Muitas vezes evitamos falar aos mais jovens de política por considerarmos que o assunto é demasiado complexo ou não é para eles. Mas a política está em todos os aspetos do nosso dia a dia. Nós não podemos fugir dela e as crianças também não. Por isso, os especialistas defendem que é fundamental falar de política aos mais jovens e quanto mais cedo melhor
Na televisão, passa o debate da moção de confiança ao Governo. A discussão é pontuada por elogios e críticas mútuas, por ataques mais ou menos pessoais entre deputados das diferentes forças políticas e os governantes que estão a ser escrutinados. O debate parlamentar é interrompido para “negociações” entre os líderes dos dois principais partidos, numa manobra de bastidores inédita na ainda jovem democracia portuguesa. Uma manobra de bastidores que de pouco resultou: a moção de confiança acabou chumbada e o Governo caiu naquele dia.
Em casa, a família inteira assistia a estas reviravoltas permanentes e os filhos não pouparam as perguntas. Mas como falar da crise política, de política e de ativismo político a crianças e jovens que ainda estão longe da idade para votar? Como lhes explicar que a política é muito mais do que aquelas trocas acesas de argumentos e do que aquelas manobras de bastidores? Deve-se, aliás, falar de política aos mais novos?
Ouvimos três especialistas que nos deixaram muitas respostas e ainda mais motivos de reflexão. Pedro Neto, especialista em direitos humanos e políticas públicas e pai de um filho de quatro anos, começa por deixar claro que “é preciso dar referências aos jovens para eles não irem atrás do que ouvem, não irem atrás do que segue o rio e não irem atrás da discussão do momento”. “Se não têm referências, vão atrás daquilo que é mais populista”, alerta.
O alerta de Pedro Neto é secundado por Alfredo Leite, licenciado em Psicologia, professor universitário e pai de três filhos entre os 10 e os 16 anos. O especialista sublinha que falar de política com os filhos “é uma conversa que temos de ter e não tem de ser uma conversa difícil”. “O truque é usar exemplos do dia a dia, que estão à nossa volta. Sempre que falamos de tomadas de decisão no dia a dia, estamos a falar de política”, diz, exemplificando: “Quando uma mãe vai no carro levar os filhos à escola e vê os sinais de trânsito, conversar com o filho e dizer ‘vês filho? Para estes sinais estarem aqui, alguém teve de tomar decisões’. Quando vão com os filhos a uma consulta, aproveitar e dizer ‘para este hospital ser construído, tiveram de ser tomadas decisões’. Tomar decisões é política”.
“Sempre que possível usar histórias. O cérebro aprende melhor com histórias”, acrescenta Alfredo Leite.
Paula Fernandes, professora de história e autora de livros infantis, como o recente “Sim, senhor Presidente”, sublinha que se pode começar a introduzir a política na vida das crianças desde cedo.
“Há sempre algo que é fundamental na explicação da História e da política. A adequação da linguagem à faixa etária daqueles a quem nos dirigimos. Se já é difícil falar de política aos adultos, e basta olhar para as elevadas taxas de abstenção, falar de política às crianças e aos jovens torna-se um desafio ainda maior. Mas estamos a formar cidadãos e quanto mais cedo os miúdos começarem a desenvolver interesse por certos temas, mais fácil é cativá-los para assuntos que tipicamente são considerados de adultos, como é o caso da política”, acrescenta Paula Fernandes.
“De todos os regimes, a democracia é menos mau”
Pedro Neto concorda que nunca é cedo demais para se falar de política às crianças. Sejam crianças mais jovens ou adolescentes mais crescidos, a chave está na “adaptação do discurso”. “É importante explicar aos mais jovens qual é a diferença entre democracia e regimes autoritários. Explicar-lhes a importância do bem comum e a importância do outro e do bem-estar do outro. (…) Costuma dizer-se que de todos os regimes, a democracia é o menos mau de todos", explica.
