opinião
Jornalista,editor de Sociedade

Boxe, bufos digitais e a notícia que tiro dos vídeos: ainda há dezenas de jovens que querem ser polícias

28 dez 2025, 11:20

Dezenas de jovens de 20 anos, fechados nove meses numa escola em Torres Novas, onde lhes ensinam a ser polícias, procuram distrações para vencer o ócio. Não a fumar charros, como nos muros dos bairros onde muitos deixaram os amigos para se afastarem dessa vida, mas a assistirem a um improvisado combate de boxe entre dois formandos, que, de luvas apropriadas, se ofereceram para uma luta ao estilo da famosa sequela “Academia de Polícia”, dos anos 90. A partir daqui entram os bufos, também como nos filmes, que enviam os videos para os jornais com sugestões de falha “gravíssima”, a que a PSP corresponde com processos disciplinares que podem acabar em expulsão. E, por fim, entra a repulsa que tudo isto me mete. 

Não pelos bufos em si, cuja triste existência já deve ser por si só um fardo difícil de suportar. Quando têm consciência, claro, daquilo que representam em sociedade. De resto, é uma subespécie bem caricaturada em “Academia de Polícia” pelo papéis do capitão Harris e do seu fiel seguidor Proctor. Mas, ao contrário destas duas personagens, que estavam bem sinalizadas, os bufos de hoje são bem mais refinados - e cobardes, diga-se -, no anonimato e no conforto do WhatsApp. São os bufos digitais. 

Tirando isso, a única falha disciplinar que vejo nestes jovens é o facto de ainda não terem percebido, aos 20 anos, que há sempre um bufo, sempre, e portanto telemóveis, nunca, nunca! Custa assim tanto perceber isto, ou é preciso rever os testes psicotécnicos? 

Ou então, diga-se, interiorizaram que um combate leal e voluntário de boxe - desporto que faz parte da formação dos polícias - não tem mesmo mal nenhum para matar o tempo nas horas vagas. E eu estou com eles. Só não posso estar com quem quer prejudicar estes miúdos, na Polícia, nos media e onde calhar, mesmo que tivessem feito algum disparate menor - e eu não vi nenhuma referência a trocas de dinheiro em apostas, o que, isso sim, já seria chato. 

Acima de tudo, falamos de miúdos deslocados das zonas de residência, colocados em camaratas longe das famílias, que abdicam de outro tipo de sonhos para andarem na rua noite e dia, fardados, a defenderem as nossas vidas e a nossa integridade, insultados e apedrejados, sujeitos a levarem um tiro em algumas esquinas - e tudo isto a troco de 1.000 euros ao fim do mês. 

Se refletirmos 30 segundos sobre o cenário descrito no último parágrafo, a notícia daqueles vídeos é terem improvisado um combate de boxe ou o milagre de estarem ali dezenas de miúdos com vontade de serem polícias? É por isto que devíamos todos ter vergonha. Nós, porque os bufos já se sabe que não têm vergonha nenhuma.

Comentadores

Mais Comentadores