Vale de Judeus: fugitivo mais perigoso "era o cérebro" de uma operação planeada "durante muito tempo". Os últimos foram apanhados em Espanha (onde continuavam a cometer crimes)

7 fev, 10:15

Lembrando que "não há fronteiras para o crime e tão pouco deveria haver limites para a cooperação policial", diretor da PJ enalteceu colaboração com a Polícia Nacional

As polícias responsáveis pela detenção dos evadidos de Vale de Judeus falaram, esta sexta-feira, sobre a operação de captura, com Francisco Pardo Piqueras, diretor-geral da Polícia Nacional, a enaltecer o trabalho conjunto da Polícia Judiciária (PJ) e da Polícia Nacional Espanhola.

"Trata-se de um trabalho que se iniciou no dia da fuga. Desde o minuto zero que a Polícia Judiciária e a Polícia Nacional trabalharam para a detenção dos evadidos. Quero agradecer à cooperação entre as duas polícias. Somos conscientes que não há fronteiras para o crime e tão pouco deveria haver limites para a cooperação policial", afirmou Piqueras.

Sobre os detidos, o diretor-geral da Polícia Nacional afirmou que Rodolfo Lohrmann é "tremendamente perigoso, especialista em fugas, que protagonizou diferentes fugas em países distintos em ocasiões anteriores", mas deixou claro que "ambos os delinquentes são muito perigosos".

Lohrmann e Roscaleer já se encontram detidos em Alicante, na costa mediterrânica de Espanha, sendo que o primeiro já foi colocado à disposição judicial e "no próximo domingo Roscaleer vai ser colocado à disposição judicial para ser iniciado o processo de extradição".

Piqueras adiantou ainda que a "colaboração começou um mês depois da fuga" e que as duas polícias conseguiram "a detenção do primeiro evadido em Marrocos", numa operação concluída esta quinta-feira com "a detenção dos últimos dois".

Luís Neves enalteceu também o trabalho das duas polícias, dizendo que este "é um dia feliz para a justiça e para os polícias".

"Ontem, como foi dito, foi detido o El Russo, Lohrmann, argentino, e Roscaleer, britânico, ambos violentos. Lohrmann já tinha sido detido em Portugal por crimes violentos, era um dos criminosos mais procurados na América do Sul", afirmou o diretor nacional da PJ.

Os dois eram também procurados na Argentina e no Paraguai por homicídios.

"Na polícia pensamos também na família das vítimas e nas vítimas. E por isso damos uma saudação às famílias que estão à espera disto, que quando esta gente fugiu da cadeia, ficaram destroçadas", afirmou, acrescentando que "Portugal e a justiça portuguesa está profundamente agradecida aos seus colegas por terem permitido um trabalho de excelência".

Luís Neves disse ainda que "depois dos factos graves que aconteceram em Portugal é importante termos conseguido este objetivo".

"Dois dos fugitivos mais violentos que existem"

O comissário Martínez Duarte, da Polícia Nacional de Espanha, explicou que os dois detidos - "dois dos fugitivos mais violentos que existem" - estavam "a trabalhar entre Málaga e Alicante", numa organização criminal, e foram apanhados numa gasolineira em Alicante, perto de Valência.

"Inicialmente, pensávamos que estivessem a trabalhar entre Málaga e Alicante mas, posteriormente, com a gestão realizada pelos colegas de Alicante e de Lorca, conseguimos concretizar e estabelecer um serviço de vigilância sobre dois dos fugitivos mais violentos que havia. No dia de ontem, quando abandonaram a sua residência em Alicante, o serviço de vigilância e seguimento que estava estabelecido procurou o momento mais seguro para a intervenção, o momento mais apropriado, pois sabíamos ou temíamos que este grupo pudesse ir armado e foi numa gasolineira que os membros do serviço de vigilância viram a oportunidade, uma vez que tinham saído do veículo, de poder intervir com segurança para eles e para os viajantes", afirmou o comissário.

O responsável explicou ainda que "houve resistência pelos dois evadidos" no momento da detenção, porque são "pessoas muito violentas" e perigosas.

"Resistiram e tiveram de ser contidos pelas nossa polícias e, no momento da detenção, no veículo, encontrou-se, como assim temíamos, uma pistola e um revólver na bagageira, assim como uns 50 mil euros e placas de matrículas dobradas, documentação falsa, etc. Estamos perante dois detidos de grande, grande perigosidade, tirámos das ruas duas pessoas muito perigosas e a mensagem é que Espanha não é um lugar confortável para os fugitivos", afirmou.

Martínez Duarte revelou ainda, durante as perguntas dos jornalistas, que as autoridades vão agora "fazer uma reconstrução dos seus dias por Espanha e de o que estavam a fazer e com quem estavam a trabalhar".

Explicando ainda a operação, Luís Neves revelou que "Cameron tinha apoios no sul de Espanha" e, "na véspera da detenção, tínhamos preparado uma ordem europeia de investigação, para que Espanha pudesse ter mais meios".

"Tínhamos a suspeita que o detido em Marrocos ali se encontrava, pela obtenção de vários tipos de informação, e quando detetámos que a mulher se dirigia para Marrocos, pedimos ajuda. O apoio foi-nos dado quer no território espanhol, quer depois em Marrocos", acrescentou, sobre a detenção de Fábio Loureiro, para salientar a lógica de cooperação que imperou desde o início.