Perante cenários como o que se viveu na terça-feira da última semana no Parlamento português ou perante uma discussão pública como a que vimos entre Donald Trum e Volodymyr Zelensky, Pedro Neto considera que é importante “explicar às crianças e aos jovens o contexto”. “Se é em Portugal, se é nos Estados Unidos, se na China. Explicar-lhes os órgãos de soberania de cada país e a diferença entre eles. No caso português, explicar-lhes quem é o Presidente da República e o que faz, que é eleito por nós. Explicar-lhes o que é o Parlamento, para que serve, como é constituído. Explicar-lhes o que é o Governo, como é eleito e qual a sua importância. Como funciona o Governo, como funcionam os impostos, como é que o Governo gere os impostos e explicar-lhes que servem para construir escolas, estradas… coisas concretas que lhes dizem respeito e nada abstratas. Explicar-lhes o que são os partidos, o que cada um deles defende…”, exemplifica.
Para o especialista em direitos humanos e políticas públicas, é ainda importante, pelo menos aos adolescentes mais crescidos, “lá para o secundário, dar a ler as cartas de princípios dos partidos, que estão disponíveis nos respetivos sites”. “Ao fazermos isso, estamos a dar ferramentas aos jovens para se posicionarem, com fundamentos de princípio”, sublinha.
“Não podemos falar de tolerância e depois sermos intolerantes”
Alfredo Leite considera que diante de discussões políticas mais acaloradas transmitidas pelas televisões e amplamente partilhadas pelas redes sociais, “temos de agir em dois campos”. “O primeiro é ensinar aos nossos filhos que a caixinha mágica que lhes traz as notícias todos os dias está enviesada, está com problemas, tem dificuldades. E quando passamos para as redes sociais ainda pior. Temos de falar com eles sobre a tentação que os media têm para escolher o que dá audiência, o que dá cliques, o que dá ‘canal’”, diz o professor e licenciado em psicologia.
“Cada um faz o seu papel. O papel da televisão é vender audiências, o papel do jornalista depende muito da sua estatura ética. O papel dos pais é alertar os filhos para isto”, resume.
Mas o exemplo é sempre a melhor forma de educar. E Alfredo Leite alerta que “não podemos cair na esparrela de, perante as crianças, nos mostrarmos altamente extremistas perante o que vemos na televisão”. “A polarização está a acontecer em todos os campos. E o ser humano todo tem dentro de si a capacidade de ser bom e de ser mau. Para falarmos destas discussões mais polarizadas às crianças, temos de ir para o campo das causas. Não são as pessoas que são boas ou más, são as causas. Não podemos dizer que as pessoas são más, porque então elas vão ganhar, estamos a dar a essas pessoas o que elas querem. Não podemos falar de tolerância aos nossos filhos e depois sermos intolerantes com as pessoas que vemos”, remata.
Para ilustrar a importância da causa, em detrimento do indivíduo, Alfredo Leite acrescenta: “Quando os nomes das pessoas contam, geralmente são ditadores. O homem é sempre o homem e a sua circunstância”.
“Uma das componentes do populismo é venerar o líder. Se nos focarmos em dizer mal deles estamos a contribuir para o crescimento desse populismo. Gosto muito de uma pessoa que diz que é racista. Sabe porquê? Porque sei onde ela está. As piores são as que se calam e que podem ser os nossos colegas, os nossos amigos, os nossos vizinhos”, diz ainda.
E resume: “Não lutes com um porco, porque acabas por ficar sujo”.
Pedro Neto concorda que o exemplo “é muito relevante” e também “os políticos deviam de ter consciência disso”. “Temos de mostrar aos jovens que a política existe para proteger o bem comum. Com um discurso baixo, sem discussão de ideias, abre-se espaço ao que é mais baixo, aos extremismos. A nós, cabe-nos mostrar às crianças e aos jovens que a política não é isto que eles tão a ver. Aquilo é algo circunstancial. A política é muito mais nobre”, diz.
“Quando o discurso não é elevado, as pessoas vão atrás. Não tendo ferramentas e princípios, vão atrás daquela circunstância. E aí os extremismos encontram espaço para progredir”, acrescenta Pedro Neto.
“Os bons exemplos do passado”
Pedro Neto considera ainda que é importante explicar às crianças que os cargos políticos são passageiros: “É importante explicar-lhes que estas pessoas estão, não são”.
O especialista adianta que “há que olhar para os bons exemplos do passado”, para mostrar aos jovens que a política pode ser pautada por uma discussão de ideias elevada e civilizada.
“A educação é muito relevante. Não só em casa, mas também na escola. Os currículos são muito importantes. Os alunos têm de ter introdução à filosofia, têm de ver cultivado o seu pensamento crítico. (…) Disciplinas como Educação Cívica e Cidadania são muito importantes e os currículos são muito bons, mas é preciso ensinar os professores. Os professores têm de ter formação para dar estas disciplinas”, defende Pedro Neto.
