As vidas de dois homens foram destruídas por mentiras da polícia. Foram necessárias décadas para que a justiça fosse feita

CNN , Omar Jimenez
28 dez 2025, 09:00
A vida de dois homens foi destruída por mentiras da polícia. Levou décadas para que a justiça fosse feita

“Estive zangado com ele durante muito tempo”, disse James Gibson.

“Não queria falar com ele”, afirmou Keith Smith.

Ambos agora na casa dos 50 anos, cresceram no mesmo quarteirão do estado norte-americano de Chicago - “do outro lado da rua, três casas”, indicou Smith, apontando e contando, numa visita.

O que os afastou aconteceu em dezembro de 1989, quando ambos foram acusados do homicídio de dois homens no seu bairro.

A polícia deteve Gibson pelo crime, apesar de ele lhes ter dito que, à hora do homicídio, estava a tratar de um recado noutra parte do bairro.

Na esquadra, os agentes algemaram-no a uma cadeira. Foi mantido detido durante dias, período em que foi socado, esbofeteado e pontapeado. Perdeu os sentidos pelo menos uma vez enquanto esteve sob custódia, contou à CNN.

A polícia interrogava Smith ao mesmo tempo. Também ele foi violentamente espancado — até que, por fim, tomou uma decisão para conseguir sair dali.

“Vou mentir, para que provavelmente me deixem ir”, decidiu Smith, segundo relatou. A polícia disse a ambos os homens que o outro os tinha denunciado, e Smith aproveitou a oportunidade.

Para pôr fim ao cativeiro, Smith assinou uma declaração que não tinha escrito. Nela, afirmava que tinha servido de vigia enquanto Gibson cometia os homicídios.

Esta declaração acabou por não o ajudar a longo prazo, quando foi formalmente acusado do crime.

Gibson, por seu lado, manteve as negativas. Ainda assim, quando também foi acusado, a polícia disse ao tribunal que ele tinha admitido estar no local - e que afirmara que Smith também lá estava.

O que Gibson e Smith não sabiam durante anos é que o grupo de agentes que os torturou para os forçar a falar tinha feito o mesmo a muitas outras pessoas. A verdade demorou muito tempo a vir ao de cima.

“Eu e o Gibson fomos apenas peões na perseguição deles para tentar resolver casos”, sublinhou Smith.

Um comandante da polícia chamado Jon Burge chefiava o grupo de detetives que abusou de Smith e Gibson. Foi despedido alguns anos depois devido a acusações de brutalização de um suspeito sob custódia. Em 2025, sabia-se que pelo menos 130 pessoas tinham sido torturadas por Burge e pelos seus detetives.

A detenção

Gibson em tribunal no dia em que foi decidido que iria receber uma indemnização milionária

Depois de serem interrogados, Gibson foi enviado para casa, onde a família tentou abraçá-lo, mas percebeu que ele se encolhia com dores. A irmã ligou de imediato para a polícia para apresentar uma queixa.

No dia seguinte, a polícia apareceu.

“Havia uns 10 ou 15 agentes, todos mesmo no jardim da frente”, contou Gibson. Foi então que o detiveram e o acusaram de homicídio.

“Com a minha família dentro de casa, não quis causar qualquer confusão; levantei-me e eles disseram: ‘Estás preso’, e levaram-me dali”, recordou. Seria a última vez que veria a sua casa durante quase 30 anos.

Em outubro de 1991, Gibson foi julgado por um juiz, num julgamento sem júri. “Foi aí que eu fiz asneira”, reconheceu.

Hoje, gostaria de ter insistido num julgamento com júri. Mas, na altura, explicou, “nunca estive preocupado com nada. Nunca tive medo de nada, porque não fiz nada”. “Como é que se luta contra um processo que não existe?”, questionou.

As declarações obtidas sob coação, juntamente com o testemunho das irmãs de Smith (que mais tarde admitiriam ter mentido) e de outro homem que supostamente se encontrava na zona à hora do tiroteio — e que estava preso com uma acusação pendente de roubo à mão armada — foram mais do que suficientes para o juiz.