Sobre os evadidos agora capturados, "aguardam extradição para Portugal".

"Entre hoje e até domingo os detidos vão ser colocados à disposição das autoridades judiciais. É neste momento já uma decisão das autoridades judiciais. Os mandatos de detenção europeus são mais rápidos do que as de extradição internacional. Aguardam a extradição para Portugal. O argentino é procurado por vários países. a detenção tem por base o mandato de detenção europeu emitido pelas autoridades portuguesas", acrescentou.

"Detenção foi a cereja no topo do bolo"

Luís Neves explicou ainda que "foi uma surpresa" quando conseguiram deter dois dos evadidos em vez de um, dando assim por terminada a operação de captura dos evadidos de Vale de Judeus, um dia antes de se completarem os cinco meses da fuga.

"Nunca verbalizei que sabíamos da primeira hora que estivessem em Alicante. Pelo histórico, sabíamos que tinham contactos no sul de Espanha. A localização foi um trabalho de filigrana dos colegas espanhóis, sabendo que eles tinham contactos aqui. Foi com surpresa que ontem, quando recebemos o telefonema, em vez de um detido foram dois. Nunca pensámos que em vez de um detido tivéssemos dois. Foi a cereja no topo do bolo", referiu Luís Neves.

O diretor da PJ acrescentou que as polícias pensam que "o argentino é o cérebro da fuga" e "tem um perfil psicológico que é um manipulador", acrescentando que Lohrman "é o principal e juntou-se com outros dois estrangeiros [os outros fugitivos] e dois portugueses e engendraram esta fuga durante muito tempo".

"Importa dizer que Lohrman já tinha fugido de várias prisões, incluindo da Bulgária", lembrou.

Aos jornalistas, após a conferência de imprensa, Luís Neves disse ainda que Lohrmann e Cameron se conheceram na cadeia.

"Nós nunca pensámos, até também à altura, que pudessem estar os dois juntos, e pronto, conheceram-se na cadeia, estreitaram-se de confiança. O britânico, o cidadão britânico, o Cameron, é um indivíduo muito violento, muito violento. Posso afirmar que nos vários crimes que cometeu e que são nossos conhecidos, utilizou violência gratuita sobre as vítimas e, por isso, o trabalho está feito, agora é perceber se houve outros crimes que foram cometidos ou não", sublinhou.

Sobre a rapidez na detenção dos evadidos, o diretor da PJ confessou que "nunca" pensaram que "em tão curto espaço de tempo possível fosse possível acelerar a detenção dos cinco evadidos".

"Houve muito trabalho dos dois lados, muita parceria, um grande profissionalismo, muito sacrifício das pessoas, muito sofrimento, e pronto, conseguimos alcançar este objetivo", finalizou.

Os dois evadidos foram detidos, na quinta-feira, em Alicante. Rodolfo José Lohrmann, de 59 anos, também conhecido como "Russo", cumpria uma pena de prisão de 20 anos, tendo dado entrada na prisão a 16 de novembro de 2016.

Já Mark Cameron Roscaleer, que estava referenciado pela prática de criminalidade especialmente violenta, como roubo com arma de fogo e sequestro, cumpria uma pena de nove anos de prisão, tendo entrado na prisão a 10 de maio de 2019.

Já tinham sido apanhados, recorde-se, Fábio Loureiro, Fernando Ferreira e Sergili Farjiani. O primeiro estava em Marrocos, o segundo no norte de Portugal e o terceiro em Itália.

O primeiro a ser capturado, em Marrocos, foi Fábio Loureiro, conhecido por Fábio “Cigano”. O evadido foi detido pelas autoridades marroquinas, em Tânger, com a colaboração das autoridades espanholas em estreita articulação com a Polícia Judiciária. 

Fernando Ribeiro Ferreira, evadido do Estabelecimento Prisional de Vale de Judeus, foi capturado pela Polícia Judiciária em Trás os Montes, numa operação policial que contou com a colaboração da Guarda Nacional Republicana (GNR). Sobre Fernando Ribeiro Ferreira recaía um mandado de detenção internacional emitido pela autoridade judiciária competente, constando de notícia vermelha na Interpol.

Já Shergili Farjiani, georgiano, foi capturado em Itália, na sequência dos pedidos de cooperação internacional da Polícia Judiciária, e com recurso ao mandado de detenção europeu. O georgiano de 40 anos, que estava a cumprir sete anos de cadeia por furto, violência e falsificação, deverá agora ser transferido para Portugal, onde cumprirá o resto da pena e responderá ainda pelo crime de evasão.

A fuga de cinco prisioneiros de Vale de Judeus aconteceu a 7 de setembro e levou, três dias depois, à demissão do diretor-geral de Reinserção e Serviços Prisionais, Rui Abrunhosa Gonçalves.

A fuga foi registada pelos sistemas de videovigilância pelas 09:56, mas só foi detetada pelos operacionais 40 minutos depois, quando os reclusos regressavam às suas celas.

Os evadidos - dois cidadãos portugueses, Fernando Ribeiro Ferreira e Fábio Fernandes Santos Loureiro; um cidadão da Geórgia, Shergili Farjiani; um da Argentina, Rodolf José Lohrmann; e um do Reino Unido, Mark Cameron Roscaleer - foram condenados a penas entre os sete e os 25 anos de prisão por vários crimes, entre os quais tráfico de droga, associação criminosa, roubo, sequestro e branqueamento de capitais.

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