuações gratuitas.
A democracia portuguesa já provou que sabe lidar com a diferença; importa demonstrar agora que também sabe lidar com a estatística.
