Rasto das bitcoins que desapareceram da PJ chega ao Canadá. Donos exigem-nas de volta: "Não vejo coragem"

3 set, 07:00
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O mistério das bitcoins que desapareceram quando estavam à guarda da Polícia Judiciária chegou a um cidadão canadiano, mas o casal a quem as criptomoedas foram apreendidas - e que entretanto foi absolvido - desconfia da nova pista e exige que a investigação procure primeiro dentro de portas. “Acho que os culpados estão bem mais perto, não é preciso ir ao Canadá para encontrar culpados”, afirma à CNN Portugal, enquanto aguarda que a PJ e o Ministério Público cumpram a decisão judicial que determinou a devolução dos ativos

Quase oito anos depois de a Polícia Judiciária ter perdido o rasto das bitcoins que desapareceram quando já estavam à sua guarda, o casal a quem pertenciam as criptomoedas acusa agora a investigação de ter desperdiçado tempo e ignorado pistas que estavam à vista desde o início. “Não vejo coragem para levar a investigação por diante”, diz à CNN Portugal o casal, entretanto absolvido das acusações que levaram à apreensão daqueles ativos no valor de mais de 600 mil euros - e que agora estão a aguardar a devolução dos bens.

Em entrevista, o casal explica que a investigação dificilmente pode chegar a uma resposta enquanto “os suspeitos óbvios” - aqueles que, diz, “tiveram contacto com a chave privada” dentro da PJ e do Ministério Público - não sejam devidamente escrutinados. “Em 2019, simplesmente esqueceram aquilo, não quiseram saber”, acusa um dos elementos, apontando diretamente para a forma como foi seguido o rasto das moedas. Durante anos, sustenta, as autoridades souberam que as bitcoins tinham chegado a um casino online, mas não pediram à plataforma os dados que poderiam permitir perceber quem estava por detrás da conta que recebeu os fundos.

“Eles não contactaram o casino”, insiste, até que, durante uma audiência do julgamento que viria meses mais tarde a terminar na absolvição do casal, em fevereiro de 2025, o desaparecimento das bitcoins voltou a ser levantado pela defesa. Nesse mesmo dia, a PJ retomou o rasto, contactou a plataforma e, quatro dias depois, recebeu uma resposta com novos elementos para a investigação.

Uma sequência que, afirma o casal, tornou-se “difícil de ignorar”. “Podia ter avançado em outubro de 2019, se alguém tivesse enviado um email, mas como ninguém quis enviar um email em outubro de 2019, a investigação não foi a lado nenhum”, acusa. “Agora, em fevereiro de 2025, já quiseram enviar um email e então já avançou”.

O caso remonta a outubro de 2018, altura em que a casa do casal em Vila Nova de Gaia foi alvo de uma megaoperação em que a Polícia Judiciária apreendeu computadores, telemóveis e uma carteira de criptomoedas - na altura tida como a maior apreensão de bitcoins da história da justiça portuguesa. “Tínhamos um espírito de colaboração com as autoridades porque não tínhamos nada a esconder”, recorda agora o casal. “Levaram o que quiseram. Computadores, carteiras da minha mulher, televisões, tudo o que quiseram levar”. Para tratar das criptomoedas, foram chamados dois especialistas da unidade de combate ao cibercrime de Lisboa.

Pista ficou parada durante anos e só avançou depois de um email

Com as credenciais fornecidas pelo casal, os inspetores transferiram 9,72 bitcoins para uma nova carteira criada durante a operação e colocada sob controlo da PJ. O homem lembra-se de ver os dois especialistas a preparar a transferência: “Lembro-me de um estar a ditar o endereço para o outro, que escreveu no meu computador, e fizeram assim a transferência”. A chave privada - o código que permitia movimentar aqueles ativos - ficou depois na esfera das autoridades, passou pelos sistemas da Judiciária e acabou também por ser impressa.

Quatro dias depois da busca, a carteira começou a ser esvaziada enquanto estava na posse da Polícia Judiciária. O misterioso desaparecimento foi feito através de quatro movimentos num sábado de manhã até o saldo desaparecer por completo. O casal diz só ter sabido disto anos mais tarde, quando foi chamado à PJ e constituído arguido no próprio inquérito ao desaparecimento. “Sentimos estupefação total”, recordam. “Fiquei ainda muito mais estupefacto depois ao perceber que nenhuma das outras pessoas que teve contacto com a carteira após ser apreendida, que aliás eu não tive, era suspeita e muito menos arguida”. 

