Um "cheiro intenso" detetado no balneário do Sporting na visita ao FC Porto provocou "mal-estar físico imediato" em elementos da equipa de andebol dos leões. A delegada ao jogo da Federação Portuguesa de Andebol, Rosa Ponte, descreveu assim a situação: "Estava um cheiro muito intenso que me provocou ardor e deixou os olhos vermelhos, além de um pingo no nariz". O Ministério Público já abriu uma investigação
O advogado especialista em direito do desporto, Pedro Henriques, frisa desde logo à CNN Portugal que a responsabilidade pela manutenção e segurança das instalações recai inteiramente sobre o clube visitado. “É obrigação do clube reunir as condições de organização e de segurança que são imprescindíveis para a realização de um evento desta natureza”, reitera o advogado, ao analisar o caso.
A situação já seguiu para o Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Andebol, que contactada pela CNN Portugal, recusou, para já, a comentar o incidente enquanto decorre a investigação. "Já decorre um processo disciplinar e os órgãos competentes estarão, certamente, a analisar a existência de eventuais irregularidades e a sua natureza", sublinha Pedro Henriques, em declarações feitas antes de o Ministério Público (MP) ter confirmado que abriu um inquérito: "Os factos podem configurar crimes de natureza pública", justifica o MP, que "solicitou à PSP o respetivo auto de notícia".
Pedro Henriques sublinha precisamente este último ponto - o da PSP - para que se possa apurar a verdade. “No fundo, há que analisar toda a documentação que foi feita pelos delegados de saúde, pela PSP e eventualmente pelos próprios árbitros - e até outras testemunhas que possam ter estado no balneário.”
Contactado pela CNN Portugal, o comandante dos Bombeiros Jorge Mendes explica que os operacionais que assistiram os jogadores faziam parte do contingente previamente destacado para o evento. “É feito um relatório de acompanhamento, sempre. Mesmo que os jogadores tenham sido assistidos nas instalações, é elaborado um relatório de ocorrência que, certamente, foi passado à equipa médica do Sporting”, diz o comandante.
Por outro lado, a chefe de relações públicas do Comando Metropolitano do Porto confirmou a presença da PSP no local, sublinhando que a força policial acompanhou o evento dentro da normalidade esperada. Segundo a mesma fonte, não foi levantado qualquer auto, uma vez que, no momento da fiscalização, não foram detetadas “irregularidades” que justificassem uma intervenção policial imediata.
As eventuais consequências para o FC Porto
Pedro Henriques explica que, caso se comprovem os factos, a responsabilidade pode ser atribuída a título de dolo (intencional) ou de negligência, explicando também que em qualquer dos desfechos “pode haver sanções”.
As sanções previstas no regulamento de disciplina incluem “multas, interdição de recinto e em último caso a perda de pontos”, sendo que estas são sanções no âmbito desportivo. A par disso, Pedro Henriques sublinha que o caso pode extravasar a justiça desportiva - algo que sucedeu entretanto com o inquérito aberto pelo MP.
“Pode eventualmente haver lugar à responsabilidade civil e até criminal, tendo em consideração que houve pessoas singulares”, aponta Pedro Henriques. O advogado explicita que a inalação de substâncias que causem danos na saúde “pode constituir a prática de um crime à integridade física”. “Há aqui várias áreas de jurisdição que podem eventualmente vir a ser acionadas”, conclui.
As diferentes versões - e Governo reúne-se com ambos os clubes
O Sporting, em comunicado, fala em "práticas inaceitáveis" e solicitou uma reunião urgente com a ministra da Juventude e do Desporto, Margarida Balseiro Lopes, para exigir medidas contra o que descreve como um padrão de comportamento recorrente do FC Porto em diversas modalidades.
Fonte oficial do Ministério confirmou à Lusa o agendamento da reunião para esta quarta-feira, que vai contar também com a presença do secretário de Estado do Desporto, Pedro Dias, e do presidente da Federação de Andebol de Portugal, Miguel Laranjeiro. A ministra também se vai reunir com o FC Porto.
O FC Porto, também em comunicado, rejeita as acusações de sabotagem sanitária e contra-ataca com uma acusação contra Martim Costa. Mário Santos, diretor-geral das modalidades portista, afirma que o internacional leonino agrediu um adepto durante o aquecimento.
"Há imagens que provam que ele se dirigiu a um adepto e que o terá empurrado", afirmou Mário Santos - e acrescentou que o jogador terá inclusivamente entrado pela bancada para confrontar o espetador.
Quanto ao inquérito criminal aberto pelo Ministério Público, o clube reagiu num comunicado emitido esta terça-feira ao início da noite: "O FC Porto reitera, de forma clara e inequívoca, que não existiam quaisquer condições anómalas no balneário visitante do Dragão Arena, designadamente que tenham resultado de intervenções não usuais na manutenção das suas instalações. Adicionalmente, o FC Porto sublinha que, entretanto, já teve oportunidade de recolher e analisar elementos relativos à operação de preparação do jogo, quer através das suas equipas internas, quer junto de entidades externas, os quais confirmam integralmente a inexistência de qualquer irregularidade, em linha com o que havia sido previamente transmitido. Neste contexto, o FC Porto congratula-se com a abertura do inquérito, por entender que o apuramento objetivo e rigoroso dos factos permitirá esclarecer cabalmente a situação".
O Sporting jogou sob protesto, defendendo que não estavam reunidas as condições sanitárias para o jogo. As autoridades de saúde deram luz verde à partida e o Sporting acabou por vencer por 33-30.