Gibson foi considerado culpado e condenado a prisão perpétua. Smith também foi condenado por homicídio e igualmente sentenciado a prisão perpétua.

Foi assim que Gibson e Smith acabaram ambos na prisão, cada um furioso, convencido de que tinha sido o outro a colocá-lo ali.

Uma formação jurídica

Um James Gibson mais jovem com a mãe, Clara. Andrew M. Stroth

No interior da prisão, motivado por um episódio de Perry Mason, Gibson tornou-se autodidata em direito, investigando todas as vias legais ao seu alcance. A mãe foi a sua inspiração. “Ela disse-me que eu ia voltar para casa e eu acreditei nisso”, afirmou. “E ainda estou zangado, mas ela disse-me que eu tinha de tirar algumas coisas do coração”, acrescentou, referindo-se à raiva que sentia. “Ainda estou a trabalhar nisso”, apontou.

Ela não viveria para ver esse momento. A mãe de Gibson morreu em abril de 2002, 12 anos depois de ele ter iniciado a pena. Ainda assim, ele ouviu o conselho.

Os pais de Smith também morreram enquanto ele cumpria a pena. Smith contou que começou a receber cartas de Gibson — estimou que algumas por ano.

“Nunca respondia, por estar zangado”, explicou. “Tu também te sentirias assim, se achasses que alguém te tinha feito uma coisa dessas.”

O que mudou? Falou com um recluso “da velha guarda” que “percebia de direito”. Esse homem disse-lhe: “Eles lixaram-vos aos dois.” E acrescentou: “Vocês os dois podem sair desta.” Finalmente, ao fim de 16 anos, Smith respondeu às cartas de Gibson.

Em 2006, Smith apresentou uma “petição sucessiva pós-condenação”, com base em novas provas constantes de um relatório de um procurador especial do Estado, que descrevia em detalhe perturbador como funcionava a operação de tortura de Burge.

Esse relatório corroborava as alegações de Smith de que a sua confissão fora produto de coação por parte da chamada “Midnight Crew”.

Smith só foi libertado em 2012, quando aceitou uma declaração Alford, que lhe permitiu manter a inocência ao mesmo tempo que admitia culpa, algo que pode reduzir uma pena de prisão. Para Smith, isso não importava. Após 22 anos, estava livre.

Gibson, entretanto, recorreu a uma recém-criada Comissão de Inquérito e Reparação por Tortura, encarregada de investigar alegações de tortura por Burge ou pelos seus detetives. Se cinco ou mais membros considerassem uma queixa credível, esta seria enviada diretamente para o Tribunal de Circuito para reapreciação judicial.

Em 2015, Gibson teve essa oportunidade. A comissão concordou que havia indícios de que fora torturado e remeteu o caso para o mesmo tribunal que o tinha condenado. Passaram-se anos, até que, por fim, lhe foi concedido um novo julgamento.

Depois, em abril de 2019, todas as acusações contra ele foram arquivadas e Gibson saiu em liberdade.

“Não senti nada”, disse. “Lutei durante tanto tempo que ainda estou a lutar. Estou como um pugilista atordoado.”

No ano seguinte, recebeu um certificado de inocência.

Ainda assim, não recuperou totalmente. “Transpiro todas as noites, a meio da noite, por volta das três”, contou, dizendo que as memórias das condições prisionais o mantêm acordado. “Tinha de tapar os ouvidos e o nariz com papel higiénico porque as baratas eram tantas. Ouviam-se, sentiam-se pelo cheiro”, descreveu.

Desfechos muito diferentes

Gibson e Smith cresceram no mesmo quarteirão, ambos foram torturados e enviados para a prisão, ambos perderam os pais enquanto cumpriam penas, e ambos acabaram por ficar livres.

Só recentemente é que os seus percursos divergiram.

Depois de Gibson ter obtido o certificado de inocência, avançou com uma ação cível contra a cidade de Chicago. Nesse ano, a cidade decidiu chegar a acordo, numa chuvosa quarta-feira de junho, pagando-lhe cerca de 13,5 milhões de euros.