O desaparecimento acabou por desencadear duas frentes dentro da própria Polícia Judiciária. Além do inquérito criminal, entregue à Unidade Nacional de Combate ao Cibercrime e colocado em segredo de justiça, a Unidade Disciplinar e de Inspeção abriu um processo para apurar eventuais responsabilidades internas. A investigação começou por reconstruir todo o circuito da chave privada, nomeadamente incidindo sobre quem lhe tinha tocado, por onde tinha passado e em que condições tinha sido guardada e, ao mesmo tempo que seguia o rasto das moedas e procurava perceber se o casal tinha recuperado, por alguma via, o dinheiro apreendido. Em janeiro de 2020, porém, nenhum funcionário da PJ tinha sido constituído arguido e continuavam a aguardar-se respostas de entidades estrangeiras. 

As suspeitas acabaram por se concentrar sobretudo no casal. Os telefones foram colocados sob escuta durante cerca de dois meses e as contas bancárias escrutinadas, mas nenhuma das diligências encontrou sinais de que as bitcoins lhes tivessem regressado às mãos. Em julho de 2021, os dois foram ainda assim constituídos arguidos por suspeitas de acesso ilegítimo e descaminho. Na altura insistiram que “a única forma de efetuar transações de bitcoins seria utilizando a chave privada”, à qual garantiam nunca ter tido acesso. O próprio relatório final da PJ acabaria por reconhecer os limites da investigação: “Não resultou qualquer prova relativamente à movimentação da carteira de bitcoins”. Quem a esvaziou, concluíram os investigadores, “sabia o que fazia” e possuía conhecimentos que “não é para qualquer leigo”. 

Ainda houve tentativas de seguir outros caminhos no estrangeiro, mas nenhuma permitiu identificar o autor. Em junho de 2022, o Ministério Público decidiu fechar o processo. No despacho de arquivamento reconheceu que “não foi possível concluir, com um grau de segurança objetivo” quem permitira o acesso à chave privada ou quem movimentara as moedas. Nem o casal nem qualquer elemento da PJ foram acusados pelo desaparecimento. 

O outro processo - aquele que tinha levado à busca de 2018 e à própria apreensão das criptomoedas - continuou, no entanto, a correr. E, em 2025, ambos foram absolvidos dos crimes de branqueamento agravado e fraude fiscal de que estavam acusados. 

Essa decisão tornou-se definitiva a 15 de setembro de 2025 e resultou numa nova consequência para as autoridades. Quando julgou absolver o casal, o tribunal mandou também a PJ e o MP devolver-lhes tudo aquilo que tinha sido apreendido, incluindo as bitcoins que desapareceram.

Rasto chegou ao Canadá, mas a chave privada continua no centro do mistério

E é aqui que surge uma nova informação. Para além da carteira esvaziada poucos dias depois da apreensão, existia uma segunda carteira criada pela própria Polícia Judiciária a 5 de outubro de 2018. Para lá foram transferidas 0,064 bitcoins que tinham ficado de fora da primeira operação. Quando o desaparecimento das 9,72 bitcoins começou a ser investigado, uma das primeiras preocupações da PJ foi precisamente confirmar se esta segunda carteira continuava intacta. Continuava: “Nessa altura ainda estava com os fundos originais”, recorda agora o casal.

Essa segunda carteira surge atualmente com saldo zero. Segundo o casal, há registo de movimentação em maio de 2024. Um dos elementos admite, porém, não saber se a transferência foi legítima - por exemplo, para outra carteira controlada pelas autoridades - e afirma apenas não ter encontrado qualquer referência ao movimento no processo.

Mas o processo voltou a mexer - e desta vez com uma pista concreta no estrangeiro. Num despacho de abril de 2026, o Ministério Público admite que o inquérito já tinha sido “por duas vezes arquivado” e outras tantas reaberto. A última reabertura permitiu à PJ voltar a seguir o rasto das moedas e recolher aquilo que o procurador classifica como “indícios já fortes da identidade do branqueador” das bitcoins desaparecidas.

O rasto levou ao Canadá. Segundo o MP, as 9,72363926 bitcoins saíram da carteira criada pela PJ e foram “diretamente depositadas em três contas na plataforma SPORTSBET”, todas ligadas à mesma pessoa. A partir daí, os investigadores cruzaram endereços de criptomoedas, contas e registos de plataformas até chegarem a um utilizador concreto.

