opinião

Quem nos desgoverna?

1 jul, 06:00

Esta é a segunda versão de um texto que começou a ser escrito de manhã e teve que ser todo reescrito à tarde, velozes que são as notícias sobre esta crise política sobre a localização do novo aeroporto.

Na versão original relembrava a relação de unha e carne entre Pedro Nuno Santos e António Costa, quando ambos fizeram o assalto ao poder no Partido Socialista. A relação cúmplice durante a primeira legislatura da geringonça, onde Pedro Nuno era o ponta de lança e Costa o treinador de uma aliança inédita à esquerda. Ou o início do processo de afastamento político entre os dois. Mas, de repente, parece que nenhuma destas reflexões fazem sentido. Apesar de todas elas ajudarem a contar a história deste imbróglio.

Pedro Nuno Santos, que quarta-feira à noite era um animal feroz, surgiu quinta-feira à tarde, perante o país, como um português suave. Depois de um valente puxão de orelhas do primeiro-ministro e, perante a iminência de ser afastado do Governo, até lhe tremeram as perninhas.

O ministro que apanhou o patrão fora e decidiu que não seria dia santo na loja, atirou-se para os comandos e decidiu sozinho onde é que se iria construir o novo aeroporto internacional de Lisboa. Coisa pouca, de uns largos milhares de milhões de euros e que impactará o país durante décadas. Pedro Nuno estava tão confiante na decisão, que não se limitou a anunciá-la. Tornou-a lei, para que não houvesse dúvidas. Afinal, anda o país há anos a discutir qual é a melhor localização e era tão fácil: bastava publicar em letra de lei.

A estranheza da decisão seria, no entanto, superada na manhã seguinte, quando António Costa – que tem andado por fora - decidiu desautorizar o ministro e mandou revogar a lei, ainda em Madrid. Parecia inevitável: o ministro tinha que sair do Governo. Ou se demite ou é demitido, dissemos todos – os que comentamos - em uníssono, tal era a gravidade do caso. Só que não.

Pedro Nuno Santos terá caído nele e procurou a redenção. Afinal este não era o primeiro passo para se distanciar de António Costa, pelo contrário, o ministro que esteve quase para deixar de ser ministro, quer afinal continuar a ser ministro, que quatro anos e meio é uma eternidade e talvez a memória dos militantes socialistas não resista a tanto.

Afinal, se no passado Mário Centeno se safou e conseguiu, ainda assim, ser Governador do Banco de Portugal, porque não pode Pedro Nuno um dia ambicionar ser Secretário-geral do PS?

O problema é que, entre mortos e feridos, ninguém se salva politicamente. Se ao enfan terrible do PS não convinha nada sair do centro do poder nesta altura, uma demissão de um ministro, poucos meses depois de um Governo de maioria absoluta socialista tomar posse, também não cai bem em nenhum currículo. Por isso, a escolha era fácil: ou Pedro Nuno se ajoelhava perante o país, ou Costa tinha mesmo que o demitir. Como nem um nem outro queriam a segunda opção, a primeira acabou por ser o mal menor.

Mas não é. O que aconteceu não é apenas um erro grave, pelo qual se pede desculpa e se segue em frente. É, antes de qualquer outra coisa, uma facada na credibilidade política de um Governo, num momento de extrema importância para o nosso futuro enquanto país.

Da imagem de desgoverno, António Costa já não escapa. Do SEF, à Saúde, passando agora pelo tema do aeroporto, o primeiro-ministro dá cada vez mais sinais de que não tem mão em nada, nem mesmo nos temas europeus, aos quais dedica tanto tempo e esforço, para depois ficar a falar sozinho.

Com uma guerra na Europa e uma crise económica à porta, a última coisa de que o país precisa é de um governo debilitado politicamente. De um executivo que faz das trapalhadas a sua imagem de marca, onde os ministros parecem umas crianças que fazem as asneiras e depois vêm pedir desculpa, para tentarem evitar o castigo.

A última coisa de que o país precisa é de um Governo que permite que decisões tão estruturais e tão caras, sejam tratadas como se fossemos ali ao supermercado comprar um quilo de batatas.

Mas é isto que o país tem, neste momento. Um governo com três meses com o desgaste e a falta de autoridade política de seis anos. Um Governo onde o ministro das infraestruturas está gravemente ferido politicamente, sem qualquer autoridade ou capacidade negocial. Onde uma ministra da saúde parece uma bombeira que anda a tentar apagar fogos com uma mangueira sem água. Onde o ministro da administração interna não sabe o que fazer ao SEF. Onde o primeiro-ministro, que tinha uma oportunidade de ouro para corrigir problemas estruturais do país, vai-se deixando desgastar politicamente, a cada dia, a cada semana, a cada mês que passa.

A Pedro Nuno Santos pode até ter valido, desta vez, a humildade, a história política em comum e a longa relação de amizade que tem com António Costa. Mas não nos peçam que esqueçamos mais um episódio lamentável, como já houve tantos, porque isto não é um governo, é um desgoverno. E se António Costa prefere ficar sentado a ver os aviões passar, o país não se pode dar a esse luxo. Há demasiado por fazer e milhões de portugueses eternamente à espera que o Estado corresponda às expectativas criadas desde o 25 de abril de 1974.

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