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Jornalista,editor de Sociedade

Facas plantadas e histórias inventadas: quando o crime veste farda

18 mai, 19:31
PSP (Foto: Facebook PSP)
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A Polícia Judiciária informou um tribunal, e o país, de que alguém na PSP adulterou um cenário de crime, distorcendo a verdade, para tentar legitimar a morte de Odair Moniz às mãos de dois agentes na Cova da Moura, Amadora. Enganando, deliberadamente, o Ministério Público, a família da vítima, e toda a sociedade. Primeiro, com o plantar de um punhal junto ao corpo da vítima e que, afinal, estava guardado dentro de uma bolsa. E depois com a falsificação de um auto de notícia e consequente mentira narrada num comunicado público, com referência à ameaça de uma arma branca que teria forçado os agentes a disparar. Pior: aquele punhal, sem impressões digitais no cabo, nem de Odair seria. Tudo isto, nu e cru, está subjacente ao que uma inspetora-chefe da PJ afirmou, assente na perícia, na técnica e na experiência. Disse-o por outras palavras, mas as letras estão lá todas. E é isto, com toda a intencionalidade e frieza de espírito, que coloca um polícia ao nível de um criminoso. 

É este dolo que merece ser perseguido, exposto, e extirpado de uma Polícia que se quer Polícia. Mais do que a ação de um agente que teve um azar, sem intenção, mesmo que essa ação tenha tirado a vida a alguém. Embora tivesse a obrigação de prever o resultado dos seus atos, no calor do momento, da violência e da resistência de Odair, e face à sua inexperiência, goza de especiais atenuantes. Só não tem atenuantes, repito, quem foi à volta manipular a realidade. Eu, cidadão, não retiro a minha confiança a uma polícia onde os erros acontecem, cometidos por gente bem intencionada que anda em patrulhas, à noite, a arriscar a vida para que nós possamos dormir descansados. Mas retiro toda a confiança a uma polícia com cultura de cowboys – onde as boas práticas e o estrito cumprimento da lei num estado de direito são questões de pormenor. Quem planta uma faca, para ilibar um colega, planta droga para incriminar um suspeito ou um adversário. Algo que, diga-se, nem seria inédito. 

Nesta trama de manipulações do caso Odair, nada surpreende nos factos: a TVI e a CNN Portugal já os tinham revelado, com base no que conhecíamos da investigação, mas chega agora a confirmação formal, com um estrondo a que a PSP parece reagir com um silêncio ensurdecedor. Reside assim a esperança no sr. ministro da tutela, e na sua Inspeção-geral da Administração Interna, depois de o próprio Luís Neves ter afirmado, a propósito dos horrores da esquadra do Rato, ser compreensivo com quem comete um erro não intencional, querendo praticar o bem, mas implacável quando o crime veste uma farda da PSP ou da GNR.

Denunciar mentiras, como a TVI e a CNN Portugal fizeram, mesmo que estejam a arder caixotes nos bairros nos bairros da Amadora, como estavam em outubro de 2024, não é uma inconsciência nem antipatriótico, lamento. É o dever de informar, na defesa intransigente da verdade, da transparência, da democracia e do estado de Direito.

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