Diretora nacional-adjunta de Luís Neves nunca foi informada sobre atrelado - apesar de gerir os bens apreendidos pela PJ
Antiga responsável da PJ não consegue encontrar qualquer explicação para o mistério do atrelado encontrado nas mãos do empreiteiro que fazia obras em terrenos do ministro no Alentejo. Há 11 dias que Luís Neves não responde a qualquer pergunta sobre o tema, prometendo esclarecimentos para mais tarde
A directora nacional-adjunta nos oito anos em que Luís Neves esteve na liderança da Polícia Judiciária garante que só ficou a saber pela televisão que havia um atrelado apreendido num processo de tráfico de droga entregue a um particular.
Luísa Proença foi, até janeiro deste ano, uma das dirigentes hierarquicamente logo abaixo de Luís Neves e a quem este delegou, durante anos, a competência de gerir as "viaturas e demais objetos apreendidos" pela PJ, como se pode ler em Diário da República. Teve também a seu cargo a Direção de Serviços de Gestão Financeira e Patrimonial desta mesma polícia, ou seja, a unidade da Polícia Judiciária responsável pela guarda destes bens.
Contactada pela investigação da TVI/CNN Portugal/Nascer do Sol, Luísa Proença denota claramente surpresa por ter ficado a saber pela televisão que existia um atrelado apreendido nas mãos de João dos Santos Carvalho - um empreiteiro que tinha assinado 17 contratos com a PJ (no valor de 2,3 milhões de euros) e fazia obras particulares a Luís Neves no Alentejo, de quem o ministro já disse que tinha ficado amigo.
Luísa Proença não quer comentar o caso, mas admite que "não tive qualquer conhecimento da ida para Barcelos de um atrelado apreendido no âmbito de um processo".
Recorde-se que além do atrelado de um camião (conhecido tecnicamente como galera), na viagem para Barcelos também seguiram químicos para fabrico de droga, igualmente apreendidos no âmbito do mesmo processo que ainda nem começou a ser julgado - bens que são, também, prova de um crime.
A ex-diretora nacional-adjunta não consegue compreender aquilo que se passou e refere que tem de ser Luís Neves a apresentar alguma explicação.
Luísa Proença admite ainda que nunca foi informada que teria existido algum pedido de outra entidade pública para retirar o atrelado e os referidos produtos químicos do parque de apreendidos do Seixal.
Luís Neves nunca falou publicamente sobre o caso do atrelado que foi noticiado pela TVI/CNN Portugal/Nascer do Sol há já 11 dias, mas, segundo o Diário de Notícias, o actual ministro argumentará que o atrelado teve de sair das instalações da Marinha no Seixal - dona do espaço - após esta ter informado que não poderia manter a galera nas instalações e requerido a sua retirada com carácter de urgência.
Apesar de não ter a competência sobre a decisão do que fazer aos bens apreendidos (competência exclusivamente nas mãos de Luís Neves), Luísa Proença era a responsável pela gestão dos lugares onde estes bens eram colocados, bem como zelar pelas instalações e encontrar espaços disponíveis.
Sem comentários, a ex-responsável da PJ apenas admite que seguramente existiria alternativa em vez de colocar o atrelado à responsabilidade de um particular.
Recorde-se que o atrelado foi encontrado num lugar público, à porta da Construbarcelos, a 350 quilómetros do Seixal e ligado a um camião desta mesma empresa de construção civil.
Veiga Moura, advogado especialista em Direito Administrativo, adianta que por lei, apesar da gestão dos bens apreendidos ser uma competência delegada na diretora adjunta-nacional, Luís Neves continuava a ser o máximo responsável por qualquer uma das áreas delegadas, podendo usar essa competência com ou sem o conhecimento de Luísa Proença.
A investigação da TVI/CNN Portugal Nascer do Sol apurou que seria comum Luís Neves tomar decisões sem o conhecimento da sua adjunta, falando diretamente, por exemplo, com o diretor dos serviços de gestão financeira e patrimonial da PJ, onde se incluía a gestão dos bens apreendidos e à guarda desta polícia.