Paula Fernandes alerta também para a ideia errada que é “muito passada hoje em dia de que os políticos são todos iguais e o cidadão tem pouco a dizer”. “É importante explicarmos aos jovens que eles têm uma palavra a dizer, sim. Todos nós temos ações políticas no dia a dia”, sublinha.
“Eles podem ser ativistas políticos de forma direta. Inscreverem-se nas juventudes partidárias, nos partidos políticos. Não terem medo de se inscreverem e de manifestarem as suas ideias. É a partir de dentro que se mudam as vidas dos outros”, acrescenta Pedro Neto.
Paula Fernandes escreve livros de História para crianças. Diz que “a História tem um papel fundamental nesta temática da política e dos mais jovens”. “Mostrar o que está para trás, que há caminhos que foram trilhados. Mostrar que a história tem acontecimentos que nos levaram pelo caminho A, pelo caminho B ou pelo caminho C, é fundamental. Têm vindo a público estudos que mostram que os populismos estão a crescer entre os jovens. As escolas e as famílias têm de estar atentos e trabalhar para desconstruir este discurso de ódio”, sublinha.
E como é que um historiador mantém a isenção quando relata a História para crianças? Paula Fernandes Responde: “A verdade não deve ser escamoteada. Deve ser contada, mas com a máxima isenção que for possível. O trabalho do historiador deve ser contar a História com a máxima isenção possível. Deve utilizar fontes credíveis. No livro sobre os presidentes, utilizei fontes oficiais do Palácio de Belém e documentos oficiais”.
“Só mostrando tudo é possível dar ferramentas ao jovem para que possa fazer as suas escolhas conscientes e informadas”, defende a historiadora.
Os conselhos práticos dos especialistas
Mas como e quando começar a falar de política às crianças? Paula Fernandes considera que, no que ao sistema educativo diz respeito, “a idade mais ou menos estipulada na escola para se introduzirem estes temas não é desadequada. Ou seja, os oito ou nove anos”. “Mas se a criança mostrar interesse antes, se fizer perguntas e se quiser saber… Expor as crianças a estes temas de uma forma informal, a partir dos cinco ou seis anos, não é desadequado”, considera.
E deixa alguns conselhos para fazer essa abordagem: “No caso de uma criança mais pequena, ir pela parte lúdica, é uma boa forma de ir introduzindo estes temas. Quando um adulto vai votar, porque não levar o seu filho ou a sua filha e explicar a importância do voto e de uma escolha consciente?”.
“A própria escola pode fazer este ensino de uma forma mais ou menos formal. Na sala de aula e recorrendo ao que está à nossa volta. Há vários livros que falam da política para crianças, mas há também visitas a locais emblemáticos como o Palácio de Belém, o Parlamento ou o Largo do Carmo, explicando a importância desses locais para a democracia e para a política. Há uma combinação entre o que a criança pode aprender na escola e o aquilo que a criança pode aprender em casa, que é muito importante para formar cidadãos do futuro”, sublinha, alertando que “se começamos com um discurso muito hermético, as crianças perdem facilmente o interesse”.
Alfredo Leite considera também importante “envolver as crianças nas decisões lá de casa”. O especialista fala, aliás, dos quatro E: “Envolver as crianças. Elogiar a política e não mostrar só o lado mau da política (os políticos foram os que fizeram o mundo civilizado que nós temos). O Exemplo (se dermos o primeiro exemplo de linhas vermelhas, estamos a contribuir para o populismo). Expressar as nossas opiniões e colocar as nossas crianças a expressar as opiniões delas. Eu fico com o coração apertado e a espinha arrepiada se o meu filho expressar uma opinião contrária à minha. Mas é muito pior se ele não expressar sequer a sua opinião”, diz o especialista.
Para Alfredo Leite, as escolas, apesar do “trabalho extraordinário que já fazem”, também têm de evoluir. E dá exemplos de atividades que podem contribuir para a criação de cidadãos politicamente esclarecidos: “As escolas poderiam ter, por exemplo, um laboratório de fake news e trabalhar num reforço do cultivo do pensamento crítico”. “A política, na verdadeira aceção da palavra, devia fazer parte dos currículos”, remata.