Governo manteve o "nem mais um cêntimo". Polícias viram-se para o Parlamento e já admitem vir "para a rua"

António Guimarães , Atualizada às 19:27
9 jul, 16:46

Quatro sindicatos das forças de segurança não veem "justificação válida" na proposta do Governo, insistindo que existe uma discriminação em relação à Polícia Judiciária

Voltou a terminar sem acordo a reunião entre forças de segurança e o Ministério da Administração Interna, pelo menos para quatro sindicatos. À saída de mais um encontro, o presidente do Sindicato dos Profissionais de Polícia (SPP) explicou que a proposta voltou a ser a mesma: um aumento imediato de 200 euros, ao qual se seguirão mais 50 e outros 50 num período mais à frente, num total de 300 euros.

Apesar das palavras mais amenas do que as do primeiro-ministro, a ministra da Administração Interna, Margarida Blasco, manteve a ideia: não há "nem mais um cêntimo" para acrescentar a esta negociação, tal como tinha dito Luís Montenegro há uns dias.

Já depois das palavras do representante da GNR, três sindicatos da PSP e duas associações da GNR assinaram o acordo com o Governo.

Em causa está o subsídio de risco, que PSP e GNR continuam a querer ver aumentado para mais de 600 euros, o que ficaria perto do aumento recebido pelos inspetores da Polícia Judiciária (PJ).

À saída do Ministério da Administração Interna, o presidente do SPP confirmou que não houve acordo, garantindo que os polícias não podem concordar ou acompanhar a proposta que está em cima da mesa.

“Não conseguimos achar justificação válida. É um não definitivo”, afirmou Paulo Macedo, referindo-se a um valor abaixo para atribuir aos agentes da PSP quando comparado com os inspetores da PJ, o qual vê como uma "discriminação".

“Não podemos aceitar que os polícias fiquem a ganhar menos que funcionários que não são polícias”, acrescentou, falando da percentagem de agressões e até de mortes nas forças de segurança, que diz serem muito maiores do que os da PJ.

Paulo Macedo acrescentou ainda que outros dois sindicatos, o Sindicato Nacional da Polícia (SINAPOL) e a Associação Sindical Autónoma de Polícia (ASAPOL) também não aceitaram a proposta.

Questionado sobre o valor pedido - os polícias querem um mínimo de 400 euros de aumento -, o responsável sublinhou que não vê qualquer injustiça em relação a outras profissões, afirmando que, caso o valor pedido seja demasiado elevado, então o aumento à PJ não devia ter sido daquela ordem.

De resto, e segundo Paulo Macedo, a única proposta adicional teve que ver com a questão dos estatutos, algo que as forças de segurança entendem ser necessário, mas que querem ver discutido em reuniões paralelas, e não na questão do aumento.

Perante o "não definitivo" dado ao Governo, os agentes pretendem seguir agora para o Parlamento, admitindo falar com os partidos para, pelo menos, tentar uma outra solução. "Se for o caso podemos vir para a rua, sim, com um consenso mais alargado", concluiu, referindo que com o executivo deverá voltar a existir uma reunião no início do próximo ano.

O vice-presidente da Asapol confirmou, pouco depois, que a proposta se manteve inalterada, afirmando que "não é admissível" que assim seja, pelo que "jamais os associados aceitariam a proposta" apresentada.

Nuno Castro apontou que a ministra discordou de uma contra-proposta do sindicato, que apresentou uma ideia diferente, que o responsável até diz que pouparia dinheiro ao Estado. A mesma passava por não haver nenhum polícia a receber menos de 600 euros de suplemento de risco no final deste ano, valor que passaria para um mínimo de 750 em 2027.

"Aqueles que já auferem esse valor iam ser aumentados em zero euros, e foi aqui a discórdia da senhora ministra, que não acha correto que houvesse polícias que já ganham esse valor não serem aumentados também. Por isso é que discordou. Esta proposta apresentada pela ministra apenas beneficia uma classe", reiterou, falando nos oficiais.

Questionado sobre como se explica a recusa do aumento dos 300 euros, o responsável admite que é uma "boa valorização", mas ressalva que "o método não está de acordo" com o que a PSP entende ser justo.

"Não somos nós que não aceitamos os 300 euros, é o método. Nós não temos de explicar à opinião pública", disse, referindo que são os polícias que dão o corpo ao manifesto nas várias ocasiões diárias.

"Só vão perceber o trabalho de polícia se o exercerem", concluiu.

Também no Terreiro do Paço, o presidente do Sindicato Independente dos Agentes de Polícia (SIAP) anunciou que a proposta apresentada por Margarida Blasco se manteve no valor que já era conhecido. "Abaixo de 400 euros, nem um cêntimo. Não chegámos a acordo", referiu Carlos Torres.

"Abaixo de 400 euros não é digno para um agente da PSP", sublinhou, apresentando também aquilo que os polícias veem como uma injustiça perante a PJ.

Carlos Torres também confirmou a apresentação de uma revisão do estatuto da PSP, mas falou numa "mão cheia de nada" depois da reunião do Terreiro do Paço.

Questionado sobre a possibilidade de protestos na rua, o dirigente sindical admitiu que esse é um cenário que "está sempre em cima da mesa".

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