Só que esta nova investigação pedida por Carlos Cabreiro, hoje diretor da Polícia Judiciária, continua sem responder a uma pergunta essencial. O próprio Ministério Público reconhece que esse cidadão nunca consultou o processo português e, portanto, não teria conhecido por essa via da chave privada nem a forma de lhe aceder. O que significa que a investigação já sabe muito mais sobre para onde foram as moedas, mas continua sem explicar como foi obtida a chave que permitiu tirá-las de uma carteira sob controlo policial.

A nova pista fez também disparar uma série de diligências. Portugal pediu às autoridades canadianas informação bancária, registos de IP, dados de contas de criptomoedas, movimentos de entrada e saída do país e a localização do suspeito. Pediu também que fosse constituído arguido e interrogado. E solicitou ainda autorização para que elementos da própria Polícia Judiciária se deslocassem ao Canadá para acompanhar as diligências no terreno.

O casal, porém, olha para a pista canadiana com desconfiança e volta a apontar para o circuito da própria apreensão. “Não dou muita credibilidade a essa linha de investigação”, afirma à CNN Portugal. “Eu acho que os culpados estão bem mais perto, não é preciso ir ao Canadá para encontrar culpados”. Admitindo que as moedas possam ter acabado naquele país, insistem que, antes de seguir o destino final, as autoridades deveriam esclarecer quem conseguiu desviar os ativos da posse da própria Polícia Judiciária. “Convinha primeiro procurar aqui quem é que faz isso”.

É também por isso que rejeita as suspeitas que recaíram sobre si. Em entrevista, um dos membros do casal assume ter conhecimentos técnicos suficientes para movimentar criptomoedas, mas diz que isso não basta. “Os conhecimentos para fazer isso eu tenho. Não nego, nem preciso negar nada disso. Mas o conhecimento da chave privada eu nunca tive. E, portanto, não podia ter sido eu a fazer isso”, afirma. Para o casal, o ponto de partida continua a ser o mesmo: “As condições para alguém poder fazer aquilo é ter acesso à chave privada, e essas pessoas estão bem identificadas, desde o início”.

À CNN Portugal, fonte oficial da Procuradoria-Geral da República refere que o inquérito, reaberto no ano passado, “encontra-se em investigação e está sujeito a segredo de justiça externo”. Já a Polícia Judiciária sublinha que os factos relativos às Bitcoins "encontram-se sob investigação, após esta Polícia ter solicitado a reabertura do inquérito, pelo que nada mais tem a acrescentar". 

Ao mesmo tempo que a investigação procura uma resposta, o casal admite vir a processar o Estado. No entanto, garante, antes de avançar por essa via, quer ver cumprida a decisão do tribunal e recuperar os bens que lhe foram apreendidos. “Em primeiro lugar, eu queria recuperar tudo aquilo que me tiraram, sem entrar em indemnizações”, afirma, garantindo que o advogado da família tem insistido junto das autoridades e que, apesar de a absolvição ter transitado em julgado em setembro de 2025, continuam por devolver vários dos bens apreendidos.

No caso das criptomoedas, o casal rejeita qualquer solução que passe por devolver apenas o valor que aqueles ativos tinham em 2018. “É a mesma coisa como terem vindo apreender o Ferrari e agora dizerem-me que me devolvem um Mercedes”, compara um dos elementos, exigindo a restituição da mesma quantidade de criptomoeda que foi apreendida. “Não me interessa se são compradas agora ou de onde é que vêm. Quero o mesmo número que me retiraram.”. “Apreenderam-me as bitcoins e eu quero bitcoins”.

O caso pode, por isso, acabar numa disputa judicial contra o próprio Estado caso as bitcoins já não possam ser devolvidas. Nuno Lima da Luz, advogado especialista em criptoativos, admite que o casal possa exigir uma indemnização em moeda fiduciária, embora permaneça a dúvida sobre se deverá ser considerado o valor das criptomoedas à data da apreensão ou o valor atual. “Poderá, assim, existir uma ação de responsabilidade civil extracontratual contra o Estado” por não ter protegido os bens que apreendeu. “Há o risco de ser o Estado, todos nós, a ter de pagar pelo erro”, alerta.

O impacto, porém, foi muito além dos bens apreendidos. “A vida que nós tínhamos até essa altura, na prática, acabou”, admite o casal. Oito anos depois, diz que conseguiram recomeçar: “Fomos capazes de construir uma nova vida em cima disso.” Ainda assim, sublinha: “O processo, na realidade, ainda não está acabado”. Ao mesmo tempo, o advogado da família já tem vindo a pressionar as autoridades competentes e enviou, igualmente, uma carta à Procuradoria-Geral da República - até ao momento sem resposta.

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