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Classe Política em Portugal: os representantes representam mesmo?

27 mai, 15:36

O conceito fundamental de representação política, intrinsecamente ligado à ideia de democracia, é essencial para o funcionamento do sistema político. Contudo, a questão crucial é saber se os representantes refletem e defendem genuinamente os interesses e necessidades da população que os elege. E em Portugal, como em muitos outros países democráticos, essa interrogação tem adquirido uma relevância particular face à crescente distância percebida entre os cidadãos e a classe política.

A evolução gradual da representação política revela efeitos colaterais preocupantes. Ao invés de aproximar os cidadãos do processo político, tem-se observado um distanciamento que não é meramente físico; é uma desconexão identitária, normativa e institucional que contamina a vitalidade da democracia.

No que diz respeito à identidade, muitos representantes políticos não espelham as realidades socioeconómicas da maioria dos cidadãos, perdendo o contacto com seus desafios diários. Essa falta de empatia e compreensão gera uma crescente incapacidade de os cidadãos se identificarem com aqueles que os governam. Verifica-se, simultaneamente, uma crescente desconexão entre a linguagem padronizada na classe política e o cidadão comum - aprofundando não apenas as diferenças entre representante e representado, mas também comprometendo a capacidade de entendimento mútua.

A falta de representatividade e a persistência numa representação viciada, que sugere a perpetuação dos mesmos indivíduos de características semelhantes à frente dos mais elevados cargos políticos, compromete seriamente a saúde da nossa democracia.

A persistência de uma elite política homogénea, tanto em termos de origem social quanto de trajetória profissional, gera uma sensação de exclusão e alienação em vastos setores da sociedade. Essa falta de diversidade e representatividade impede uma abordagem holística dos problemas enfrentados pela população, limitando o leque de soluções e enfraquecendo a legitimidade das instituições democráticas.

As elites políticas não devem ser uma casta fechada, mas um espaço inclusivo onde o mérito e a dedicação são reconhecidos e valorizados. Necessitamos de uma elite mais diversificada e sensível às questões sociais e económicas do país real. Ou seja, a solução não está na substituição dos processos de participação e representação, mas na melhoria da qualidade e eficácia da representação política.

Urge refletir não apenas sobre o que alcançamos em 50 anos de democracia, mas principalmente ponderar sobre o que desejamos para os próximos 50. A participação política deve ser revitalizada, tornando-se efetivamente relevante para os cidadãos. Como? Garantindo que os interesses públicos são verdadeiramente representados e defendidos.

Numa época marcada pela desilusão política e pelo distanciamento entre os governantes e os governados, é fundamental reconstruir pontes e restaurar a confiança na democracia. Somente assim poderemos construir um país mais justo, inclusivo e verdadeiramente representativo.

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