“Cada vez que recebo uma bênção, chove. É a minha mãe”, disse Gibson. Depois de o conselho municipal ter ratificado oficialmente o acordo, tirou um momento para si próprio à porta das salas do conselho.

“Estou aqui, mãe, consegui. Estou aqui, mãe, eles não me conseguiram quebrar”, afirmou em voz alta, entre lágrimas. Uma das primeiras pessoas a confortá-lo foi Smith. Encontram-se com frequência; Gibson tinha ido a uma festa para celebrar o aniversário de Smith algumas semanas antes; naquele dia, estavam ali para uma festa para Gibson.

Enquanto Gibson era agora milionário, Smith disse estar “basicamente sem-abrigo”. “É difícil para mim, tudo.”

Smith não se qualificou para um certificado de inocência — que lhe teria permitido avançar com uma ação cível — porque aceitou a declaração Alford para sair da prisão mais cedo.

“Quando fazes isso, não tens qualquer reparação”, explicou o advogado de Gibson, Andrew M. Stroth, diretor executivo do Action Injury Law Group. Como Smith aceitou esse acordo para sair mais cedo, “não pode intentar uma ação cível”, acrescentou.

Smith disse estar satisfeito por ter saído quando saiu — quase uma década antes de Gibson. “A minha mãe tinha acabado de morrer, o meu pai tinha acabado de morrer. Achas que eu estava a pensar em dinheiro?”, questionou. “Que se lixe o dinheiro. Foi isso que eu fiz.”

Keith Smith fala à CNN a partir do bairro de Englewood, em Chicago.

“Podias dar-lhe cem milhões de euros”, afirmou Smith, “mas mesmo assim o Gibson não recuperava os sete anos que lhe tiraram.”

Se a situação fosse inversa, referiu Gibson, teria feito o mesmo.

“Se a minha mãe ainda estivesse viva, eu também teria aceitado uma declaração Alford, só para passar um momento com ela”, disse. “Mas a minha mãe morreu nos primeiros 12 anos do meu encarceramento injusto. Eles não tinham moeda de troca quando começaram a tentar negociar comigo.”

“James Gibson podia ter saído da prisão muito mais cedo, mas, por ser inocente e saber que o era, decidiu lutar até ao fim”, sublinhou Stroth.

Enquanto Smith olhava em redor, avaliando onde estava exatamente e o que foi preciso para ali chegar, recordou as últimas palavras que ouviu antes de a sua liberdade lhe ser retirada, décadas antes.

“‘Levem-no sob custódia do Departamento de Correções, onde cumprirá o resto da sua vida’”, lembrou-se, aproximadamente, de o juiz ter dito.

“Olha onde eu estou. Olha onde o Gibson está”, afirmou. “É uma coisa tão pesada que me dá vontade de chorar.”

Smith é o primeiro a admitir que a vida é difícil atualmente. “Sem transporte, sem trabalho estável — o que eu queria era isso, e poder ter um sítio para onde voltar a casa”, disse, enquanto caminhávamos pelo quarteirão.

Mas, acrescentou, “tenho aquilo que realmente queria, que é a liberdade”, poder “simplesmente levantar-me e sair para a rua”.

Gibson disse que, apesar de agora ter dinheiro, o peso de nunca poder recuperar o tempo perdido continua a acompanhá-lo.

“Não há parabéns possíveis”, afirmou. “Eu tinha a vida inteira à minha frente.” Estava parado à porta da antiga casa da família.

“Damos tantas coisas por garantidas cá fora”, disse. Olhou para a tempestade. “Esta é a chuva. A limpar e a lavar toda a outra porcaria”, acrescentou. “Ela está a enviar-me um sinal, a dizer: ‘Agora estás satisfeito?’”

Smith está a trabalhar para chegar ao mesmo ponto de vista. “Estou a tentar recuperar”, afirmou. “Não consigo recuperar esses mais de 20 anos. Tenho de aproveitar o que resta disto, e é assim que encaro a estrada à minha frente.”

Graelyn Brashear, Madeleine Thompson, Lacy Roberts, Sofía Sanchez, Emily Williams, Kyra Dahring e Lauren Kim contribuíram para esta reportagem.

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